Nuvens Brancas |
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Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância.
O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério.
Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.
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Quinta-feira, Julho 24, 2008
Juremir Machado UMA LINDA HISTÓRIA O maestro João Carlos Martins esteve em Porto Alegre para reger a Ospa. Acompanhei as suas entrevistas, especialmente a que deu para Sérgio Couto, do 'Programa das 7', da Rádio Guaíba. Maravilhosa. O Serginho está fazendo o melhor programa de cultura do rádio gaúcho. Há quem só ache bela uma história triste. Como se apenas no sofrimento existisse grandeza. São os admiradores sádicos da desgraça alheia. Ou se expressam mal. Querem louvar a superação e terminam valorizando a dor. Acabam sempre no elogio sob a forma de sermão ou de moral e cívica: fulano é um exemplo... João Carlos Martins tem uma história triste. Mas, acima de tudo, bela. Apaixonado por música desde menino, estudou piano e mostrou ter muita bala nos dedos. Aos 20 anos de idade, apresentava-se no Carnegie Hall. Seria o maior intérprete de Bach. Uma lesão, num jogo de futebol, em Nova Iorque, tirou-lhe, no entanto, o movimento da mão direita. Parece um filme terrivelmente dramático: a angústia do pianista na hora do gol. Ele não desistiu. Não está na sua personalidade. Fez tratamento. O jogo, às vezes, perverso da vida prosseguiu. As suas mãos foram afetadas pela doença dos movimentos repetitivos. Parou de tocar e tornou-se, nessa sua permanente relação com o esporte, treinador de boxe. Isso é tão verdadeiro que parece inverossímil. Aos poucos, voltou à música e inventou um novo estilo para a deficiência das suas mãos doentes. Virou o pianista da mão esquerda. Sucesso total. Aí, em Sofia, na Bulgária, foi assaltado e recebeu um golpe na cabeça, perdendo novamente parte do movimento das mãos. A esquerda foi a mais afetada. Ainda assim, continuou a tocar com os dedos que, a cada dia, podia usar, ritmando as notas com o sofrimento que sentia. Não havia saída. Fim de linha. Em 2003, sonhou que o maestro Eleazar de Carvalho lhe dizia: 'Vem, que eu vou te ensinar a reger'. Foi. Entrou numa escola e aprendeu regência. Rapidamente começou uma nova e bem-sucedida carreira. Hoje, com a Bachiana Filarmônica, ele brilha muito e não perde a simplicidade. De quebra, trabalha música semanalmente com jovens carentes, despertando sensibilidades e sonhos considerados por muitos, os pragmáticos, como fadados aos porões da alma. João Carlos Martins é um exemplo? Certamente. Mas não é isso que importa. Afinal, nem todos têm o mesmo talento nem a mesma capacidade de superação. Fundamental é a sua história. Em si mesma. Mesmo que ninguém pudesse segui-la ou dela tirar uma lição, ainda assim se trataria de algo extraordinário e maravilhoso. Esse é o sentido da arte. E do esporte. Antes de ser um exemplo para uma humanidade ordeira ou disciplinada, como sempre sonharam os funcionalistas dos regimes autoritários, arte e esporte devem ser fruição em si mesmos. Ou seja, a paixão pelo gesto sublime acima de tudo. É por isso que se diz, embora os simplórios e os fanáticos pelo sucesso não entendam, que um artista produz, mais do que tudo, para si mesmo. Um escritor, por exemplo, na solidão do seu ambiente de trabalho, renova a cada dia o amor pelo ato da escrita, alheio ao resultado ou aos aplausos. Quer escrever. Essa é a sua vida. João Carlos Martins tem tanto talento que o sucesso nunca lhe abandonará. Ele, como um grande artista, nunca abandonará a música. O boxe com certeza perdeu um grande treinador. juremir@correiodopovo.com.br Uma excelente quinta feira para todos nós Quarta-feira, Julho 23, 2008
GILBERTO DIMENSTEIN Uma vida em quadrinhos Gualberto Costa abriu, na praça Roosevelt, uma livraria especializada em HQs que funciona até de madrugada HÁ SETE MESES, GUALBERTO COSTA resolveu se aventurar e colocar suas poucas economias num inusitado negócio: uma livraria especializada em histórias em quadrinhos, na praça Roosevelt, aberta durante a madrugada. O horário de funcionamento adaptou-se ao dos freqüentadores da praça, uma tribo que aprecia a boêmia combinada com o teatro alternativo, circulando em meio aos travestis, drogados, mendigos e prostitutas. "Sempre tive o projeto de criar um lugar que cultuasse o universo das histórias em quadrinhos", conta Gualberto, um dos idealizadores do principal prêmio brasileiro para essa modalidade de arte gráfica, o HQ MIX, cuja entrega ocorre hoje. Provavelmente, se tivesse feito um "business plan" para seu empreendimento, ele não receberia muito estímulo. Se já é difícil manter uma livraria num país de iletrados, imagine então num local como a praça Roosevelt, cuja clientela que consome alguma cultura só anda por ali de madrugada (nem sempre sobriamente), mudando a paisagem do começo da rua Augusta. Ele próprio seria um interessante personagem de quadrinhos. No começo da década de 1970, prestou vestibular para engenharia e arquitetura no Mackenzie. Estava convencido de que deveria fazer, ao mesmo tempo, os dois cursos, que lhe pareciam complementares. No intervalo entre os dois vestibulares, comprou uma revista alternativa de artes gráficas ("O Balão") e leu uma matéria sobre cartunistas e autores de HQs -alguns deles, informava o texto, estudantes do Mackenzie. Local da leitura: praça Roosevelt. "Foi nesse lugar, lendo a revista, que comecei a imaginar minha vida de artista gráfico." Naquele mesmo ano, Gualberto, sem nenhuma pretensão, tinha vencido um concurso de histórias em quadrinhos. Os cursos foram concluídos, mas serviram apenas para levá-lo ao prazer da produção de HQs. Isso, no entanto, durou pouco tempo -ele logo desistira da profissão de desenhista. "Preferi ser um militante da arte a ser um artista." Ele preferiu ser um animador cultural. Participou da fundação de salões de humor (como o de Piracicaba), liderou o movimento para a criação de um museu de artes gráficas (apesar de aprovado em decreto estadual, ficou no papel) e, enfim, idealizou o prêmio HQ MIX. A movimentação provocada pelos teatros alternativos, trazidos pelo grupo Os Satyros, escrevia um roteiro da recuperação de uma cidade. Lendo ou conversando com antigos moradores, Gualberto sentiu-se tentado a quebrar o jejum de 15 anos e a escrever um livro cujo cenário é a praça Roosevelt, com seus antigos e novos personagens. Gualberto ainda não sabe se tem um negócio para ganhar dinheiro, mas desconfia que talvez tenha um bom caso para contar -e, é claro, numa história em quadrinhos. gdimen@uol.com.br
23 de julho de 2008 N° 15671 - Martha Medeiros A inocência dos vereadores Algum tempo atrás, durante o programa Saia Justa, a jornalista Mônica Waldvogel fez uma divertida e enxuta definição sobre o gênero humano: mulher é chata, homem é bobo. Tive que rir, porque a generalização, ainda que desfavorável para ambos os sexos, tem lá sua razão de ser. Nós, mulheres, temos muitas qualidades, mas somos chatas. Dramatizamos tudo, nos apegamos a detalhes, não damos férias para nossas mágoas, temos vocação pra sargento, já nascemos adultas, e gente adulta demais é chata. E os homens são maravilhosos, mas como são bobos. Ficam se comparando uns com os outros, têm o ego inflado, contam vantagens para disfarçar a insegurança, são eternos meninos. Você acha que não procede? Ah, procede. Um exemplo disso foi parar no jornal ontem: cinco senhores de Carazinho, vereadores a serviço da vida pública, deram seu voto a favor para que a Câmara Municipal homenageasse as moças que trabalham numa danceteria, com a justificativa de que elas oferecem momentos de descontração a seus clientes. Podem ser mais bobos? Uma notícia como essa, para quem tem bom humor, é um refresco entre tantas reportagens sobre tiroteios e mortes estúpidas. Eu achei engraçado. Fiquei imaginando esses cavalheiros depois do expediente, ou mesmo em plenário, comentando sobre os ótimos serviços da boate Garotas da Gogo e tendo a idéia de fazer uma deferência pelos nove anos de aniversário da casa, sem achar que isso fosse gerar qualquer incômodo. Chego a ficar comovida com a pureza deles. Homenagem, quem não gosta? Imagino que em Carazinho tenha um armazém comemorando cinco anos de funcionamento, uma farmácia completando 10 anos na rua principal, uma lotérica há 15 anos servindo à população, e todos esses estabelecimentos já devem, também, ter sido contemplados com uma moção comemorativa apresentada pela Câmara. É bonito que os vereadores queiram homenagear não só esses, mas todas as classes de trabalhadores, sem exceção. Talvez tenham pensado que uma consideração às moças contaria pontos junto à comunidade, pois demonstraria que os políticos da região não têm preconceitos. Bobos. Esqueceram que está todo mundo aí fora a fim de apontar nossos erros, de julgar nossas atitudes, de colocar o dedo no nosso nariz e gritar: culpado! Se ofereceram para o sacrifício na maior boa-fé, achando que a sinceridade do gesto bastaria para que fossem compreendidos. Ninguém quer compreender ninguém, só se pensa em acusar. Hoje em dia, até mesmo crianças já aprenderam a trocar ingenuidade por autopreservação. De certa forma, fiquei feliz de saber que ainda resta uma certa inocência no mundo. E que há mulheres, como as garotas da Gogo, que fogem à regra: duvido que sejam chatas. Hoje quarta-feira é o Dia Internacional do sofá. Aproveite, namore e que tenhamos todos uma ótima quarta-feira. Terça-feira, Julho 22, 2008
RUBEM ALVES A aldeia nunca mais será a mesma Algo de anormal aconteceu, interrompendo a rotinado cosmos: a Dercy Gonçalves ficou encantada ENTRE CERTOS POVOS ditos primitivos, cujos costumes eram rigorosamente regulados por leis que os séculos haviam acumulado, o aparecimento de algum fenômeno incomum nos céus era sinal de que transgressões desses costumes eram permitidas na terra. É lei dos jornais que só se publicam notícias novas. Isso vale para os tempos normais. Mas algo de anormal aconteceu, interrompendo a rotina do cosmos: a Dercy Gonçalves ficou encantada. Considero esse fato como um sinal nos céus que me permite transgredir a lei dos jornais: vou contar uma história que já publiquei muitas vezes. É um conto do Gabriel García Marquez, que, na minha opinião, é o conto mais fantástico jamais escrito. Era uma aldeia de pescadores perdida num fim de mundo, onde a monotonia e o tédio haviam se apossado dos corpos dos homens e das mulheres, de sorte que, dos seus olhos, fugira toda a luz, e ninguém esperava receber das palavras de alguém fosse beleza, fosse sorriso, fosse amor... Era a eterna repetição do mesmo enfado e do mesmo tédio... Foi então que um menino que olhava para o mar viu uma forma flutuando ao longe, diferente de tudo o que ele já havia visto. Ele gritou -e todos vieram correndo, na esperança, talvez, de uma novidade que lhes desse assunto sobre o que falar. E lá ficaram, parados na praia, esperando, até que finalmente o mar, sem pressa, depositou a coisa estranha na areia... Era um morto desconhecido, tendo por roupa só as algas, os liquens e as coisas verdes do mar. Desconhecido, sem passado e sem nome... Mas tinham de fazer o que deviam: os cadáveres têm de ser enterrados. E era costume naquela aldeia que os mortos fossem preparados pelas mulheres para o sepultamento. Assim, o levaram para uma casa e o colocaram eucaristicamente sobre uma mesa, as mulheres de dentro, os homens de fora, e grande era o silêncio -até que uma delas, com voz trêmula, observou: "Tivesse ele morado em nossa aldeia, teria de ter abaixado a cabeça sempre para entrar em nossas casas, pois é alto demais"... E todos assentiram com um imperceptível gesto de cabeça. Mas logo uma outra falou -e perguntou como teria sido a voz daquele homem, se teria tido em sua boca as palavras que fazem com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo... E todas sorriram, algumas delas chegando a passar as mãos pelo cabelo, com saudades... E grande foi o silêncio, até que aquela que limpava as mãos inertes do morto perguntou sobre o que elas teriam feito, se teriam construído casas, travado batalhas, navegado mares e se teriam sabido acariciar o corpo de uma mulher... Ouviu-se, então, um discreto bater de asas, pássaros de fogo entrando pelas janelas e penetrando nas carnes. E os homens, espantados, tiveram ciúme do morto -que era capaz de fazer amor com suas mulheres de um jeito que eles mesmos não sabiam. E pensaram que eram pequenos demais, tímidos demais, feios demais, e choraram os gestos que não haviam feito, os poemas que não haviam escrito, as mulheres que não haviam amado. Termina a história dizendo que eles, finalmente, enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma. A Dercy Gonçalves morreu. Nossa aldeia nunca mais será a mesma...
GREAVES, O QUASE MALDITO’ Porto Alegre é uma cidade faceira. Toda hora recebe alguma sumidade artística. Tem para todos os gostos. Faz pouco, veio a linda e espetacular Joss Stone, que só desafinou ao recusar, por desconhecimento, o que a absolve por completo, uma camisa do Internacional jogada pelo público. Agora mesmo, no Festival de Inverno da Secretaria Municipal da Cultura, o uruguaio Jorge Drexler encantou os seus fãs já encantados. Nesta quarta-feira, no Sesc, será a vez de John Greaves. O homem, embora pouco conhecido no Brasil, é uma fera. Britânico, tem passado os últimos 20 anos mais em Paris do que em qualquer outro lugar, o que é sempre uma boa credencial. Não pode ter mau gosto quem escolhe Paris para viver. Foi aí que ele decidiu gravar um disco interpretando versos do poeta maldito Paul Verlaine, o mesmo que abandonou a mulher, isso no século XIX, para namorar o não menos maldito Rimbaud, beirando os 18 anos de idade, em quem deu um tiro e, por essa singela demonstração de amor, teve de passar uma temporada luminosa na cadeia, onde burilou sua veia melancólica, enquanto o seu antigo amor tomava outros rumos, trocando a poesia radical por algo mais pacífico e rentável, o tráfico de armas na África. Greaves faz rock, jazz, música eletrônica e o que mais se possa imaginar. Fui, a convite do serelepe Ronan Prigent, bater um papo com Greaves no Bistrô do Margs. Saí de casa com uma questão inevitável: por que Verlaine e não Baudelaire? A resposta só podia ser uma: os versos 'ímpares' de Verlaine se adaptam melhor a ser musicados e cantados do que os alexandrinos de Charles Baudelaire. Um roqueiro erudito. É mole? Quem gosta de poesia não pode perder essa parada. Fui conferir no MySpace e vi que Greaves não brinca em serviço. Nada como falar de poesia para tornar a vida mais interessante numa segunda-feira. Greaves diz que não mexeu em uma só vírgula dos versos de Verlaine. Lembrou que alguns o fizeram. Por exemplo, Charles Trenet, numa das minhas canções favoritas, conhecida justamente como 'Verlaine', trocou 'blessent mon cœur' (ferem meu coração) por 'bercent' (embalam). Nunca é demais recordar que estes extraordinários versos, 'les sanglots longs des violons de l’automne/ blessent mon cœur d’une langueur monotone', a 'mensagem Verlaine', foram difundidos pela BBC em junho de 1944 como sinal do desembarque aliado na Normandia. Esse pessoal, definitivamente, fazia tudo em altíssimo estilo. O maior elogio feito por grandes jornais como Le Monde e Libération a Greaves é classificá-lo de inclassificável. John canta em francês, língua estranha ao rock, a poesia de um clássico da França. Isso é que é ousadia. Deu tão certo que até agora nem sequer o seu sotaque foi criticado. O artista gosta de poetas malditos e tem talento para ser maldito. Só não o é, no sentido literal, por serem muitos os seus admiradores contumazes. Temi que o show de Greaves coincidisse com outro espetáculo poético imperdível, o jogo do Inter contra o São Paulo. Nesse caso, haveria um conflito de interesses de dilacerar o coração. Felizmente, o show de Greaves começa às 20h e termina às 21h30min. O jogo do Inter começará 15 minutos depois. Não há, portanto, desculpa. Pessoas de extremo bom gosto poderão assistir aos dois. Não há incompatibilidade entre essas duas coisas. Em francês, 'jouer' serve para jogar, tocar, brincar... juremir@correiodopovo.com.br Ainda que com chuva e ciclone extra tropical que tenhamos todos uma ótima terça-feira Segunda-feira, Julho 21, 2008
Jaime Cimenti Um dia de sol Naquela manhã de domingo, eu não tinha nenhum Prêmio Nobel a receber e nem a Juliana Paes estava me esperando no Parcão. Prêmio Nobel, Juliana Paes, o que é mais importante? Você decide. Eram apenas nove da madrugada e eu nem sabia que tempo fazia lá fora, mas, mesmo assim, pulei da cama, ou melhor, para falar bem a verdade, fui levantando e me desenrolando devagarzinho feito um gato fazendo alongamento na academia de ginástica. Vesti o abrigo esportivo, calcei os tênis e acordei um pouco mais quando abri a janela e o sol entrou por ela mansamente, pousando elegantemente igual à claridade de lâmpada dicróica. Um dia de sol. Lembrei da rainha Elisabeth II, da Inglaterra. Não sou fã dela, gostava mais até da mãe dela, a rainha-mãe, que guardava uma garrafa de gim debaixo da cama. Mas esses dias, na televisão, no dia do seu aniversário de 82 anos, ela me comoveu. Perguntaram para Elizabeth II o que ela queria de presente. Como se tivesse a resposta pronta há quinze anos, ela, uma das mulheres mais ricas e poderosas do mundo, disse simplesmente: um dia de sol. Em Londres, como se sabe, não tem muito sol, e a rainha tem de tudo. Fiquei pensando uns minutos nela e no dia de sol, tomei café com leite, comi uma torradinha de pão de centeio e uma banana, tomei meus remédios e fui caminhar no Parcão. Descendo pela Padre Chagas, fiquei observando o sol, a luz do sol e aquele céu azul de brigadeiro e fiquei feliz pela idéia para esta crônica. Não foi uma idéia original, claro, nem muito criativa, mas fiquei pensando que prefiro sol, calor e luz do que escuridão, sombra, neblina, chuva e frio. Não tenho nada contra quem gosta de inverno, de roupas pesadas, do escuro e das cores tristes da estação. Sei que a natureza precisa de tudo, mas nada como a luz do sol para achar que o mundo e tudo mais estão começando de novo. A luz do sol está aí sempre reinaugurando o mundo e a vida. É show antigo, milenar, imortal e está em cartaz há mais tempo que as peças e os fantasmas de Shakespeare e O Fantasma da Ópera, na Broadway. E, ainda por cima, o sol nem cobra nada. E olha que hoje no mundo não tem almoço e nem muita coisa de graça por aí. Aproveite o dia, aproveite o dia de sol! É de grátis! Jaime Cimenti - Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana para todos nós. Domingo, Julho 20, 2008
Diogo Mainardi Eu sou a Britney Spears! "O relatório da PF sobre a imprensa, apesar de grotesco, merece ser analisado por outro motivo: ele mostra claramente quem foi o inspirador do inquérito. Todos os jornalistas citados pisaram no pé de Luiz Gushiken e seu bando. Eu pisei. Um bocado" Um relatório da PF me acusou de ser colaborador de Daniel Dantas. Quando li meu nome nas páginas policiais, pensei, tremulante e sem ar: – Amy Winehouse! Eu sou a Amy Winehouse! Imagens assustadoras passaram por minha mente. Eu, embriagado e algemado, na porta de uma delegacia. Eu, num bar, aos tapas e pontapés. Eu, de sutiã, vagando pelas ruas da cidade. Depois pensei, ainda mais angustiado: – Britney Spears! Eu sou a Britney Spears! Me vi de cabeça raspada. Me vi fotografado, sem cuecas, descendo de um carro. Me vi perdendo a guarda de meus filhos. A idéia de que sou um colaborador de Daniel Dantas é uma patetice. Basta ler os grampos da PF. Sabe o que há contra mim? Daniel Dantas e seus funcionários comentaram uma de minhas colunas e mandaram traduzir um documento que disponibilizei a todos os leitores na internet. Meu crime é ser lido. O relatório da PF sobre a imprensa, apesar de seu caráter grotesco, merece ser analisado por outro motivo: ele mostra claramente quem foi o inspirador do inquérito, e qual era seu objetivo. De um jeito ou de outro, todos os jornalistas citados pisaram no pé de Luiz Gushiken e seu bando. Eu pisei. Um bocado. No comecinho de 2007, Luiz Gushiken até mandou a PF me investigar. Pisei no pé também de seus blogueiros de aluguel. E no do atual diretor da Abin, Paulo Lacerda. E no de seu antecessor no cargo, Mauro Marcelo. E no de Luiz Roberto Demarco, denunciando a montanha de dinheiro que ele ganhou como lobista da Telecom Italia. Aliás, desconfio que o próprio Demarco tenha ajudado a fabricar o relatório sobre a imprensa. É um acerto de contas com alguns de seus maiores desafetos, tanto profissionais quanto pessoais, como Guilherme Barros, da Folha de S.Paulo, cuja única culpa foi ter se casado com sua ex-mulher. Por tudo isso, digo que o inquérito contra Daniel Dantas e Naji Nahas só pode ser interpretado da maneira mais elementar: foi a última cartada de Luiz Gushiken e seus palermas para tentar impedir a compra da Brasil Telecom pela Oi. Há recados para todos os que participaram do negócio, até mesmo para Lula, por meio dos grampos em Gilberto Carvalho. A compra da Brasil Telecom pela Oi é realmente escandalosa. Espero que Luiz Gushiken consiga afundá-la. Se dependesse apenas da PF, porém, os quadrilheiros sairiam impunes. Ainda bem que há juízes e procuradores para controlar todos os abusos. Eles podem separar direitinho o que é crime e o que não é. Todo mundo aqui sabe que eu gosto de contar vantagem. É o que vou fazer agora. Quatro meses atrás, concluí um podcast para Veja.com da seguinte maneira: "O plano da ala trotskista do PT, de Luiz Gushiken, era reestatizar a telefonia com dinheiro dos fundos de pensão e do BNDES. Como sempre acontece com os trotskistas, eles bobearam e acabaram com um picador de gelo enterrado no cocuruto. A Oi está abocanhando a Brasil Telecom, mas seu comando será entregue aos grandes financiadores de Lula e de seus filhos, em sociedade com Daniel Dantas. A ala trotskista do PT ainda pode tentar melar o jogo usando aquilo que lhe resta: um pedacinho da PF, outro pedacinho da Abin, outro pedacinho do Ministério Público. Para quem está do lado de fora, é uma farra acompanhar a guerra entre os companheiros petistas. O Brasil está completamente rendido. Agora só o PT pode destruir o PT". Já posso tirar o sutiã?
20 de julho de 2008 N° 15668 - Martha Medeiros O luxo de cara lavada Gosto de moda, mas gosto ainda mais de atitude. Roupas bacanas a gente compra, basta dinheiro e informação. Mas atitude é outra coisa: é saber se destacar e inventar um novo estilo, deixar sua marca pessoal. Garotas como Luiza Lovefoxxx e Amy Winehouse estão na vitrine do showbiz, lançam tendências para uma geração adolescente (ou com alma de adolescente) e exploram ao máximo o visual inusitado. Mas escrevo sobre outro tipo de atitude: o da mulher que ousa, mas faz isso com elegância, sem apelar para um visual de circo. Recentemente, uma loira e uma morena chamaram minha atenção por conseguirem fugir completamente do script sem perder a classe. Uma foi a Xuxa, que foi a um casamento usando um lindíssimo e vaporoso vestido comprido e, por cima, em vez de uma echarpe, um xale ou qualquer obviedade para se proteger do frio, vestiu uma jaqueta jeans. Se eu não tivesse visto a foto, se apenas tivesse ouvido falar a respeito, teria torcido o nariz e considerado um desrespeito aos noivos, que estavam dando uma festa chique e não promovendo uma rave. Mas eu vi a foto. E gostei do que vi: Xuxa estava surpreendentemente adequada. O vestido, as jóias, a maquiagem, tudo conspirava pra fazer da jaquetinha jeans um acessório compatível com a ocasião. E ao mesmo tempo que ela dava um toque moderno à produção, dava também um recado importante: o simples é sempre um artigo de luxo, desde que não seja usado como forma de agressão, de provocação, e sim para firmar uma personalidade. No entanto, no quesito eu-sou-mais-eu, quem ficou com o cetro e a coroa foi a Miss Universo do ano passado, a japonesa Riyo Mori (aquela que tirou o primeiro lugar da nossa Natália Guimarães). Domingo passado, durante a escolha da Miss Universo 2008, ela foi chamada para entrar no palco para seu desfile de despedida, e eu logo a imaginei vestindo um longo de paetês, portando colares e brincos de 200 toneladas e com aquela mão mole, abanando para seu passado. Pois eis que entra uma mulher de calça comprida preta, fraque preto, rabo-de-cavalo e apenas um brilhantezinho minúsculo na orelha. Peraí. Calça comprida? Rabo-de-cavalo? Sem esmeraldas exuberantes? Os concursos de miss, que eram um acontecimento décadas atrás, tiveram uma queda-livre em prestígio. Esse ostracismo durou até bem pouco tempo. Agora voltaram a despertar algum interesse, ainda que nem perto do que provoca um desfile de modas. Houve uma certa agilização no formato e as misses, hoje, podem até mudar de cara se quiserem e mudam. Injetam e lipoaspiram tudo o que manda a cartilha para alcançar um padrão miss venezuela país que, não por acaso, levou o título esse ano, repetindo pela quinta vez o feito. Ficam quase todas com o mesmo visual travesti-chic, a bordo de vestidos que nem a Sarah Jessica Parker se atreveria a usar e olha que Carrie segura qualquer exagero. É aí que entra Ruyo Mori para fazer um desfile de despedida que mais parecia um desfile de abertura - de uma nova era. Surgiu para dar adeus ao seu reinado de miss usando calça comprida, e ainda assim esbanjando sofisticação e feminilidade. Foi a queima de sutiãs do mundo encantado das peruas. Aplaudo quebras de protocolo feitas com categoria. Eu teria despachado a miss Venezuela pra casa e manteria a faixa com a japa. Sábado, Julho 19, 2008
19 de julho de 2008 N° 15667 - Nilson Souza Neblinas Amigos também servem para provocar. Estava pensativo diante da tela branca do computador no dia de redigir este texto quando uma colega de ofício, com perspicácia suficiente para adivinhar o que me passava pela alma, aproximou-se sorrateira e sugeriu: - Por que não escreves sobre separação? Às vezes, sou rápido no gatilho das respostas. Poderia ter dito, por exemplo, que gosto mais de escrever sobre reencontros. Mas sua pergunta me pegou tão desprevenido, que não consegui dizer nada. Ela sabia, a espertinha, que eu estava curtindo uma daquelas saudades demolidoras para gente de coração mole. Na antevéspera, a menina dos meus olhos havia embarcado no seu primeiro vôo solo, para longe e para o desconhecido. E - o mais doloroso - sem desligar o seu sorriso adolescente na hora do tchau. Viajou com as amiguinhas, feliz pela perspectiva da primeira aventura em busca da independência. Fui o primeiro a incentivá-la. Sei bem que os pássaros precisam sair do ninho para conquistar o brevê da vida. Mas este é o lado racional da história. Quando a neblina daquela manhã se dissipou e o avião desapareceu no horizonte, a pista do meu olhar continuou sem teto para pousos e decolagens. Quem disse que o coração não sente o que os olhos não vêem? Depois da provocação, minha amiga lançou a isca do consolo. Lembrou que a vida é assim mesmo, que as mães sempre choram para deixar os filhos no primeiro dia de escola e que a maioria das crianças nem liga para a momentânea separação. Mais: me falou de sua própria saudade, como se este não fosse um sentimento exclusivo e intransferível. Ouvi-a com atenção e com solidária compaixão. Se não estivesse tão sem graça, teria recitado para ela uma trova que aprendi na infância e que podia até funcionar como um ingênuo galanteio: "Saudades de alguém ausente/ devem ser tristes, por certo/ mas são mais tristes se a gente/ as tem de alguém que está perto". Preferi, no entanto, ficar calado e transformar estas reflexões saudosas na certeza de um reencontro compensador. É a minha homenagem aos pais, mães, avós, tios, namorados e amigos que recolheram com os olhos a neblina daquela manhã para o avião partir em segurança. Um ótimo sábado e um fantástico fim de semana. Sexta-feira, Julho 18, 2008
18 de julho de 2008 N° 15666 - Liberato Vieira da Cunha Da caixa de guardados Há pessoas que colecionam amores, notas de cem, carimbos de passaporte. Eu há muito coleciono frases que gostaria de ter escrito. Sobre a felicidade. "Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente." (Erico Verissimo) Sobre o passado. "É o futuro, usado." (Millôr Fernandes) Sobre o futuro. "Tenho, às vezes, saudades do futuro." (Teixeira de Pascoaes) Sobre a saudade. "Que me quereis, perpétuas saudades? Com que esperança ainda me enganais?" (Camões) Sobre a paixão. "Nós só conhecemos as paixões dos outros, e o que chegamos a saber das nossas, é deles que pudemos saber." (Proust) Sobre a sabedoria. "Deus conceda sabedoria aos que já a possuem e permita que os tolos se valham de seus talentos." (Shakespeare) Sobre o tempo. "Perdido está todo o tempo que em amor não se gasta." (Tasso) Sobre o amor. "Distante o meu amor, se me afigura / O amor como um patético tormento / Pensar nele é morrer de desventura / Não pensar é matar meu pensamento." (Vinícius de Moraes) Sobre o pensamento. "Os pensamentos são tentações; são as que nos vêm de Deus; não propriamente que Deus nos mande; elas nascem da própria busca de Deus." (André Gide) Sobre a solidão. "Nunca encontrei companhia mais sociável do que a solidão." (Thoreau) Sobre a leitura. "Gosto de perder-me nas mentes de outras pessoas. Quando não estou caminhando, leio; não sei ficar sentado e pensar. Os livros pensam por mim." (Charles Lamb) Sobre os livros. "Todos os livros se parecem por serem mais verdadeiros do que se tivessem acontecido realmente." (Hemingway) Sobre a beleza. "A beleza é o acordo entre o sentido e a forma." (Ibsen) Sobre a liberdade. "Liberdade, liberdade, / Abre as asas sobre nós." (Medeiros de Albuquerque). Uma ótima sexta-feira e um excelente fim de semana. Quinta-feira, Julho 17, 2008
JOSÉ SIMÃO Ereções 2008! "Piranhas Quer Mais'! E diz que o Cacciolla já tá sendo punido. Vem de TAM! E na classe econômica! Rarará! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Sabe como é o nome do palácio real que o Lula visitou na Indonésia? Merdeka! O Lula tá na Merdeka! E em Alagoas tem uma cidade chamada Piranhas que já lançou uma coligação pra Ereções 2008: "Piranhas Quer Mais". Que sejam bem-vindas. Rarará. E o Supremo Tribunal Federal acaba de lançar um produto no mercado. Pra dar uma faturada: ABSOLVENTE SEMPRE LIVRE! E os Gornaldos? Gornaldo FOINÔMENO e Gornaldo Gaúcho. De Dantas pra Panças. Que panças são aquelas. Eles vão lutar sumô. Atenção! Hoje! Luta de Sumô! Gornaldos do Brasil! E diz que com aquela barriga não adianta mais Photoshop. Agora é PHOTOCHOPE! Rarará! Eles têm salários astronômicos e gastronômicos! E diz que a Seleção sem o Kaká é um Kokô! E diz que o Cacciolla já tá sendo punido. Vem de TAM! E na econômica! Rarará! E a Polícia Federal? Adoro os nomes das operações: Hurricane, Jezebel, Pecado Capital e Solta-e-Agarra. Tanto que tem um novo departamento na Polícia Federal: Departamento de Criação. SILÊNCIO! Eu acho que primeiro eles criam o nome da operação e depois escolhem o escândalo. Esse nome é genial! Só falta o escândalo! Rarará. E um leitor me disse que não posso filiar a Gretchen ao meu partido: PGN, o Partido da Genitália Nacional. Porque bunda não é genitália. Não tem problema. A gente cria o PGN do B. Partido da Genitália Nacional da Bunda! Viva as funkeira! Viva as cachorra! Rarará! É mole? É mole, mas sobe. Ou como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que um amigo meu estava viajando por uma estrada argentina quando viu a placa: "Atención! A 500 m: PUTA"! Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Corega": companheiro que deixou o partido e foi pro Japão! Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E vai indo que eu não vou!
OS DEZ MAIS DO BRASIL Como se trata de gente fina, eu deveria dizer 'top ten'. O Brasil sempre foi um país de grandes personalidades. Temos o nosso maior traficante de drogas, Fernandinho Beira-Mar, reduzido à condição de celebridade criminosa presa há mais tempo. Há algo errado com ele ou com o sistema. O sujeito não foge, não é assassinado na cadeia e não ganha condicional. Será que se esqueceu de financiar a campanha de alguém? Temos também o maior contrabandista, Law Kin Chong, maior fornecedor da conhecida rua 25 de Março, em São Paulo. Esse não teme 'chonga' alguma. Conhece o entrai-e-sai da prisão. Agora, num nível mais sofisticado, temos Daniel Dantas. Esse corre perigo. Os colegas estão furiosos com ele. Cometeu um crime imperdoável. Concorrência desleal. Inflacionou o mercado do suborno ao oferecer R$ 1 milhão a um policial. Esse tipo de atitude desorganiza os negócios. Há, no entanto, pontos positivos. Acabou o bordão de que decisão de Justiça não se comenta. Agora são os juízes que comentam decisões do presidente do STF e pedem a cabeça do homem. Melhor assim. Afinal, estamos no país das simples coincidências. O delegado Protógenes Queiroz pediu afastamento da Operação Satiagraha. Vai fazer, por ironia, um curso de aperfeiçoamento pessoal. Certamente, para aprender a não se meter onde não foi chamado. É o mesmo que foi descrito como 'descontrolado' pelo advogado de Dantas, o petista Luiz Eduardo Greenhalgh, numa gravação flagrada pela Polícia Federal. O ex-paladino da ética, nessa ligação, pedia ao secretário da Presidência da República que 'desse um toque' no chefão da PF, visto que havia alguém seguindo o principal cupincha de Daniel. Enfim, temos também na lista dos dez mais a Polícia mais perigosa, a do Rio de Janeiro. Em cada três ações, comete um engano e mata um inocente. A população já pensa em pedir ajuda aos bandidos para se proteger. Temos também os juristas mais preocupados com abuso de poder contra figurões. Graças a essas sumidades, quase sempre sumidas quando se trata de pobre sem camisa, de cara no chão ou arrastado feito bicho, as algemas serão reservadas às classes infames, da qual fazem parte os fornecedores daquilo que é consumido pelas classes mais empoadas. Faz sentido. Um cara como Dantas não precisa de algemas. Não vai sair correndo nem puxar uma arma. Puxa o celular e consegue um habeas corpus. Com elegância. Temos também a Mesa do Senado mais cara-de-pau. Essa mesma que tentou aprovar a criação de 97 cargos sem concurso e com salários de R$ 10 mil mensais. Não colou. Incrível é que ninguém saiu algemado por tentativa de assalto. Temos também o biógrafo com mais fontes e grandes histórias. Fernando Morais já contou os pensamentos de Assis Chateaubriand em coma. Repetiu a dose com Paulo Coelho. Quer dizer, conta os pensamentos de Paulo Coelho sendo comido. É duro? Mas vende. Temos os dois craques mais fofos e parados do mundo, Ronaldão e Ronaldinho, ambos especializados em atuar na Espanha e em dar golpe nos italianos. Se falhar, eles já têm um plano 'b': a primeira dupla de pagode caipira internacional. Na França, onde 'gros' quer dizer 'gordo', eles são conhecidos como Gronaldão e Gronaldinho. Enfim, temos o presidente do STF, Gilmar Mendes, o cara que mais solta o mesmo homem de prisões tão temporárias que já estão sendo chamadas de 'rapidinhas'. Ao menos, Dantas já identificou o culpado e o que há de ilegal nisso tudo: as provas. juremir@correiodopovo.com.br Com previsão de muito sol ainda para hoje, que tenhamos todos uma ótima quinta-feira Quarta-feira, Julho 16, 2008
Daniela Chiaretti - Valor Econômico - 16/7/2008 Clima pode provocar perdas de US$ 100 bi Nos últimos 30 anos, perdas provocadas por tempestades, secas e furacões aumentaram em 15 vezes, segundo cálculos do desembolso pago pelas seguradoras no mundo. Somente em 2005, as catástrofes naturais significaram danos de US$ 60 bilhões. Projeções indicam que, entre 2010 e 2019, os prejuízos devem ficar próximos a US$ 41 bilhões ao ano, e algumas estimativas mais pessimistas trabalham com cifras de até US$ 100 bilhões. As mudanças climáticas estão definitivamente incorporadas às planilhas da indústria mundial de seguros. Esses dados impressionantes foram divulgados ontem por Lutz Cleemann, chairman de desenvolvimento sustentável corporativo do Grupo Allianz, a gigante de seguros alemã que é a maior da Europa. "As mudanças climáticas são um grande desafio para o setor de seguros hoje e vão continuar a atingir nossas economias", disse. PhD em física nuclear pela Universidade de Colônia, na Alemanha, Cleemann acredita que o uso da energia nuclear, em um mundo às voltas com o aquecimento da temperatura, "é necessário, pelo menos por um certo período." Esta nova vertente está provocando inovações no cálculo de sinistros e prêmios. Tradicionalmente, a conta se faz tomando por base dados históricos. Agora, as seguradoras trabalham junto de especialistas em modelagens climáticas, buscam os estudos e previsões mais recentes e incluem instrumentos incomuns para construir seus modelos. Uma das ferramentas, por exemplo, é o software do Google Earth. "Não podemos mais olhar para o passado para avaliar riscos" , diz ele. Angelo Colombo, o executivo de grandes riscos da Allianz Seguros, dá pistas da dificuldade citando a análise de riscos que se costumava fazer para hidrelétricas. Nestes projetos, levavam-se em conta séries históricas de chuvas dos últimos 60 anos. " A altura da barragem era definida pela chuva forte com menos probabilidade de ocorrer em mil anos", explica, "mas estes dados históricos não valem mais. Hoje há incidência de chuvas na cabeceira de rios onde antes não ocorriam ou precipitações de intensidade nunca registradas." Segundo Colombo, já aconteceram muitos sinistros em hidrelétricas do Sul do Brasil, instaladas em rios que correm por vales de calha funda, em forma de V. "Há vários casos de alagamento da casa de força, que costuma ficar em áreas mais baixas." As negociações internacionais por um acordo que vigore depois de 2012, quando expira o primeiro período do Protocolo de Kyoto, são acompanhadas de perto pelo setor, assim como investimentos em soluções tecnológicas ou em energia renovável. Linhas especiais de seguros começam a surgir nestes campos. Desde 2005, o grupo Allianz tem parceria com uma das mais sólidas ONGs ambientalistas do mundo, a WWF. Ontem, em seminário promovido pela seguradora, a analista do Programa de Mudanças Climáticas e Energia da WWF-Brasil, Karen Suassuna, mostrou o que se sabe e o que se desconfia que pode ocorrer à Amazônia nos diversos cenários de alta da temperatura da Terra. "Tirar a floresta significa deixar de irrigar a maior área produtora de grãos da América Latina", explicou. "A manutenção da floresta em pé diminui a vulnerabilidade do País."
16 de julho de 2008 N° 15664 - Martha Medeiros Tive uma idéia! Se você escutar alguém dizendo que teve uma idéia, pare tudo e ouça com atenção, mesmo que você suspeite que vá ouvir bobagem. Não importa. O que interessa é que você está diante de alguém que tem esperança, que leva fé em si mesmo, que acredita em alguma coisa. Não vale artista. Artistas têm idéias por dever de ofício, por hábito vocacional, porque nasceram para ter idéias. E o resto da população espera as que chegam prontas, as industrializadas, produzidas em série e divulgadas em revistas. Idéias para decorar seu lar com pouco dinheiro, idéias para renovar seu visual em 10 minutos, idéias para fazer um jantar de última hora apenas com o que você tem na geladeira. Não. Estou falando sobre outro tipo de gente: daqueles raros que têm uma idéia que pode mudar uma vida. Uma idéia como a que teve Beto, protagonista do filme O Banheiro do Papa, que vivia miseravelmente num povoadinho esquecido por Deus e que, na iminência da visita do representante maior do dito-cujo, pensou: vou dar outro final para minha história. Teve uma idéia! Qual seja: muitos peregrinos viriam ver o Papa de perto, iriam passar o dia pelas ruas da cidadezinha, iriam rezar, comer, beber, e depois? Onde iriam fazer suas necessidades? Eureca! Beto resolveu construir um banheiro público, ali, na frente da sua casa, e num único dia ganharia dinheiro suficiente para pavimentar o pátio, para pagar a conta atrasada de luz, para comprar uma moto e para mandar a filha estudar na capital. Nós, na platéia, assistimos a tudo isso com o coração na mão, porque estamos diante de um sonhador, de um idealista, de um cara que cometeu a doidice de acreditar numa idéia sem antes encomendar uma pesquisa de opinião, fazer um planejamento estratégico, buscar um patrocinador e contratar um marqueteiro, que é como as idéias se viabilizam hoje. Beto apenas teve a sua original idéia e colocou o plano em prática, sozinho, como se esperança bastasse para fazer as coisas darem certo. Deveria bastar. Mas, infelizmente, aqui na terra dos céticos, nada é garantido, tudo é risco. E é isso que nos comove no entusiasmo de Beto. Ele acha que não há risco e que não está sendo sonhador, ele tem uma convicção interna que é inquestionável: dará certo porque ele vai fazer dar certo. Alguém segura um sujeito desses? Melhor perguntando: alguém conhece um sujeito desses? Fazem falta os Betos, esses que têm idéias que ora parecem malandras, ora parecem ingênuas, mas que são levadas adiante com tanta garra, que não nos deixam outra saída a não ser torcer por eles, pois fazendo isso estamos torcendo também por nós e pela humanidade, que anda tão carente de otimismo. Aproveite este Dia Internacional do sofá - Uma ótima quarta-feira para todos nós. Terça-feira, Julho 15, 2008
ELIANE CANTANHÊDE Desânimo BRASÍLIA - Enquanto se discute se o foco é no corruptor (banqueiro, megaempresários...) ou no corrupto (agentes públicos variados); se Celso Pitta deveria ou não ser exposto ao vivo e em cores metido em pijamas na própria casa; se pode ou não usar algemas em peixe graúdo...ninguém mais fala da Santa Casa de Misericórdia do Pará. A medida de um Daniel Dantas, de um Naji Nahas ou de um Eike Batista é em bilhões de dólares, e a medida de uma tentativa de suborno de delegados está na bagatela de um milhão e pouco de reais. Já a medida da Santa Casa de Misericórdia do Pará é em míseras centenas -centenas de bebês: 262 bebês morreram ali neste ano, foram enterrados e ninguém soube explicar por quê, nem alguém mais quer saber exatamente o que ocorreu. Bilhões de dólares saem pelo ralo, seja da corrupção, seja da mera ganância patológica, e faltam migalhas para salvar bebês, mães e famílias, não só da morte como do abandono e do desalento. Morrem seis bebês, é coisa comum. Morrem 20, dão de ombro. Morrem 100 e não se acende uma luz amarela. São necessários 262 mártires para a maternidade acordar, o Estado acordar, o país acordar? O debate nacional escorrega do possível corruptor para um leque infernal de supostos corruptos. Um deputado daqui, um advogado de lá, um juiz daqui, um assessor palaciano de lá e, quanto mais aumenta a rede, menos chance de se pegar o(s) peixe(s) graúdo(s). No oceano de acusações cruzadas, de reputações periclitantes, ninguém ouve mais falar dos bebês, nem se horroriza mais com suas covinhas, uma atrás da outra, fantasmagóricas e conformadas. E ainda se fala, e se chora, hoje a morte do menino João Roberto no Rio. Mas só até a próxima bala policial perdida, a próxima vítima indefesa, a próxima família destroçada. Bem-vindo, Salvatore Cacciola! Sinta-se em casa. elianec@uol.com.br
Juremir Machado TROCADILHOS INFAMES Tudo como Dantas no quartel de Abrantes. Isso não é novidade? Claro que não. Nessa área nunca há novidades. O Daniel recebeu a 'Opportunity' que precisava para fugir do país. Talvez não o faça. Supremas razões federais permitem que aja sem pressa no seu acerto de contas. É muito dinheiro para contar. Não cabe em cueca. Nem mesmo em samba-canção tamanho GG. De qualquer maneira, a Justiça só é lenta quando não se tem um bom celular e talvez ele queira usar a cabeça e esperar a volta do Cacciola, que também teve um 'salvatore' no STF, para obter algumas informações e não cometer os mesmos erros de ligação. Quem é ou foi rei de banco brasileiro, evidentemente, não pode depender do príncipe de Mônaco, mesmo que se trate de um Estado mínimo. Daniel Dantas está confuso com essa receita. Caiu na malha fina da PF, mas escapou pelos buracos largos do STF. Com ele nunca tem questão local. Tudo na sua vida é federal. Até os amigos que ajuda. Daniel Dantas vai para o Guinness como recordista de prisões e libertações na categoria dos golpes bilionários. Justiça seja feita, está provado com esse prende-e-solta que a Justiça não é cega. Nunca foi. Faz muito bem a diferença entre um tubarão e um peixe da arraia miúda. Enxerga um banqueiro a milhas de distância em pleno alto-mar e com mais nitidez ainda quando o vê no Planalto Central. Dantas escolheu mal as companhias. Não sabia que não se deve ter parcerias com Najas, quer dizer, Nahas, ou seja, com gente que não Pitta tanto quanto ele? Parece que Dantas se queixou no longo tempo em que passou detido. Teria perguntado: não tem sequer um banco aqui? Ao sair, teria ouvido uma piadinha de graça: ficou menos tempo do que muita gente na fila de banco. Ouviu também o tradicional 'nem esquentou o banco'. O povo brasileiro só é menos óbvio que o STF. Vive aprontando com piada sem graça ou francamente de mau gosto. Por seu lado, Celso Pitta entrará no Tribunal Superior Eleitoral. Vai reclamar que Dantas está recebendo mais tempo de mídia do que ele. Quer isonomia no tratamento, direito de resposta, réplica e tréplica. A campanha, alega, é a mesma. Uma grande injustiça. Parece que Dantas está tão acostumado a lidar com bilhões, jóias, fortunas, tesouros das arábias, que, quando falaram em algemas, ele entendeu as gemas e já estava tirando alguns diamantes dos bolsos para acelerar o processo. É um homem pragmático: ao ouvir uma frase pela metade, 'juro...', teria defendido imediatamente a taxa Selic e a política monetária do Banco Central. Gravações revelaram que Dantas acha fácil tirar o STF de letra. Surgiu uma idéia interessante. Se Dantas fugir para o exterior, o ministro que o soltou poderia ocupar o seu lugar no interior. Não direi de onde. Cada um que decida. Seria a lei de responsabilidade jurídica. Quem solta, responde pelo que acontecer com o beneficiado. Não, não pode ser assim. A Justiça não pode ser olho por olho e dente por dente. Afinal, é mais fácil um cabelo passar pelo buraco de uma agulha do que um peixão escamoso e escorregadio dormir uma semana atrás das grades. Cabe à Justiça ser pobre por pobre e rico por rico. Isso é um chavão? Claro. Mas é menor do que o chavão usado duas vezes por Gilmar Mendes para tirar Dantas da cadeia. Já estão chamando o Dantas de 'El Supremo'. Basta de trocadilhos infames. Fiquemos só com a infâmia. Tudo numa vida é mesmo uma questão de 'Opportunity'. juremir@correiodopovo.com.br Uma excelente terça-feira pra todos nós, com muito sol por aqui, ainda que seja inverno Segunda-feira, Julho 14, 2008
VALDO CRUZ As razões da paixão BRASÍLIA - Não me recordo na história recente de uma personagem da vida político-empresarial ter despertado tanto amor e ódio como o banqueiro Daniel Dantas, criando zonas de conflitos no Executivo, Judiciário e Legislativo. Empresário de estilo agressivo e métodos controversos, Daniel Dantas levou ao campo de batalha figuras como Gilmar Mendes, Tarso Genro, juízes, policiais federais, procuradores e parlamentares de todos os partidos. Com uma ou outra exceção, defesas e ataques à ação da PF e do juiz Fausto de Sanctis, que prenderam o banqueiro, se manifestaram em estilo apaixonado, muitas vezes sem a sobriedade exigida a julgamentos imparciais. Diria que principalmente os ataques. Criou-se, com esse estilo estridente e belicoso, o risco de perdermos o foco no essencial. O resultado, considerado até aqui eficiente e bem-sucedido, das investigações da PF sobre um esquema fraudulento. Clima que interessa a muita gente. Começando pelo próprio Daniel Dantas, indo até aqueles que participavam de seu círculo de relacionamentos, temerosos de que surjam novas revelações, como doações irregulares para campanhas políticas e aplicações ilegais de dinheiro no exterior. Não há como escapar da conclusão de que o clima de paixão, em muitos casos, foi calculado. Uma tática diversionista para usar o lateral e contaminar o núcleo, evitando assim o aparecimento de novos escândalos ligados ao principal. Há mais interesses em jogo do que se possa imaginar. Chefe da PF, o ministro Tarso Genro parece ciente desse risco. Se faz reparos e condena o modo de montagem e execução da operação, não deixa de elogiar a competência do mesmo delegado responsável pelos deslizes, como os que permitiram cenas de um Celso Pitta sendo preso de pijamas. Sinaliza assim que os trabalhos seguirão. Mesmo a contragosto de alguns aliados e amigos.
NOTÍCIAS DA TERRA ARTE PEDRO DREHER SOBRE FOTOS CP MEMÓRIA Eu não tenho voz. Mesmo assim, como não sou mudo, adoraria narrar uma síntese noticiosa, um correspondente radiofônico, como faz, com aquele vozeirão maravilhoso, o Milton Jung, um dos craques da Rádio Guaíba.
Outro dia, selecionei as notícias que leria. Estados Unidos: homem barbudo dá à luz. Pai (ou mãe?) e filho passam bem. Suécia: farmácias vendem pênis de plástico e bonecas infláveis. Texas: cientistas descobrem poder afrodisíaco da melancia. Não, não é da Mulher Melancia, é da fruta mesmo, considerada agora um viagra natural vermelho. Isso explica o desempenho sexual em regiões produtoras de melancia. Por exemplo, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul. No mundo globalizado, o sujeito vai à feira e pede uma melancia. Se não tiver, ele vai à farmácia e compra um bom pênis de plástico. A vida é simples quando todos os produtos estão disponíveis para os consumidores. Pode-se pedir uma melancia e um pênis de plástico por telefone. Últimas notícias: homem doa rim à mulher que o abandonou. É a maior prova de amor já feita por um ex. Ele jura que não espera a volta da mulher por causa desse presentinho inesperado. Quis apenas provar que cortaria na própria carne por ela. Colômbia: guerrilha marxista vende reféns para nações capitalistas e fatura lucro de 10 mil por cento em relação ao investido na manutenção dos prisioneiros durante seis anos. Guerrilheiros justificaram-se dizendo que se acostumaram a vender droga. Atenção, atenção, bota atenção nisso, Estados Unidos: 'A decisão de votar é, em parte, genética segundo um estudo que mostra a influência dos genes na participação eleitoral e em uma grande variedade de atividades políticas, informou hoje a revista American Political Science Review'. A alienação é genética. O reacionarismo também. Tudo é genético. Até a escolha do clube de futebol do coração de cada um. 'Os pesquisadores demonstraram que os indivíduos com uma variante do gene MAOA tinham mais chances de ter votado na eleição presidencial de 2000.' Já os 'MAOC', não percebidos nesse estudo, tinham mais chance de apoiar a revolução cultural na China. É por isso que os Estados Unidos dominam o mundo. Eles produzem o melhor e o pior com a mesma desenvoltura. Não ficam sequer vermelhos. Parece que já tem uma equipe pesquisando a influência genética na escolha da posição para dormir. Quem fica de bruços são os indivíduos com uma variante do gene BRUCO. Outro hábito explicado geneticamente seria o gosto por música brega. Um gene, ainda não batizado, explicaria o interesse por música sertaneja. Rio de Janeiro: pesquisadores brasileiros estão prestes a localizar o gene que explica a tendência masculina a passar a tarde de domingo atolado no sofá, bebendo cerveja gelada e olhando futebol na TV. Tem gene para tudo. Em princípio, até para explicar o gosto por Nando Reis e Vítor Ramil. É verdade que esses genes ainda não foram localizados. Trata-se, segundo especialistas que preferem não se identificar, de uma anomalia, uma deformação genética grave, mas, felizmente, limitada a um número reduzido de pessoas, nada além de 1 em 100 milhões de indivíduos nasce com essa inclinação. Apesar disso, o efeito provocado é devastador. Estas foram as principais notícias da terra nos últimos meses. Ah, no Brasil, aconteceram alguns casos de corrupção. Alguns figurões passaram uma noite em cana. Já estão livres. juremir@correiodopovo.com.br Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana Domingo, Julho 13, 2008
A vida vista de longe Os cientistas da Terra é que devem ir em busca dos ETs "A vida busca a vida", escreveu o celebrado astrônomo e divulgador de ciência Carl Sagan. Sendo assim, é no mínimo curioso que ainda não tenhamos recebido visitas de extraterrestres. Afinal, mesmo se nos limitarmos à nossa galáxia, a ilha de cerca de 300 bilhões de estrelas da qual o Sol e os seus planetas fazem parte, há estrelas e planetas demais para que nenhum tenha desenvolvido vida, incluindo a mais rara vida inteligente. Esse é o famoso paradoxo de Fermi: dado o número de estrelas da Via Láctea e os seus 10 bilhões de anos (o dobro da idade do Sol), os ETs teriam tido tempo de sobra para desenvolver tecnologias capazes de cruzar as enormes distâncias interestelares e vir nos visitar. E a verdade é que, tirando as hipóteses absurdas de Erich von Däniken, segundo a qual ETs estiveram já por aqui e ajudaram a construir as pirâmides egípcias, as linhas de Nazca e outros projetos grandiosos de nossos antepassados (e descontando os relatos de indivíduos sem maior prova do que narrativas ou fotos suspeitas), os ETs nunca estiveram por aqui. Se estiveram, não parecem estar interessados em contatar cientistas ou políticos para um papo mais sério, limitando-se a exibir suas espaçonaves nas noites e a realizar experimentos com o aparelho reprodutor humano. Dada esta crua realidade, são os cientistas da Terra que devem ir em busca dos ETs. O problema que enfrentamos são as enormes distâncias. Infelizmente, o espaço entre as estrelas é muito grande e essencialmente vazio. Temos procurado por vida na nossa vizinhança, nos planetas e nas luas do Sistema Solar. Mas, até agora, não encontramos nada, e é pouco provável que encontremos mesmo uma mísera bactéria no subsolo marciano, ou no oceano sob a espessa camada de gelo que cobre Europa, uma das luas de Júpiter. A vida, mesmo não sendo exclusividade do nosso planeta, é rara. Tomemos como exemplo nossa estrela vizinha, a Alfa-Centauro. Em números arredondados, ela fica a 5 anos-luz do Sol: a luz demora cinco anos de lá até aqui. Isso equivale a uma distância aproximada de 50 trilhões de quilômetros (5 x 1013km). Com tecnologias atuais, em que espaçonaves atingem velocidades de cerca de 50 mil km/h, demoraríamos em torno de 115 mil anos para chegar lá... Obviamente não será esse o caminho para descobrirmos se existe vida fora da Terra. Seria realmente fascinante se inteligências extraterrestres tivessem desenvolvido tecnologias capazes de cobrir essas distâncias com mais eficiência. Por que eles não vêm aqui nos explicar como se faz? O jeito é procurarmos por vida remotamente. ETs que tivessem telescópios dotados com espectrógrafos poderiam analisar a composição química da atmosfera terrestre. Veriam a enorme quantidade de oxigênio e água; veriam ozônio, metano, óxido nitroso, e concluiriam que aqui existem ciclos de conversão de energia solar em metabolismo típico de seres vivos. Oxigênio, em particular, é um excelente sinal de vida. Em geral, quando presente, é rapidamente usado na oxidação de rochas. Livre, como por aqui, é prova de que algo o está produzindo com muita eficiência. Algo vivo. Vários projetos futuros farão o mesmo; procurarão por vida na atmosfera de planetas girando em torno de outras estrelas. A vida, se existir, dependerá da estrela que lhe provê energia; estrelas mais fracas do que o Sol poderão ter plantas pretas, para fixar mais energia; nas mais fortes, as plantas terão de refletir parte da luz; nas estrelas que emitem muito ultravioleta, a vida terá que ser embaixo d'água para se proteger da radiação. Se vida busca vida, parece que somos nós que teremos que encontrá-la. MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo" Sábado, Julho 12, 2008
13 de julho de 2008 | N° 15661 Martha Medeiros O que o bafômetro não sabe Nessa caça às bruxas que virou o caso dos motoristas embriagados, divulgou-se que as mulheres praticamente estão fora de perigo: por beberem menos, ou por serem mais obedientes à lei, parece que só uma, em todo o Estado, foi presa até agora. As mulheres bebem, e não é chazinho, mas temos a cabeça no lugar e não vamos nos arriscar. Álcool nunca foi motivo para cometermos barbaridades no trânsito. Quanto a isso, a Polícia Rodoviária pode ficar tranqüila. Agora, se virem uma mulher dirigindo em estado de profunda dor-de-cotovelo, detenham-na. Eu tenho umas teorias estapafúrdias e essa é mais uma. Estou divulgando-a aqui na coluna para, dependendo do recall das leitoras, confirmar se ela é estapafúrdia mesmo ou se há nela alguma legitimidade. Trata-se do seguinte: o amor é que é nossa cachaça. Tenho três exemplos pra contar, todos reais. 1. Eu a conhecia bem. Ela não havia bebido, eram 10 horas da manhã. Seu único problema é que estava embriagada de desgosto. Abissalmente triste. Garoava, um carro travou em frente ao dela e não houve tempo para frear: quando viu, já havia colidido. A cabeça estava em outro mundo, menos no trânsito. Chorou ali mesmo, no meio da rua. Chorou tudo o que estava represando há dias. Álibi perfeito. 2. Uma outra saiu muito irritada do prédio do namorado. Mas muito irritada. Eu a entendo. Homens têm essa capacidade congênita de tirar a gente do sério. Pois então: a louca saiu da garagem dele sem nem esperar o portão eletrônico abrir totalmente. Raspou todo o teto do carro e a antena ainda ficou de presente pra ele, torta, ali no chão. Ela nem se deu o trabalho de sair do carro e buscá-la, seguiu em frente cantando pneu. Foi a partilha de bens do casal. Ele ficou com a antena, e ela com um baita arranhão no carro e um machucado maior ainda por dentro. 3. A última. Havíamos nos encontrado por acaso na rua, sentamos para tomar um suco e ela me contou que não suportava mais uma determinada situação. Estava com ódio de si mesma por não conseguir dar fim ao seu tormento. Quando nos despedimos, perguntei se ela estava em condições de dirigir. Imagina! Estava na fossa, só isso. Ela me abraçou e prometeu dar notícias. E deu. Me contou que naquele mesmo dia, logo depois de nos despedirmos, ela fez uma ultrapassagem, digamos, mais dinâmica, e provocou um batidazinha. Coisa boba, mínima. "Mas eu não precisava mais essa". Nenhuma lei vai nos pegar, já que felizmente não existe o teste do "fossômetro", mas mulheres que acabaram de ter uma séria discussão com o namorado ou o marido, não abusem. Melhor pegar um táxi. Não está provado por nenhuma estatística, mas um coração agredido também altera nossa conduta, também diminui nossos reflexos, também pode comprometer nossa perícia no trânsito. Ou seja, uma paixão mal correspondida é que nos torna perigosas. |
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