Nuvens Brancas |
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Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância.
O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério.
Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.
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Quarta-feira, Novembro 30, 2005
Martha Medeiros 30/11/2005 Quebra de protocolo Quinta-feira passada, dentro do Sesi, confirmei que a minha lista de afetos é interminável, porque enquanto escutava o endiabrado Buddy Guy tocar, pensava: pena que o Fernando, o Beto, a Karin, a Cris, a Katia, o Marcelo, a Suzana (e tantos outros) não estão aqui. Daria gosto compartilhar com eles, que também têm uma alma musical, o que estava acontecendo dentro daquele teatro que não parecia um teatro, e sim um estádio de futebol em final de Brasileirão. Buddy Guy foi incendiário, celebrou o lado mais quente da vida, desceu do palco para juntar-se à platéia, desarrumou-a, seduziu-a, fez todos colocarem os dedos na tomada. Delícia de subversão. O êxtase se deu pelo repertório e pela banda, excelentes, mas principalmente pela performance totalmente desburocratizada. Foi uma aula de como seria boa a vida se não seguíssemos religiosamente os roteiros estipulados, se não tivéssemos tanto medo de nos aproximar de estranhos, se liberássemos nossa excitação e libido sempre deste jeito natural, sem vulgaridade, com a elegância que caracteriza o blues. Porque aquilo estava muito parecido com sexo. Com o segundo gol do Inter contra o Palmeiras. Com a final do Grêmio contra o Náutico. Orgasmos múltiplos. Deixa pra lá, acho que estou me desviando do assunto. Qual é o assunto? A importância de se quebrar o protocolo, de escapar da rigidez que a gente mesmo se impõe, de ter a humildade de descer do palco, este palco que a gente freqüenta desde a segunda-feira de manhã até a noite de domingo, every single day, sem dar chance para improvisações, mudanças de planos e loucuras inofensivas. Garanto que ao ler a biografia da Danuza - ou mesmo sem ter lido - você deve ter pensado por estes dias: "O que entraria em minha própria biografia? Quantas páginas renderia?" Não vale encher de fotos. Tem que ter texto. Tem que ter vida percorrida e saborosa, tem que ter todas as emoções permitidas, incluindo aí as decepções, frustrações, tristezas, tudo isso que fortalece uma história. Somos excêntricos o suficiente para escrever um Guerra e Paz, uma Bíblia. Difícil é assumir-se, é realizar tudo aquilo que a gente deixa trancafiado nos sonhos. Mas o que Buddy Guy fez, afinal? Tirou a roupa, fumou ópio com os seguranças, deu um duplo twist carpado? Mais simples. Ele, como é seu costume, não ficou à margem, invadiu o epicentro do seu pequeno universo. Misturou-se, arriscou-se, surpreendeu-nos, encantou-nos. Escreveu mais um capítulo divertido da biografia dele - e da nossa. martha.medeiros@zerohora.com.br É verdade, quem se atreve a escrever a sua biografia, mas sem tirar aqueles desejos mais íntimos, aqueles pensamentos não repartidos, aqueles sonhos que mesmo para nós que os sonhamos não são críveis de realizar. Sim porque escrever o feijão com o arroz, a rotina do dia a dia dividido é fácil. Complicado é escrever sobre o que pensamos mas não levamos adiante ou, por acreditar ser uma utopia ou porque achamos que é melhor que sejam só sonhos, mesmo. Bem e é o último dia desse novembro que cerra suas portas para que dezembro abra as suas. Meus desejos e minhas esperanças é que dezembro e todo o tempo que está por vir seja FELIZ para nós todos. Terça-feira, Novembro 29, 2005
Liberato Vieira da Cunha 29/11/2005 Precisa-se de padrinhos Leio que a Biblioteca Pública anda à procura de padrinhos. Esclareço desde logo que a benemérita instituição não pretende receber os sacramentos do batismo ou do crisma, muito menos ouvir confissões, pois estas há muito ressoam, silenciosas, por seus volumes de biografias e memórias. O que almeja o casarão da Rua Riachuelo, mais precisamente a seção dedicada ao Rio Grande, não vai além de um afago em seu magnífico acervo. Buscam-se damas e cavalheiros de bom gosto que custeiem a restauração de tesouros literários maltratados pelo tempo. Como recompensa, terão seus nomes entronizados nos ex-libris de preciosidades impressas que hoje correm grave perigo de falecimento. O próprio edifício, de antiquadas cepa e safra positivistas, não desfruta de boa saúde. A aludida seção do Rio Grande, apesar de exemplarmente conduzida, ocupa não mais que duas acanhadíssimas salas. Uma não passa de um puxado coberto de vidro que invadiu precariamente o terraço lindeiro. Há sebos em Porto Alegre que, em comparação, lembram palácios. Tomei conhecimento de que há planos de resgate no horizonte. Não esperaria menos do secretário Roque Jacoby. A presente decadência - nem o histórico elevador dá ou desce - é o retrato sem retoque de décadas de omissão e de incúria. É o espelho do nulo valor que uma lamentável enfiada de governantes atribuiu sem sombra de remorso a um patrimônio inestimável. Freqüento a Biblioteca desde guri. Lancei meu primeiro livro no Salão Mourisco. Na idade em que meus filhos contraíram o vício da leitura, senti prazer em ensiná-los a decifrar o ancestral sistema de consultas. Conto prestar igual favor a meus netos, já com a prestimosa ajuda da informática. Confessei certa vez, em outro lugar de Zero Hora, que sou um teimoso habitante da esperança. Creio e confio, por isso mesmo, em que a seção do Rio Grande não ficará desamparada de padrinhos. A retribuição não será pouca: terão associado um traço de suas vidas a certas prendas do espírito que não se compram em shoppings e são abençoadas por uma branda vocação à eternidade. liberato.vieira@zerohora.com.br Segunda-feira, Novembro 28, 2005
Luis Fernando Verissimo 28/11/2005 Depende Paris - É complicado. Há dias um editorial do New York Times elogiava a posição do Brasil e dos outros países que melavam as reuniões da Organização Mundial do Comércio, exigindo o fim de subsídios protecionistas nos países ricos. O NYT nos animava a não desistir da luta. Já na recente convenção do Partido Socialista francês um dos temas que uniram as facções em guerra era a necessidade de subsídios para proteger os agricultores e trabalhadores nacionais. O NYT representa a posição liberal, no sentido americano do termo, na questão do livre comércio, embora apóie o partido democrata, que é muito mais paroquial do que os republicanos na mesma questão e conta com o voto dos sindicatos, naturalmente protecionistas. A esquerda francesa adora o Lula mas, de volta ao poder, será contra a única política do seu governo que pode ser chamada de revolucionária. Não se trata só das insanáveis contradições do espírito humano, como a que faz furiosos opositores do aborto, por respeito à vida, serem geralmente também furiosos defensores da pena de morte. Ou de paradoxos como o da força política do moralismo no Brasil, justamente o país do deixa-pra-lá-ismo, de heróis sem nenhum caráter e da gandaia institucionalizada, e onde há anos o moralismo elege e derruba presidentes. Como o Jânio com sua vassoura metafórica para limpar a sujeira deixada pelo Juscelino, cuja popularidade não foi suficiente para fazer seu sucessor e anular o apelo moralista, ou como o Collor, ungido e destituído pelo moralismo, ou como o PT, que prometia ética e não cumpriu. Nos Estados Unidos o paradoxo da maioria democrata votar no partido dos ricos, contra seus próprios interesses econômicos, se explica pelo truque republicano de valorizar o economicamente irrelevante - aborto, direitos dos gays, religião - e ser o partido dos bons costumes acima de tudo. No Brasil, o que parece unir as classes e impor-se a qualquer outra conveniência é o moralismo, que em certos casos também é uma astúcia para desviar a atenção do que interessa. No caso do apoio paradoxal do New York Times e da oposição paradoxal de supostos aliados ideológicos à luta por uma ordem mais justa no comércio internacional, trata-se de apenas outra amostra da diluição das velhas certezas que faziam do mundo, pelo menos, um lugar mais previsível. Qual é a posição progressista e qual a retrógrada, que aliados convêm ou não convêm, e quando? A resposta é esta palavra terrível, que encerra qualquer debate antes mesmo de começar: depende. Depende é mortal. Bem valeu a torcida do fim de semana. Pena que pelo saldo de gols nosso co-irmão não possa levantar a taça da primeirona. Que se há de fazer, não basta ganhar, muitas vêzes, há que se ganhar com quantos gols se puder, e é isso que tem feito o Corintians. Já os juizes, coitados, estão numa maré baixa, mas põe baixa nisso e aí a credibilidade vai para o espaço. E sem crenças, haverá sempre um quezinho de dúvida, por mais honesto que seja o individuo. Uma ótima semana a todos nós. Domingo, Novembro 27, 2005
Publicado em 27 de novembro de 2005 - Versão impressa Martha Medeiros A gravata e a civilização EM 1915, FERNANDO PESSOA incorporou seu heterônimo Álvaro de Campos e escreveu uma carta a Walt Whitman chamada Saudação. Em meio ao texto, entusiasmado com as próprias palavras, pediu licença ao destinatário para abrir o colarinho e tirar a gravata antes de continuar: Não se pode ter muita energia com a civilização à roda do pescoço. Livre da gravata, seguiu escrevendo com o vigor pelo qual que estava tomado. Considero a gravata um objeto de fetiche. Prefiro os que usam camiseta, mas um certo dia estes rapazes casuais surgem de terno completo e eis que se avista uma nova possibilidade de homem. Divagações. Não me dê a menor atenção, pois não é este o assunto da crônica. O que eu quero falar é sobre esta história de civilização à roda do pescoço, que serve como metáfora para gravatas e para tantas coisas mais. A civilidade nos torna bastante apresentáveis e integrados ao nosso meio, então ela está sempre nos acompanhando, seja no vocabulário que usamos, seja nos nossos modos ou na nossa capacidade de engolir sapos e relevar grosserias: somos polidos, não resta dúvida. É uma excepcional qualidade. Mas também é inegável que isso nos rouba alguma energia em horas vitais. Ser passional, vigoroso, arrebatador, acalorado, nada disso é possível quando se tem a civilização ao redor do pescoço, física ou metaforicamente falando. Em horas extremas, exige-se nudez física ou metafórica, de novo. É preciso o mínimo de impedimento para gestos ousados, o mínimo de autocensura para falar o que se pensa, o mínimo de controle para demonstrar o que se sente. Há sempre um momento na vida quisera fossem muitos em que é preciso despir-se da nossa pele de cordeiro e deixar transparecer a nossa alma do jeito que ela é, e às vezes nem sabemos ao certo como ela é, tão pouco nos enxergamos por dentro. A adestração faz parte da nossa educação, mas como nos descaracteriza. Às vezes é preciso dar um dia de folga à nossa civilidade. Não há como não arrancar a gravata e jogar longe o salto alto na hora de fazer declarações de amor, confessar pecados grandes, sair em busca de um novo caminho pra vida, escrever poemas com a dor da perda ainda latejando. Não há como não tirar o batom na hora do beijo, soltar os cabelos na hora do sexo, arregaçar as mangas na hora de um abraço forte. Durante emoções estupendas, nada pode nos apertar, nos constranger, nos segurar. São ocasiões raras em que não se deve ter compromisso algum com a vaidade. Aliás, somos insuportavelmente belos ao nos desamarrarmos, ao nos livrarmos de nossos pudores, ao arrancar os óculos do rosto para deixar que vejam nossos olhos, sejam eles claros, escuros ou vermelhos todos já tivemos os olhos vermelhos. Fernando Pessoa não conseguia continuar escrevendo o que escrevia para Walt Whitman estando de gravata. Sentia que perdia sua força justo quando esta lhe era mais necessária. Suas palavras exigiam liberdade para continuarem significativas, era imperioso ter mais fôlego, talvez até um pouco de selvageria e ele não pensou duas vezes: adeus, gravata. Era 1915, quando homens sem gravata não eram nem cumprimentados na rua. Mas em nome da sua arte e das exigências da sua alma, ele pensou: dane-se. Estava certo. Para a alma vazar, o corpo tem que abrir espaço. martha.medeiros@oglobo.com.br Se apoquente não minha amiga que o Weblogger, eu acredito, voltará a funcionar hora dessas e vamos poder continuar postando naquela sua página Sábado, Novembro 26, 2005
Diogo Mainardi Posso acusar Palocci? "Lula declarou que Palocci é imprescindível. Por isso eu quero que ele caia. Palocci está salvando Lula. Quem salva Lula é ruim para o país" Rogério Buratti acusou Antonio Palocci de receber uma propina mensal de 50.000 reais, quando era prefeito de Ribeirão Preto. Palocci disse que não vai processar Buratti. Ele disse também que não vai processar os jornalistas que o acusaram. Isso é bom para mim. Isso é bom para toda a imprensa. Eu, que não sou tonto, resolvi aproveitar. É raro encontrar um político disposto a apanhar sem reclamar. Posso acusar Palocci quanto quiser. Posso difamá-lo. Posso insultá-lo. Posso contar tudo o que sei a seu respeito, embora não tenha como prová-lo. Porque Palocci disse que não vai processar ninguém. Mandei uma mensagem ao seu secretário de imprensa, Marcelo Netto, só para garantir que não o interpretei equivocadamente: O ministro Antonio Palocci promete não me processar, mesmo que eu o acuse pesadamente? Marcelo Netto não me respondeu. Reformulei a pergunta: Rogério Buratti acusou o ministro Palocci e não está sendo processado. Outros jornalistas acusaram o ministro Palocci e não estão sendo processados. Será que eu também posso acusá-lo? Mais uma vez, Marcelo Netto me ignorou. Liguei para seu gabinete. Ele não me atendeu. Liguei de novo. Ele estava em reunião. Mandei-lhe uma terceira mensagem: O ministro Palocci me processaria se eu o acusasse de ter arrecadado dinheiro sujo para a campanha eleitoral de Lula? Estou esperando uma resposta até agora. Marcelo Netto sumiu. Não sei se tenho a permissão para acusar Palocci. Imagino que sim. Se Buratti pode, por que eu não poderia? Por outro lado, Palocci e Buratti são velhos companheiros. Já repartiram tudo, inclusive a mesma recepcionista de Anápolis. Lula declarou que Palocci é imprescindível. Por isso eu quero que ele caia. Palocci está salvando Lula. Quem salva Lula é ruim para o país. O melhor para todos seria que Palocci pedisse demissão e Lula abrisse o cofre. Um ano de crise financeira bastaria para acabar com o lulismo pelos próximos trinta anos. Palocci está certo quando afirma que é necessário cortar despesas e aumentar o superávit fiscal. Ele só escolheu a maneira errada para cumprir a tarefa. Não dá para depender apenas do aumento de impostos e do contingenciamento de gastos. O Brasil precisa de cortes estruturais. Lula teve sua melhor oportunidade em 2003, com a reforma previdenciária. Para aprová-la, pagou o mensalão, liberou 700 milhões de reais em emendas parlamentares e expulsou do PT gente como Heloísa Helena e Babá. Foi inútil, tanto que, na última reunião da Comissão de Assuntos Econômicos, Palocci admitiu que os gastos previdenciários continuam fora de controle. Ocorreu-me mais uma pergunta. Mandei-a ao secretário de imprensa de Palocci: O ministro Palocci prometeu que a carga tributária lulista não superaria a do governo anterior. Pelos dados da Receita Federal, a carga tributária da União entre 1999 e 2002 correspondeu, em média, a 23,25% do PIB. Nos dois primeiros anos do governo Lula, ela pulou para 24,63%. Posso chamar Palocci de mentiroso? Sexta-feira, Novembro 25, 2005
Giovanna Antonelli se separa de Murilo Benício por incompatibilidade de gênios Rio - Negou ao fim o casamento de Giovanna Antonelli e Murilo Benício, depois de quase quatro anos juntos. Ela estava decidida. Giovanna gosta muito dele, mas seus temperamentos são bem diferentes. Mesmo assim, continuam amigos, afirma um amigo do casal. A iniciativa foi de Giovanna, esta semana, mas a assessoria dos atores não comenta o assunto, apenas confirma a separação. A alegada incompatibilidade de gênios teria sido o motivo. A atriz esteve presente em um evento beneficente terça-feira, na Barra, demonstrando estar muito feliz. Ao ser questionada sobre a participação do pai na criação de Pietro, que completa hoje 6 meses, foi categórica: A mãe é que está 24 horas por dia , disse ela. Porém, a atriz não quis mais falar sobre o ex-marido. Vamos falar de mim? Não fica puxando o assunto para o lado do Murilo, por favor, despistou, ainda antes do anúncio da separação. A última aparição do casal foi no aniversário de Glória Perez, dia 23 de setembro, na casa da autora. Nos últimos eventos de confraternização do elenco de América, porém, o intérprete de Tião apareceu sozinho. Eles se conheceram em O Clone, quando o ator namorava Carolina Ferraz, com quem ficou por três anos. Giovanna era casada com o empresário Ricardo Medina, mas se separou em fevereiro de 2002, após dois anos. Em julho, ela e Murilo assumiram o romance. Em abril de 2004 eles romperam, mas voltaram em junho. Nesse intervalo, a atriz teve rápido romance com Alexandre Acciolly. Murilo ainda está na casa da atriz, num condomínio de luxo da Barra. Ele está se organizando para se mudar em breve, diz o amigo. Pois é, essa tal de incompatibilidade de gênios é a razão mais comum das separações, sabe o dia a dia aquela rotina das horas é que acaba revelando as verdadeiras faces, ou o gênio vedadeiro. Bem e aí, nem sempre é o que esperávamos que fosse. Um ótimo fim de semana a todos nós. Quinta-feira, Novembro 24, 2005
Nilson Souza 24/11/2005 Passos contados Andei lendo sobre ginástica cerebral. Além de descobrir que as pessoas usam apenas 3% ou 4% da capacidade total do cérebro, fiquei sabendo também que podemos fazer exercícios para estimular o seu funcionamento. Senti necessidade disso outro dia, quando decidi contar quantos passos dou para percorrer o calçadão de Ipanema, da primeira à última laje. Foi uma mão-de-obra. Não levei nada para anotar. Ia contando mentalmente até atingir cada centena e depois zerava o velocímetro do cérebro, com o cuidado de não esquecer o número redondo. Acabou sendo muito mais um exercício mental do que físico. Cheguei esgotadíssimo ao final. Relato essa experiência porque devo ter causado má impressão a algumas pessoas habituadas a cruzar comigo na caminhada matinal. Costumo trocar cumprimentos, dar bom-dia, responder aos acenos dos mais conhecidos. Naquela manhã, porém, tive que ignorá-los para não perder a concentração. Nem olhava para os lados. Imaginem se me confundo lá pelo número 2.843 e tenho que começar de novo. Se causei algum estranhamento aos vizinhos de caminhada, mais espantados ainda ficaram os amigos para os quais relatei a minha proeza. Alguns acharam que eu estava mentindo, outros sugeriram que eu fora acometido de transtorno obsessivo-compulsivo. Nada disso. Estava, simplesmente, fazendo uma reportagem. Minha tarefa jornalística era escrever um depoimento sobre pontos interessantes da zona sul de Porto Alegre e resolvi ilustrar o texto com esta informação: quanto tempo e quantos passos uma pessoa semi-sedentária, de 1m67cm, gasta para percorrer o calçadão do início ao fim. Reconheço que o meu processo foi rudimentar - para usar um adjetivo ministeriável. Sei que já existe o pedômetro digital, um aparelhinho moderno que marca não apenas o número de passos dados por um atleta, como também a distância em quilômetros, as calorias gastas durante o exercício e o tempo despendido no percurso. Mas ainda não alcancei essa tecnologia. Na verdade, nem quero. Durante minhas caminhadas matinais, prefiro usar os 3% do meu cérebro que ainda funcionam satisfatoriamente para pensar em coisas mais amenas, para lembrar amigos, para planejar sonhos, para refletir sobre a vida. Além disso, já sei que sou capaz de percorrer os 3.478 passos do calçadão em 35 minutos. nilson.souza@zerohora.com.br Eu acho que ele está certo. Essas ciências exatas no final das contas sobram nada, aliás, sempre há um sinal de igual no meio delas. Então é melhor mesmo essas coisas relativas, planejar sonhos, refletir sobre as possibilidades que temos para ter retribuição aos nossos anseios e aos nossos desejos. Mas afinal tê-los por si só, será que já não terá valido a pena? Chove neste Porto e que por esta razão não está tão alegre hoje. Que mesmo assim seja um bom dia para nós todos. Quarta-feira, Novembro 23, 2005
Martha Medeiros 23/11/2005 Os novos velhos Outro dia, assisti a um filme canadense chamado Na companhia de estranhos. É a história de um grupo de senhoras que saem em excursão pelo interior, porém o ônibus quebra e elas ficam sós no meio do mato, sem contato com a civilização, sem comida, sem nada. Por sorte, encontram uma casa caindo aos pedaços, vazia, e é ali que dormem. Alimentam-se de uns poucos frutos colhidos nos arredores e se banham num rio, onde também tentam pescar - o que não é exatamente fácil em se tratando de mulheres com mais de 60 anos que precisam agarrar os peixes com as mãos. O filme trata da capacidade de sobrevivência daqueles que, muitas vezes, são considerados imprestáveis. Trata da solidariedade que há entre os mais velhos; logo eles, que tantas vezes são considerados egoístas, e do bom humor e leveza que pode advir de situações complicadas, mesmo entre os que costumam ser considerados rabugentos. Num determinado momento do filme, quando elas estão frágeis e com medo de não serem encontradas nunca mais, vão todas para a varanda da casa e começam a gritar para o horizonte: "Estamos vivas! Estamos vivas!" Para quem gritam, se ninguém as escuta? Para nós, gritam. Seguem bastante vivos aqueles que parecem não ter mais utilidade. Uma prova disso poderá ser testemunhada hoje à noite na Fiergs, quando serão entregues os prêmios do concurso Talentos da Maturidade do Banco Real. Foram 21 mil idosos inscritos nas categorias Monografia, Música, Contador de Histórias, Literatura, Artes Plásticas e Programas Exemplares. Como diz uma amiga minha, vai ser uma reedição do Cocoon, uma festiva e vitoriosa celebração do ato de criar e de fazer diferença numa fase da vida em que tantos desistem de tudo. Segundo previsão da ONU, em 2025 o Brasil terá 32 milhões de pessoas com mais de 60 anos, tornando-se o sexto país do mundo em número de idosos. Calma aí: 60 anos é velho? Está aí Danuza Leão finalmente assumindo seus 72 cheia de pique, está aí Ariano Suassuna exibindo seu cérebro jovial e encantador, estão aí os Caetanos e Chicos esbanjando charme e criatividade, e estão aí os premiados de hoje à noite, que não são famosos, mas são grandiosos na sua disposição para continuar marcando presença nesta sociedade que precisa se dar conta de que, potencialidades, todos têm, em qualquer idade - basta estar vivo. martha.medeiros@zerohora.com.br Bem e se é inevitvel a nossa caminhada para a terceira idade, que não caminhemos aos trancos e barrancos, mas conscientes de que ainda poderemos realizar muitos sonhos que não se concretizaram por uma circunstância ou outra, mas basta acreditar e buscar a realização para que ela aconteça, amanhã ou logo ali adiante. Uma ótima quarta-feira a todos nós, especial a minha amiga Vera comentadora assídua das matérias aqui colocadas. A minha amiga Janna, está linda aquela página, falta dar aquele seu jeitinho doce, meigo e que tanto a caracteriza. Terça-feira, Novembro 22, 2005
Publicado em 22 de novembro de 2005 - Versão impressa Arnaldo Jabor A tomada do Estado Parte II Lula topará tudo para ser reeleito. Sua garra é mais do que política é a salvação de sua imagem. Para vencer, ele usará todo o seu carisma de messias do povo, de operário em construção. Em 2006, Lula vai dizer que nenhum governo foi tão investigado sem resultados e sem provas. A pizza vai virar sua bandeira. Trama-se uma segunda tentativa de tomar o Estado, já que o Jefferson estragou a primeira. O espírito de José Dirceu continua no comando. Sob ele trabalham Dilma Roussef, mesmo negando, Buratti, obedecendo ordens subliminares tudo se faz para que Palocci perca o domínio. Aos poucos, seremos convencidos de que talvez possa rolar um coquetel de Dilma com Palocci. Em tese, até que poderia surgir um mix dos dois métodos, mas o perigo é o desacerto com duas cabeças criando um centauro, um camelo macroeconômico, dados o despreparo e a voracidade eleitoral dos petistas. Mesmo que as medidas comecem a dar chabu, mesmo que micos apareçam, o PT dirceuzista não se deterá. E Dilma já falou em inflação de 15 ou 20 por cento ao ano é assim que começa. Não conseguiram cortar gastos do Estado, nem fazer reformas e aí partiram para condenar o único remédio que funcionou. Para eles, tudo menos a derrota. Para isso, Lula será apoiado por forças da fé e do oportunismo. Os desiludidos da militância vão dar a Lula uma segunda chance, outros acreditarão na conspiração das elites, porque Lula é seu único Jesus. A fé é assim contra as evidências ela se reforça. A eles se juntarão intelectuais incorrigíveis (que andam calados e escaldados), com novas racionalizações para manter o PT no poder (teoria deles: O PT desmoralizado ainda é um mal menor que o inimigo principal os tucanos neoliberais). Haverá uma maratona de oportunistas se Lula estiver bem nas pesquisas. E tudo será construído em cima da ignorância política dos pobres, nos grotões e outros buracos mais urbanos. O PT terá chance de reeleição se conseguir camuflar o grande crime debaixo da capa preta dos pequenos crimes. E, no entanto, a profunda verdade só foi revelada até agora por Roberto Jefferson: os petistas ocuparam postos estratégicos no Estado para pilhá-lo em nome do povo. Jefferson, o tenor da verdade, foi o único cassado importante até agora. O resto, sabemos, foram desculpas esfarrapadas de caixa 2 e mensalões. E agora, quanto mais se descobrem novas corrupções, as investigações vão perdendo a eficácia. O principal será escondido pelo secundário. A tática é assim: confessar uma meia verdade para esconder uma grande Mentira. No mês passado, Lula fingiu uma esperta autocrítica: Nós erramos por não termos dito desde o começo claramente: os companheiros pegaram dinheiro não contabilizado e não declararam. Era muito mais fácil de explicar para a sociedade. Além do ato falho (muito mais fácil ), vejam a malandragem: confessa-se um pequeno erro (delito) para esconder os bilhões que foram desviados das estatais, de fundos de pensão, de arreglos com empresas como Interbrasil, Skymaster, Garanhuns, agências de publicidade etc. E o mais grave é que, com tantas denúncias e escândalos se somando, podemos cair numa busca de punição que acaba ficando conservadora, pois a idéia de punir pressupõe o pecado, quando o que houve foi uma construção ideológica revolucionária. Assim, vamos perder a chance de entender e mudar as regras do jogo que permitiram tal cataclisma no país. Como escreveu outro dia Fernando Abrucio no Valor: Tal distorção se origina no ataque meramente às pessoas ou grupos políticos, quando o foco devia ser centrado nas raízes institucionais da corrupção. Há, nos petistas e populistas da velha esquerda, a obsessão de desconstruir o caminho democrático que alcançamos depois da ditadura e do impeachment: democracia com república. Querem reverter o país ao tempo de um vago estatismo desenvolvimentista, de nostálgicos sonhos leninistas, de pálidas heranças janguistas. Não toleram o mundo real e até hoje ignoram a queda do muro de Berlim. Eles navegam sobre o autoritarismo salvacionista do país, entranhado na alma popular, para recuperar um projeto nacionalista, estatizante, utilizado pelo fisiologismo tradicional como sendo progressista. Bons exemplos são: o programa psicótico que Carlos Lessa fez para o Garotinho e também, por exemplo, o rationale de intelectuais do populismo que apóiam o Quércia há anos, como se ele fosse uma prótese entre o JK e Ademar de Barros. E muita gente boa ainda não entende a preciosa mudança que houve neste país, nos últimos 15 anos, provocada pelas mãos invisíveis da tecnologia, da globalização da economia, da estabilidade monetária e do fortalecimento da sociedade civil. Querem acabar com a sensatez que já existe. As engrenagens inconscientes estão se movendo. O velho Brasil quer voltar a seu formato original, renascendo como rabo de lagarto. E isso ajuda os demagogos e visionários, pois é um movimento estrutural além dos homens e dos discursos, é automático, quase físico. O que preocupa não é a pizza, é a encrenca sem fim que virá depois. A pizza é bobagem, coisa menor. O trágico é a volta do labirinto do Atraso histórico. E a volta a um tempo de zona geral trará a descrença na democracia, difícil de entender para os ignorantes. Nunca a decepção leva à busca de um biscoito mais fino. O povo vai preferir o pior. Os erros de um governo popular criam desejos de populismo. Se voltar a loucura de épocas nefastas como nos tempos de Jânio, Jango, Collor, Sarney, seremos arremessados a uma violenta marcha a ré. E, hoje em dia, num mundo complexo e incontrolável, nosso caos poderá ser irreversível.
Liberato Vieira da Cunha 22/11/2005 O fator humano Que interesse podem partilhar um catedrático da Universidade de Bagdá e uma jovem repórter de rádio de Varsóvia, um editor de Nova York e um crítico literário de Havana, uma bibliotecária de Nairóbi e uma colunista de Atenas, um poeta de Kuala-Lumpur e um publisher do Cairo, mais todos eles e um escriba de Cachoeira do Sul? A resposta não é difícil: o amor pela literatura. Em verdade, o grupo era maior: compunha-se de representantes de 18 países, convidados pelo governo da República Federal da Alemanha para degustação, neste outono europeu, de um programa cultural que nos dividiu por três cidades e toda uma agenda sobre rodas. A cada manhã, em Mainz, tomávamos, a quadra e meia do hotel, bondes silenciosos e flamantes, nos mudávamos pouco além para um metrô moderníssimo, que terminávamos deixando pelo conforto de trens de uma rapidez espantosa. Nosso destino principal costumava ser a Feira Internacional do Livro de Frankfurt. Ali, como narrei em uma crônica anterior, não só fui apresentado a tudo quanto se imprime nas mais distantes latitudes e continentes, como dei a conhecer a agentes especializados minhas próprias incursões ao território da ficção. É na cidade da Buchmesse que funciona a Sociedade para a Promoção da Literatura da África, da Ásia e da América Latina, toda voltada a revelar ao Primeiro Mundo o que anda inventando o Terceiro em matéria de prosa e verso. Mas esses foram apenas dois dos itens de um roteiro que incluiu o Goethe-Institut, a casa onde viveu o autor de Werther, os museus da Comunicação, da Arquitetura, da Moeda, do Filme - além de uma dezena de outros em Munique, como a Ópera, a Marienkirche, a Velha e a Nova Pinacoteca, o Nymphenburg e os incomparáveis English Gardens. Essa variedade de destinos me encantava. É fascinante respirar arte 24 horas por dia e, nos intervalos, tomar a direção dos Alpes, rumo ao monastério de Ethal, ao palácio de Linderhof ou à visão do cume nevado do Zugspitz. Mas se me perguntassem o que mais me atraiu nessa breve revisitação a lugares e paisagens que me falam de perto ao coração, eu diria que foi o fator humano. O México, a Índia, a Tunísia, a Turquia, o Congo tornaram-se por alguns dias países limítrofes num atlas de afinidades e de convívio cordial de que talvez só um senso apurado de universalidade, que desconhece fronteiras, saiba a exata receita. liberato.vieira@zerohora.com.br Bem para a cultura não existe mesmo fronteiras, nem credos, nem raças assim como para os sentimentos sentidos, os sonhos, as esperanças e que bom que seja assim. Uma ótima terça-feira a todos nós e, fundamentalmente, a você querido(a) leitor que vem até aqui todos os dias. Segunda-feira, Novembro 21, 2005
No quarto com Wandinha Ramalho Nilton Carauta Faltam adjetivos para definir a 'caçulinha' do Caldeirão. Com apenas 17 anos, Wandinha Ramalho trocou a chance de estrear no corpo de balé do Faustão para esperar o resultado do teste do Programa de Luciano Huck. "Troquei o certo pelo duvidoso e consegui", gaba-se a menina, que após a estréia, tatuou a palavra believe (acreditar em inglês) no braço.
O quarto de Wandinha é digno de boneca. E não podia ser diferente. Ursinhos, um travesseiro personalizado com o seu nome e um mural com fotos decoram o ambiente. O quadro de boneca preso na parede foi feito especialmente para ela, que divide o espaço com a irmã. "Como sou loura e minha minha irmã morena, encomendamos uma boneca ruiva", brinca a moça. Já quando o assunto é o visual, Wandinha vira um mulherão. Abusa das saias e não dispensa o salto alto. A caldeirete confessa ter mudado a maneira de se vestir após ter ingressado no programa. "Como já uso roupas curtas nas gravações passei a colocar mais calças no dia-dia". Há cinco meses no ar, ela ainda estranha ser reconhecida nas ruas. "Acho graça, mas o assédio masculino nunca me incomodou". Posar nua não estão nos planos da moça, pelo menos por enquanto. "Sou muito nova, mas não descarto". Cursando a 3° série do ensino médio, Wandinha investe também na carreira de atriz fazendo aulas de corpo, voz e vídeo. "Quem não sonha em estar na novela das oito?", indaga ela, revelando que tem medo de ficar rotulada por ser dançarina. "As pessoas no Brasil tem o hábito de taxar as pessoas, mas estou me preparando. Não quero cair de pára-quedas". Domingo, Novembro 20, 2005
Publicado em 20 de novembro de 2005 - Versão impressa Paulo Coelho Da natureza humana SOMOS TODOS OS DIAS BOMBARDEADOS por atos de crueldade e nos perguntamos: como o homem pode ser capaz de tanta perfídia? O exemplo vai do Rio de Janeiro, onde tive um amigo jornalista (Tim Lopes) que foi barbaramente torturado antes de ser morto, até a prisão de Abu Graib, no Iraque, onde rapazes e moças americanos, que sempre se comportaram como exemplo em suas pequenas comunidades provincianas, terminam se transformando em monstros. Em 1971, professores da Universidade de Stanford, nos EUA, criaram uma espécie de prisão simulada, nos porões da Faculdade de Psicologia. Escolheram, sem qualquer critério especial, 12 estudantes para guardas, e outros 12 como prisioneiros; todos vindo do mesmo meio social: classe média, educação rígida, valores morais dignos. Durante duas semanas, seria dado aos carcereiros o total poder sobre os presos. A experiência teve que ser interrompida no final de uma semana já que passados poucos dias os guardas começaram a demonstrar um comportamento que ia se tornando cada vez mais sádico e anormal, sendo capazes de barbaridades nunca vistas. Até hoje, mais de 30 anos depois, os dois grupos ainda precisam de acompanhamento psicológico. O idealizador da experiência em Stanford, Philip Zimbardo, conta ao jornal Herald Tribune: Não fiquei surpreso com as fotos da prisão iraquiana de Abu Graib. Não se trata de um grupo de maçãs podres colocadas em um cesto de frutas frescas, mas exatamente o oposto: gente de bons sentimentos, quando confrontada com a possibilidade de poder absoluto, perde qualquer noção de limite, e deixa os instintos mais primitivos se manifestarem. Outro interessante estudo foi realizado por Stanley Milgram para a Universidade de Yale. Um grupo de alunos foi selecionado para estudar técnicas de punição. Ficavam de um lado de um vidro com uma máquina de choques elétricos, enquanto do outro lado estava um estudante que deveria dar respostas certas a determinadas perguntas. Cada vez que errasse, o aluno devia administrar um choque, aumentando progressivamente a voltagem, mesmo sabendo que a partir de determinado ponto podia matar seu companheiro. A máquina de choques era falsa e o estudante era um ator, mas os alunos não sabiam disso. Para surpresa geral, 65% dos interrogadores chegaram ao que seria a dose mortal. Enfim, quando estamos diante de situações que nos permitem um controle total e absoluto de outra pessoa, ninguém pode estar seguro que não ultrapassará o limite. Mas só quem já viveu este tipo de experiência (e eu, infelizmente, me lembro de certas atitudes na juventude que me incluem neste grupo) sabe que a determinada altura perdemos por completo o controle, e vamos além do bom senso. Se esta é a natureza humana, o que devemos fazer? Uma velha história passada nos Pirineus possivelmente uma lenda conta que certo monge, de nome Savin, que voltava depois de recolher doações em ouro para a capela que pretendia construir, passou pela casa de um dos bandidos mais sanguinários da região. Como não tinha onde dormir, pediu para pernoitar ali. O bandido, surpreso com a coragem do monge, resolveu testá-lo, perguntando: Você veio até aqui para me provocar. Deseja que eu o mate, roube seu dinheiro, para se transformar em mártir. Se hoje entrasse aqui a mais bela prostituta que circula pela cidade, você conseguiria pensar que ela não era bela e sedutora? Não. Mas eu conseguiria me controlar. E se um monge entrasse com ouro para construir uma capela, você conseguiria olhar este ouro como se fossem pedras? Não. Mas eu conseguiria me controlar. Savin e o assassino tinham os mesmos instintos o bem e o mal lutavam por eles, como lutam por todas as almas sobre a face da Terra. Quando o malfeitor viu que o monge era igual a ele, também entendeu que ele era igual a Savin, e se converteu. Temos o bem e o mal diante de nós e é tudo uma questão de controle. Nada além disso. paulo@paulocoelho.com.br
Publicado em 20 de novembro de 2005 - Versão impressa Martha Medeiros A tristeza permitida SE EU DISSER PRA VOCÊ QUE HOJE acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que normalmente faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair para compras e reuniões se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem para sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como? Você vai dizer te anima e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer para eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra. Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra. A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro da nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido. Depressão é coisa muito mais séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou com si mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente as razões têm essa mania de serem discretas. Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago de razão/ eu ando tão down.... Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. Não quero te ver triste assim, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar o seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinicius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia. Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip hop, e nem por isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor até que venha a próxima, normais que somos. n n n Em causa própria: acabo de lançar a coletânea de crônicas Coisas da vida (Editora L&PM), que reúne textos publicados entre 2003 e 2005 nos jornais Zero Hora e O GLOBO, e a novela Selma e Sinatra (Editora Objetiva). Pra mim, motivo de samba, rock e hip hop. Festa. martha.medeiros@oglobo.com.br Sábado, Novembro 19, 2005
Cláudia Laitano 19/11/2005 Coincidências O ano está no finzinho, e o clima é de retrospectiva. Então já dá para arriscar que 2005 deve ser lembrado como o ano em que os brasileiros exercitaram com mais empenho a habilidade de decifrar a lata alheia. Meu palpite é que a gente passou o ano inteiro acompanhando aqueles depoimentos intermináveis no Congresso não para entender o que estava acontecendo no país e muito menos com a expectativa de ouvir confissões de culpa ou pedidos de perdão. O que a gente queria mesmo era ver o pessoal se virando para tornar convincentes as versões mais improváveis sobre os fatos - o que nos possibilitou testar tanto a cara-de-pau dos outros quanto a nossa capacidade de captar nas entrelinhas os sinais de falsidade. Porque a gente pode nascer sabendo mentir bem, ser um gênio inato na milenar arte do engodo, mas aprender a flagrar os pequenos gestos que denunciam um mentiroso é uma habilidade que não se desenvolve de uma hora para a outra. Diante do espetáculo oferecido pela realidade, não podia vir mais a propósito a estréia do quadro Um dos Três no Fantástico. A brincadeira, muito didática, criada pelos diretores Guel Arraes e Jorge Furtado, consiste em colocar três sujeitos diante das câmeras contando histórias verdadeiras como se fossem deles próprios. Cabe ao telespectador tentar descobrir qual deles está realmente contando a sua história e quem são os dois atochadores. Qualquer semelhança entre o programa da Globo e o que se viu na TV Senado nos últimos meses é boa demais para ser coincidência. Esta é coincidência mesmo. O David Coimbra escreveu ontem, aqui nesta esquina da página, sobre um quase atropelamento - ele, na posição de motorista, apontando o que considerou uma irresponsabilidade do pedestre. Pois eu também passei por um quase atropelamento esta semana. Mas o motorista que não parou de acelerar na Anita Garibaldi enquanto uma mãe e uma criança atravessavam a rua para ir até o supermercado não é simplesmente irresponsável, mas um assassino em potencial. De alguém que pode ser só uma estatística no jornal de amanhã. Ou, na mais dolorosa das hipóteses, uma pessoa que você ama. Motoristas como esse, que deve estar voando por alguma rua no exato instante em que você lê esta coluna, não são casos isolados, a gente sabe. A cultura da agressividade e da arrogância - contra pedestres e contra outros motoristas - infelizmente ainda é a regra na nossa cidade. E vai continuar sendo enquanto cada motorista não parar um segundo para rever o próprio comportamento - e, se possível, para deixar o pedestre passar em paz. claudia.laitano@zerohora.com.br Sexta-feira, Novembro 18, 2005
Ico Thomaz 18/11/2005 Bote pra fora Todos já passamos por momentos em que temos a impressão de que ninguém nos entende, de que estamos sozinhos no mundo. Quer saber? Acho que só entende quem sabe do que precisamos, o que pensamos e quem somos. Nos entende mesmo o Velhinho lá de cima e nunca estamos sozinhos. Cada vez mais ter fé é importante. Com fé nos tornamos mais fortes, mais confiantes. Além de ter fé, acreditar no Velhinho e saber que ninguém está aqui por acaso, temos que ter consciência de que falar, desabafar, botar a boca no trombone é essencial. Só resolvemos as coisas conversando, expondo a quem convive com a gente o que está acontecendo. Guardar os grilos pra gente só traz mais problemas, é como uma bola de neve. Se você está com alguma pendenga com namorada, família, amigo, converse hoje mesmo e resolva. Muitas vezes ninguém nos entende porque não nos deixamos ser entendidos Mas não esqueça: fale com respeito e educação, porque senão o que era pra ser desabafo vai acabar em briga - e aí não é o propósito da coluna. Um abraço e bom final de semana. ico.thomaz@rbstv.com.br Quinta-feira, Novembro 17, 2005
O SUICÍDIO DE FRANCELMO Suicídio é algo que me aterra. Como a morte de filho antes dos pais, representa a destruição do milagre maior: a vida. Muitos orientais o consideram honra e heroísmo. Mas sou ocidental. O máximo é compreender causas psicológicas irremovíveis como as chamadas depressões profundas sejam perceptíveis ou sub-reptícias. Ou as heróicas. O Brasil não prestou atenção no fato gravíssimo representado pelo suicídio do ambientalista Francisco Anselmo de Barros, o ¿Franselmo¿ ateando-se fogo, envolto em colchão encharcado de álcool como protesto pela construção de quinze usinas de álcool e açúcar no Pantanal Matogrossense. Ainda bem que esta grande figura (fui Senador com ela e posso atestar) que é a Ministra Marina Silva, com a firmeza de sua mansidão, no dia 15 de novembro anunciou a proibição da construção desejada pelo Governador Zeca, do seu partido, das mencionadas quinze usinas de álcool e açúcar. O que está no centro dessa questão é se vamos sucumbir à ditadura da economia e continuar a destruir a natureza como se fez e faz de modo violento e criminoso na Amazônia, na Mata Atlântica, nas queimadas propositais de florestas, nos manguezais, na exportação ilegal de animais, ou se o País vai ser implacável na busca do desenvolvimento humanizado e construído para o ser humano e o povo e não para meia dúzia de poderosos ricaços oportunistas e desumanizados pela ambição. Há mil e uma maneiras de crescer sem destruir e mesmo de criar empregos em atividades de preservação e de agricultura, inclusive. Fico a imaginar a solidão da ministra Marina Silva, diante de tudo o que a inconseqüência brasileira faz em sua área. Em 1972, o poeta japonês Yasunari Kawabata, Prêmio Nobel de Literatura de 1968 e grande escritor, suicidou-se, fortemente deprimido (entre outros males de seus 72 anos), por constatar que o novo Japão após a Segunda Guerra Mundial, optara por um desenvolvimento capitalista implacável, que arrebentaria a tradicional cultura da sutileza, da delicadeza, da elevação espiritual do passado japonês destruído desde que o país invadira A China de modo brutal e assassino anos antes. Não suportou viver fora de uma sociedade sensível e espiritualizada que via esboroar-se diante dele em nome do progresso econômico a qualquer preço. Por mais que o suicídio jamais me pareça solução para qualquer mal da sociedade, considero, para o futuro do Brasil, o gesto do Francelmo de igual significado ao de Kawabata: lamentável e doloroso. Mas heróico. Os ambientalistas também são poetas panteístas. Escrevem seu amor à natureza ajudando a preservá-la. Por amor à vida.
Nilson Souza 17/11/2005 Escrituração Dia desses, numa discussão mais áspera com uma jovem colega de trabalho, deixei escapar este desabafo: - Tá bem, então vou procurar a minha turma! Disse, e a frase ficou ricocheteando naquela partezinha do cérebro que engole coisas recentes e devolve antigüidades. A que turma estava me referindo? Tive várias, ao longo da vida. Uma delas vai se reunir agora em dezembro e está reclamando a minha presença. É a minha turma de Contabilidade, o curso técnico que concluí como travessia para uma faculdade que nada tinha a ver com ativos, passivos, débitos e créditos. Nunca consegui fechar direito um balanço, por isso abracei sem remorso essa atividade de juntar letrinhas, sem precisar contá-las. Ainda assim, virei um contador - mas de histórias. Reconheço, porém, que estou em débito com aqueles amigos que deixei em algum lugar do passado. Raramente compareço a esses encontros de formatura, ocasiões em que as pessoas tentam resgatar em poucas horas os melhores momentos de uma convivência pretérita de meses ou anos. Para ficar no jargão da profissão que não segui, assemelham-se a um balancete emocional no qual os lucros são evidenciados e as perdas acabam sendo relegadas ou esquecidas. Nada de errado: assim deveria mesmo ser a contabilidade da vida. Com a liberalidade que a condição de cronista me proporciona e a permissão dos meus antigos colegas, proponho alterarmos os registros contábeis dos nossos afetos. Em primeiro lugar, passemos a lançar no livro Diário apenas os fatos do bem, entradas e saídas de ternura, pequenas amabilidades, grandes paixões e amores sem conta. Arquivemos o livro Razão, que será substituído por outro chamado Emoção, onde registraremos os nossos sentimentos mais caros. Neste, ao contrário do impecável documento comercial, serão permitidas rasuras espalhafatosas, registros equivocados, estornos mal-explicados, páginas que não abrem e contas que não fecham. Por fim, usemos o livro Inventário para anotar de forma indelével todos os nossos bens - incluindo o bem-querer, os bem-casados e os bem-te-vis, pois as delícias e as belezas da vida são os valores mais preciosos. Se sobrar espaço, lançaremos nele também o nosso estoque de sonhos. Pensando bem, acho que vou mesmo procurar a minha turma. E levar para eles esta proposta de escrituração que até pode ser irregular, mas certamente é reveladora do patrimônio líquido formado pelas verdadeiras amizades. nilson.souza@zerohora.com.br Pois é nesta rotina do dia a dia, vamos deixando pelos caminhos nosso estoque de amigos, e muitas vezes, sem conquistarmos novos na mesma proporção, o que acaba nos dando um déficit bem expressivo, uma perda enorme para nosso coração. Diria que o razoável seria que mantivéssemos pelo menos aqueles que conquistamos ao longo do tempo, mas infelizmente isso não ocorre. Pena não é, a amizade morre e não fizemos nada para salvá-la? E assim, é bom questionarmos, o que diz a música do Oswaldo Montenegro " A Lista": quais dos amigos que tínhamos a dez anos atrás ainda são nossos amigos? Uma ótima quinta-feira a todos nós... Quarta-feira, Novembro 16, 2005
"Desculpem, mas devo dizer: eu quero o delírio". (Lya Luft) Eu não quero ser uma pessoa normal, vivendo uma vida normal, só pra inglês ver. Eu quero meus defeitos. Meus efeitos. Quero tudo e quero mais. Eu não ligo se o ano acabou, minha fé balançou e as pessoas estão pensando em árvore de natal e festa de ano-novo. Já chegou o final de dezembro? Não. Então, me desculpa. Leva os enfeites natalinos de volta pro armário, pára de procurar lentilha no supermercado, devolva sua passagem pra aquela viagem que você nem sabe onde é. Viva um dia de cada vez, respire, esqueça... Esqueça do Papai Noel suado no shopping center, das sete ondinhas que você nunca pula, esqueça sua certeza de que " ano que vem vai ser melhor". É estranho, eu sei. Mas certeza a gente tem que ter hoje. Do agora. Sou da turma do improviso. Por isso, não me pergunte. Eu nunca sei o que vou sentir daqui a 5 minutos, 2 meses, um ano. Sinceramente, não sei. E se sei, minto. Eu não vivo o futuro. Eu não sei que caminhos seguirei, que pessoas amarei, quantos gatos terei. Eu só sei o que quero. O que devo. NOW. Eu nasci assim: conheço o fim e improviso o meio. Falta de juízo? Não sei. Preciso sentir antes de pensar. Só depois ajo. E vivo como vive quem planeja: bato a cabeça do mesmo jeito. Arrisco. Machuco. Sangro. Costuro. Me reconstruo. Igual fiz nos últimos 10 meses. Porque verdade seja dita: cada um vive de um jeito. Mas que 2005 foi esse? Ou melhor: que ano está sendo esse? A idéia foi me partir ao meio? Dividir o mundo ao meio? Me arrancar o coração? Roubar minha esperança? Enxergar em cada rosto um ponto de desespero? Se o plano era esse, pessoal aí de cima, coloca um "A" aqui. Bota um parabéns e me dá uma estrelinha. Eu preciso, eu mereço! (Eu e todos nós). Preciso porque me arrisquei. Mereço porque me ferrei. E me ferrei porque quis. Resultado? Aprendi. Ponto pra mim! Quanto maior o grau de dificuldade, maior o prêmio. Não é assim? Eu acho, está escrito em algum lugar, não me pergunte onde. E o prêmio não é ganhar um bônus por decepções digeridas nem coragens reforçadas, com uma viagem de ida e volta com acompanhante para a Polinésia Francesa. O prêmio é olhar pra dentro e - mesmo com toda dor, mágoa, tristeza, falta de rumo e prumo - se reconstruir, se aceitar e ter orgulho de quem você é. A gente tem o que precisa, não o que quer. Por isso, " Um inesquecível AGORA!"
Martha Medeiros 16/11/2005 Regurgitar Eu li o livro antes de ver a peça, o que facilitou minha compreensão, porque Michel Melamed, no palco, é um epilético verbal, emenda uma frase na outra enquanto leva choques que parecem amenos, mas não devem ser, assim como a vida parece amena, mas que nada. Regurgitofagia é o nome da peça (que esteve duas vezes em cartaz em Porto Alegre, primeiro durante o Em Cena e no último final de semana no Theatro São Pedro - se houver uma terceira, não perca) e do livro. Este, aliás, me lembrou um pouco os primeiros livros do Luciano Alabarse, justamente o diretor do Em Cena. Pra quem não sabe, Luciano, no início dos anos 80, lançou por uma tal Editora Proletra (ainda existe?) Sem Essa, Aranha, Aquele Um e Pobres Moços - um mix de idéias, poemas, letras de música, declarações de amor e de ódio, uma esquizofrenia pensante e atraente para os que, como eu, estavam tentando entender alguma coisa deste mundo caótico, e que segue caótico, vide Michel Melamed, ano 2005. Deglutimos coisas demais, nos enfiam goela abaixo toda sorte de informações e aberrações, basta, impossível assimilar tanta coisa, tanta porcaria, tantos estímulos velozes que nos impedem a reflexão. É o que resume, com um humor sarcástico, Regurgitofagia. E eu digo amém, porque acredito mesmo que estamos pirando, todos. E para enfrentar a piração, só mesmo respondendo com mais loucura. Melamed trata de assuntos seríssimos com o mesmo deboche dos debochados que tentam nos doutrinar, e com uma linguagem rápida como rápida é a vida. É tudo um susto. Você não anda assustado? Salve você. A maioria das pessoas que eu conheço anda com os cabelos em pé, como se o choque fosse diário e ininterrupto. E é. Teatro não serve pra nada, pensam alguns, e literatura é elitismo, pensam outros, e na verdade não pensam, porque é no teatro e na literatura que encontramos a transgressão possível e a provocação necessária. O mundo não anda fácil nem digerível. É homem-bomba explodindo em festas de casamento, é corrupção pra tudo que é lado, é muito desamor travestido de prazer, é uma urgência de ser feliz que impede a construção da felicidade mesma, que é mais vagarosa. Para onde estão indo todos nesta correria? Não sou a única que ainda vive, em certos aspectos, na era da pedra lascada, mas corro igual, porque se parar, me atropelam. Regurgitar: vomitar. Fagia: comer. Então, regurgitofagia é simplesmente expelir o inútil e voltar a se alimentar do que precisamos. E do que precisamos? Anote aí, é pouca coisa: silêncio, arte e amor. Bom dia a todos. martha.medeiros@zerohora.com.br Fudamentalmente, arte e amor eu diria para a nossa amiga Martha. Bem espero que voces tenham tido um ótimo feriado e desejo um recomeço sem correrias, sem ruídos e mais do que nunca sem mágoas. Uma ótima semaninha curta para todos nós. Terça-feira, Novembro 15, 2005
Mais um BRASÍLIA - Lula é um vaidoso clássico, intuitivo e auto-suficiente. Não precisa de nada nem de ninguém. Acha que sabe tudo e que basta botar a mão que os problemas desmancham no ar. E tem um infinito senso de autopreservação. É assim que os homens do presidente passam e ele fica. Passaram Dirceu e Gushiken no governo, mais Genoino, Delúbio e Sílvio Pereira no PT. Lula alternou irritação e enfado, mas não se abalou. "Em duas semanas, o Lula esquece o Palocci, como esqueceu o Dirceu. Mas não vai fazer mudanças bruscas na economia, porque tem um forte senso de autopreservação", aposta o líder pefelista José Agripino Maia (RN), prevendo a queda de Palocci. "O Dirceu cai, o Gushiken cai, a cúpula inteira do PT cai. E o Lula não tem nada a ver com isso? Se o Palocci sair, o Lula tem de sair", provoca o líder da oposição na Câmara, José Carlos Aleluia (PFL-BA). O fato é que Lula continua jogando pela janela quadros decisivos para a trajetória do PT, para sua vitória em 2002 e para manter o governo. O máximo que diz é que foi "traído". Palocci está na mira. E ninguém mais se lembra que a melhor coisa do governo era a "estabilidade da economia"? Podia ser, mas a megalomania diz a Lula que o mérito não é do "companheiro Palocci", mas dele próprio, de sua sapiência, de sua intuição, de sua enorme capacidade de resolver todos os problemas. Ninguém mais, nem aliados nem adversários, dá um tostão furado pela permanência de Palocci. Não pela pressão do mercado, do PFL, do PSDB, do PT. Mas pelas denúncias dos amigos (cada amigo!) e porque Lula lavou as mãos. Com Palocci balançando, a questão é saber o que será da economia até a eleição. Como Lula vai decidir? Com o cálculo da autopreservação. A esta altura está somando e diminuindo, na base da intuição, o que é melhor para a campanha: manter o certo ou arriscar no duvidoso. E aí? Palocci sai e a crise fica? ELIANE CANTANHÊDE Folha - 1511
Liberato Vieira da Cunha 15/11/2005 Num jardim de Mainz Aprendi cedo que existiam dois mundos. Um era o irreal, composto das torres da Igreja Matriz, do verde dos arrozais, do canto dos pássaros, do som e das vozes de automóveis e pessoas que cruzavam a Rua Sete. O outro era o real, e se inaugurava quando minha mãe sentava à noite ao lado de minha cama e lia coisas sobre reis, princesas, castelos, guerreiros e leões que falavam um idioma perdido. Reencontrei algo dessa dualidade mágica que povoou minha infância há poucos dias em Mainz, uma cidade belíssima, que certas enciclopédias preferem chamar de Mogúncia. Foi ali que, com amigos de 18 países, meus companheiros de uma jornada por este outono europeu, visitei a sede da German Stiftung Lesen, uma instituição que tem como patrono o próprio presidente da RFA, mas em verdade é mantida por voluntários que partilham de um mesmo sonho: levar a criança à descoberta do prazer da leitura. Foi em Mainz que Gutenberg inventou a imprensa e ainda agora revi o engenho, antes próprio para decantar vinho, com o qual ele fez nascer a primeira Bíblia composta com tipos móveis. Nem por isso ali se situa o único elo desse fascinante projeto. Sob o nome de EU Read, já tem sucursais da Bélgica à Inglaterra, da Itália à Holanda e à Suíça, onde tudo começou. Há momentos que a gente recorda menos pela ocasião do que pelo cenário. Apreendi tudo sobre a irmandade dos leitores de histórias não em um auditório ou uma sala de conferências. Tudo o que é possível saber sobre o EU Read, ouvi durante um coquetel em um jardim do palacete em que se situa sua sede alemã. O dia era glorioso, os gramados lembravam tapetes, árvores ancestrais repartiam paz e sombra. Num recado simples, meus colegas e eu ouvimos do Senhor Diretor, um jovem de pouco mais de 30 anos, que nenhuma sociedade é civilizada e integrada se não lê, que o amor pelos livros deve começar tão cedo quanto Deus permita, que num mundo invadido pela Internet, a informática e a eletrônica, nada substitui a leitura. Não se trata de nenhuma teoria. Algumas das ações do programa incluem a remessa de livros a famílias com bebês de oito meses a três anos, o estímulo a que os pais os façam crescer ouvindo histórias em voz alta, o incentivo a que os próprios adultos despertem para o amor às letras. Mas já que nada se constrói sobre os alicerces do devaneio, um fortíssimo lobby divulga por meia Europa, junto a governantes, empresas e universidades, os valores intrínsecos de frases como Ivo viu a uva. Faltam Ivos e uvas no universo. Mas falta especialmente gente que perceba que o melhor legado que transmitirão a seus filhos compõe-se de Ivo, da Uva e do universo da informação e da cultura. Bem nesse feriado, que ainda está de tempo bom, mas que a previsão é de temporais em alguns locais do Estado, acontece o enceramento da 51ª Feira do Livro aqui em POA e a volta da normalidade com o descanso para os sabiás da Praça e probabilidade de uma saída menos stressante do trabalho. Acontece também, a volta de todos aqueles que foram para a serra e litoral. Devagar no retorno meus leitores, sem pressa de chegar até porque, a semana será curtinha, pois que começará na quarta-feira. Curtam meninos e meninas. A viagem não deixa de ter a sua parte boa na nossa ida para um destino ou na volta para nossas casas. Segunda-feira, Novembro 14, 2005
Nico Fagundes 14/11/2005 Preparando professores Freqüentemente nós, tradicionalistas, nos queixamos que as nossas professoras não transmitem aos seus pequenos alunos maiores conhecimentos sobre o Rio Grande do Sul. E nós não temos razão, porque os culpados somos nós mesmos, que não temos tempo ou disposição para ministrar às professoras os ensinamentos necessários. Elas, afinal, não foram treinadas para isso. Não existe no Curso Normal (ou como quer que se chame agora o curso para a formação de professores) cadeira sobre cultura gaúcha em que as nossas jovens possam aprender sobre a nossa história, o nosso folclore, a nossa literatura. Essa foi, desde o primeiro momento, uma preocupação do prefeito José Fogaça e do secretário da Cultura Sérgius Gonzaga. Nei Machado, titular da Coordenadoria de Tradição e Folclore da Secretaria da Cultura do município, tratou de pôr mãos à obra desde que tomou posse. Ainda no começo do ano, realizou um abraço de cavaleiros à prefeitura, um círculo justo e perfeito onde o prefeito foi o grande homenageado. Em junho não teve tempo razoável, mas fez algo para comemorar as datas consagradas a Santo Antônio, a São João e a São Pedro. Em agosto, na Semana do Folclore, fez o belo Festival da Faca Campeira, que quer ampliar ainda mais para o ano que vem. Em setembro, a Coordenadoria esteve mobilizada com seus quadros durante o Acampamento Farroupilha sob o comando geral da secretária adjunta da cultura, a bela e dinâmica Ana Fagundes. Agora, preparando o grande curso que vai treinar no ano que vem as professoras do ensino municipal, realizou um bem articulado simpósio com o nome de 1º Encontro com Educadores para o Estudo do Tradicionalismo Gaúcho, de 9 a 10 do corrente, no Centro Municipal de Cultura. Tive oportunidade de tomar parte junto com Dione Peña Zanatta, Neusa Secchi, a querida Paula Simon Ribeiro, Liane Bayard, Manuelito Savariz, Luiz Coronel, Cristina Rolim Wolffenbuttel, Liege Westermann, Luís Augusto Fischer, Liliana Cardoso, Edgar Pereira Barboza, Nei Machado, Carlos Castillo, João Rodrigues, Alexandre Ourique e Terson da Costa Praxedes. O Nei tem sempre o cuidado de convidar instituições importantes para o apoio de suas promoções, como o atuante MTG, o IGTF, a Comissão Gaúcha de Folclore e a Comissão Nacional de Folclore. O jurista, comunicador e fazendeiro Ruy Armando Gessinger foi empossado, em uma cerimônia emocionante, presidente do prestigioso Sindicato Rural de Santiago. Chegamos ao parque rural todos a cavalo, capitaneados pelo novo presidente do sindicato, ele escoltado por amigos e parentes também montados, com o Dr. José Montini e eu, um de cada lado, orgulhosos da nossa posição de amigos privilegiados. Era de ver a alegria da Drª Maristela Gessinger e do principezinho prussiano Rudolph von Unistalda... Que baita festa! nico.fagundes@zerohora.com.br Domingo, Novembro 13, 2005
Por que tantas pessoas casadas têm namorados virtuais? Já recebi mensagens de pessoas me contando que descobriram que sua esposa (ou marido) mantém diálogos (e por que não dizer relações?) com um certo alguém, pela internet. Perguntavam-me se isso deveria ser considerado traição ou não... Mas o fato é que elas se sentiam traídas e magoadas por isso. Outras pessoas, ainda, já me escreveram contando sobre suas relações virtuais e o quanto se sentiam mais felizes e mais amadas na net, pelo amor virtual do que em casa, pela pessoa que - supostamente - é a que preencheria seus corações. A que ponto chegamos!!! Que carência é esta que nos faz acreditar, apostar e investir tudo numa relação que se consolida através de um teclado e um monitor?!? Eu sei, você poderá argumentar: mas é o coração quem fala, em última análise. É verdade, você teria razão!!! Mas a questão não é o coração e sim a disponibilidade para abrir este coração. Por que pela net e não em sua casa, na sua cama, com a pessoa que vive com você? Por que virtualmente e não pessoalmente? Por que nos defendemos tanto da realidade, do olho no olho, das conversas (difíceis, sim, mas absolutamente necessárias)? Por que preferimos a fantasia e a distância a ter de nos mostrar, falar de nossos medos e desejos para a pessoa que dorme ao nosso lado? Creio que mais do que rotularmos como traidor aquele que mantém relações virtuais, ou traído por descobrir tal rota de fuga do parceiro, conseguiríamos respostas e resultados muito melhores se nos dispuséssemos a olhar para o que realmente está acontecendo em nossa relação real, no dia-a-dia, na comodidade da rotina, na desculpa da falta de tempo... Passamos horas e horas, madrugadas inteiras diante do computador, mas algo terrível acontece que não conseguimos dispor de meia hora para acariciar o outro e tentar iniciar uma conversa amigável e agradável... Definitivamente, uma verdade terei de admitir: é infinitamente mais fácil alimentar uma relação sem cheiro, sem toque, sem alteração de humor, sem a cobrança da presença, do olhar, da palavra embalada pelo tom, do que nos dispor a recomeçar, a fazer uma terapia, a rever nossos próprios atos e a perceber que também temos errado continuamente. Mas fica a questão: as relações virtuais são realmente capazes de nos preencher ou são, sobretudo, a sentença de nossa covardia diante da relação que temos vivido, não gostado, mas que não fazemos nada para mudar?!? Se você mantém uma relação virtual, sugiro que você ao menos desligue o computador por uma noite e olhe para a sua realidade. Sente-se na cama, segure a mão desta pessoa que dorme com você e atreva-se a dizer: o que é que tem acontecido com o amor da gente?!? Por onde ele anda? Será que conseguimos trazê-lo de volta, considerando tudo o que já vivemos, já construímos e o tanto que desejamos ser felizes?!? E se você descobriu que a pessoa amada mantém relações virtuais, sugiro que você apazigúe seu ego e deixe seu coração falar... Aproxime-se e arrisque uma declaração verdadeira e não uma pedrada. Talvez uma confissão: tenho sentido tanto a sua falta, ultimamente. Gostaria de ao menos poder conversar, saber o que anda acontecendo na sua vida. Talvez, assim, possamos resgatar o amor que já foi tão grande e tão forte entre nós... Olha!!! Vou te dizer! Eu sei que é muito difícil fazer isso!!! Mas você tem duas opções: ou toma uma atitude para tentar salvar a sua relação real... ou afoga-se na ilusão depressiva de que alguém que você nunca viu possa te amar mais do que esta pessoa que está ao seu lado... Porque o fato é que ninguém existe sem ser tocado, sem ser visto, sem ser compartilhado... e isso é absolutamente impossível no mundo virtual. Relações virtuais podem ser uma ótima medida paliativa, mas jamais será o que o seu coração realmente deseja! Rosana Braga é escritora, jornalista e consultora em relacionamentos afetivos. É autora dos livros Amor - sem regras para viver, 10 passos para um grande amor, Alma Gêmea, você está pronta para ser encontrada?, entre outros Sábado, Novembro 12, 2005
Martha Medeiros 13/11/2005 As novas galerias de arte O desapontamento com a arte contemporânea me leva a buscar outras galerias de arte: as livrarias Quanto mais vou a exposições de arte contemporânea, mais me desaponto. Ainda não visitei a nossa Bienal, mas as duas últimas exposições que visitei no Exterior - e eram consideradas pela crítica uma amostra do que de melhor a nova geração de artistas do mundo inteiro está realizando - provocaram-me apenas tédio. As obras (e estou sendo gentil em chamar alguns ferros-velhos distorcidos de "obra") eram, em sua maioria, desesperançadas, rudes e sem sentido algum. Um retrato do mundo contemporâneo? Sei que é. Mas eu sou do tempo em que a arte despertava alguma emoção - não necessariamente júbilo, podia também ser revolta, espanto, medo, mas comovia de alguma maneira. E, o mais importante: havia um compromisso com a beleza, um pacto que já não existe e que me faz falta. Esculturas, quadros e gravuras precisam estabelecer alguma relação com os meus olhos, não apenas com o meu cérebro. E a verdade é que meus olhos não se acostumam com essas instalações frias, feias e pretensamente geniais, salvo raríssimas exceções. Então ando buscando outras galerias de arte. Livrarias, por exemplo. Não, não mudei de assunto, continuo falando de arte e beleza: capas de livros são hoje o que de melhor está sendo criado em termos de design gráfico. É uma embalagem, não é outra coisa. Mas nem por isso é arte menor. As grandes editoras descobriram a importância de seduzir antes de a primeira página ser aberta, e estão investindo na contratação de profissionais que sabem transformar uma simples capa num objeto de desejo. Não há nenhuma garantia de que um livro com uma bela capa contenha uma história empolgante - uma coisa não está relacionada à outra. Uma capa lisa, franciscana, trazendo apenas o título e o nome do autor, pode ser mais que suficiente como apresentação, pois o que interessa mesmo está lá dentro. Mas beleza não é supérfluo, e o livro não se corrompe ao se render às leis de mercado. É um produto. Intelectual, mas um produto. Precisar atrair, destacar-se, vender-se. Só temos a comemorar o fato de as livrarias terem deixado de serem lojas soturnas para transformarem-se em pequenas galerias que expõem arte contemporânea da melhor qualidade, produzidas por nomes como João Baptista da Costa Aguiar, Moema Cavalcanti, Victor Burton, Silvia Ribeiro, Ettore Bottini, Raul Loureiro, Marco Cena, Silvana Mattievich. Salve o fim da rigidez e da cafonice das capas de outrora. Nada melhor do que um livro bom e, de quebra, bem vestido. martha.medeiros@zerohora.com.br Sexta-feira, Novembro 11, 2005
A solução BNDES para a Varig Com a ajuda do vice-presidente José Alencar, banco estatal montou operação para salvamento da companhia aérea brasileira Lino Rodrigues A operação de salvamento da Varig, a mais antiga empresa aérea brasileira, finalmente ganhou um aliado de peso: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Em menos de 30 dias, o banco estatal conseguiu montar uma operação financeira que pode tirar em definitivo a companhia do buraco.
O primeiro passo foi aprovar junto aos seus credores a proposta de venda das subsidiárias VarigLog e VEM (manutenção) para a Transportes Aéreos Portugueses (TAP), na terça-feira 8, que permitiu o aporte de US$ 62 milhões e evitou a retomada de 40 aviões pela Justiça americana. A entrada do BNDES não só deu credibilidade à operação, mas também sinalizou para o mercado a disposição do governo Lula de recuperar a Varig. Foi uma solução de mercado e sem a utilização de recursos públicos, disse Guido Mantega, presidente do banco. Fôlego: Guido, do BNDES (ao centro), Pinto, da TAP, e Zylbersztajn, da Varig É bom que se diga que o BNDES está financiando a TAP, que tem como fiador o Tesouro português. Dos US$ 62 milhões, dois terços, ou US$ 41 milhões, vêm em forma de empréstimo do BNDES para os portugueses. O custo do financiamento inclui spread anual de 4,5%, mais reajuste baseado em uma cesta de moedas, prazo de 63 meses para pagamento e carência de 26 meses.
Como a legislação brasileira impede que estrangeiros tenham mais de 20% do capital de companhias aéreas, foi criada a Aero Luso-Brasileira Participações, chamada de Sociedade de Propósito Específico ou SPE. Essa empresa tem como sócios, além da TAP, o fundo Stratus de Investimentos (a parte brasileira que detém 80% da empresa) e o bilionário chinês Stanley Ho. A TAP, na verdade, vai colocar US$ 3 milhões na compra das subsidiárias da Varig. O restante vem do empresário chinês, dono da 151ª maior fortuna do mundo, segundo a revista Forbes. Também está previsto até o final do ano a entrada de mais US$ 40 milhões no caixa da Varig, como antecipação de recebíveis de cartões de crédito da TAP. Bilionário: o chinês Stanley Ho vai colocar dinheiro novo na Varig Desde que entrou no processo de recuperação judicial, há cinco meses, a Varig vive em permanente turbulência. São brigas entre credores, acionistas, controladores, funcionários, fornecedores.
Para decolar, precisava resolver seus problemas de caixa e afastar o fantasma das arrendadoras, que queriam de volta os 40 aviões, mais da metade de sua frota atual. O presidente do conselho de administração da Varig, David Zylbersztajn já vê uma luz no fim do túnel depois que o BNDES resolveu entrar no negócio. Mas demorou. Tudo começou no dia 14 de outubro, uma sexta-feira. O vice-presidente José Alencar convocou as estatais BNDES, Banco do Brasil, BR Distribuidora e Infraero e pediu que encontrassem um jeito de tirar a Varig da situação crítica que se encontrava. Alencar estava preocupado com o estrago social que uma iminente quebra da Varig causaria. O estrago não seria só nos empregos (mais de 18 mil), mas também político. Afinal, o governo Lula poderia ser acusado de ter deixado a empresa afundar. A situação estava muito difícil. Era preciso decidir se haveria uma solução de governo ou de mercado, contou um dos presentes na reunião. Na véspera do encontro com Alencar, havia acontecido a assembléia dos credores da Varig, que acabou em bate-boca e xingamentos. O vice-presidente foi informado do mau momento da companhia e pediu uma proposta que pudesse salvar a Varig. Foi aí que o presidente da Infraero, Carlos Wilson Campos, comentou que o pessoal da área de capitais do BNDES vinha burilando o desenho de uma possível operação envolvendo a Sociedade de Propósito Específico (SPE). Foi explicado que a SPE aglutinaria investidores e viabilizaria a compra da VarigLog e da VEM, injetando dinheiro na Varig. Alencar se animou, abriu um sorriso e disse ter adorado a idéia. Pediu que aprofundassem os estudos e marcou nova reunião para 18 de outubro. No dia marcado voltaram todos ao gabinete do vice-presidente. Na época, o risco de a Varig perder os 40 aviões havia aumentado e a audiência na Corte de Falências em Nova York estava marcada para o dia 24 de outubro. Esse fato deixou o encontro mais tenso. Além disso, a venda das subsidiárias estava praticamente acertada com o fundo americano MatlinPatterson por US$ 38 milhões. A entrada dos americanos era rejeitada pela maioria dos credores e funcionários que viam o negócio como ruim, principalmente pelo preço. Alencar recebeu explicações detalhadas sobre o plano do BNDES, mas ainda faltava resolver alguns problemas, como o das garantias. O banco não podia correr riscos sob pena de ter que responder aos órgãos fiscalizadores. Passaram pelo gabinete do vice-presidente o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, e o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Murilo Portugal, além do empresário Nelson Tanure e representantes dos aeronautas. Cinco horas depois de muita discussão, Alencar bateu o martelo: Vamos fazer essa operação do BNDES. E vai ser desse jeito, com SPE. Como? Vocês vêem depois, disse Alencar e encerrou a reunião. Com o sinal verde do vice-presidente, a corrida dos técnicos do BNDES passou a ser contra o tempo. Era preciso montar toda a operação, encontrar os investidores, preparar contratos, conseguir as garantias... Trabalho que fazia com que a equipe do BNDES varasse madrugadas. Mas primeiro era necessário preparar um comunicado explicando a operação de maneira simples. O comunicado foi lido na assembléia de credores da Varig do dia 19 de outubro e sinalizou a entrada definitiva do governo brasileiro na operação de salvamento da Varig. Entre os dias 19 e 21 de outubro, foi a vez de a TAP comunicar sua volta ao negócio. Em uma conversa telefônica entre Fernando Pinto e o presidente do BNDES, Mantega exigiu garantias. Uma carta aprovada pelo governo de Portugal selou o acordo. De lá até a quarta-feira 9, quando o dinheiro foi depositado na conta da Justiça americana, Mantega informava diariamente ao presidente Lula e a José Alencar o andamento do processo dentro do banco. No final, tudo deu certo e a Varig voltou a respirar. Pelo menos até o dia 22 de dezembro, quando terá de aprovar o seu plano de recuperação judicial e voltar à Corte de Falências americana para uma nova audiência.
David Coimbra 11/11/2005 A boa morte Fêndi é uma cor aí, descobri esses dias. Parece que meio verde. Novidade, antes nada era pintado de fêndi. A mesma coisa fúcsia. Não existia fúcsia, tempos atrás. Agora, eu aqui, eu não reconheço essas cores todas. Para mim só contam o azul, o verde, o amarelo, o vermelho, o preto e o branco. Ortodoxia, manja? Cinza e bege, vá lá, até aceito, mas com reticências: ... Muitas coisas não existiam em priscas eras, e nem falo de tecnologia, celular, DVD, máquina de bronzeamento, Viagra. Falo do kiwi, do chéster, do tomate-cereja, de correr. As pessoas não corriam antes, sabia? Digo: correr para fazer exercício. Exercício era polichinelo, pronto. Outra: síndrome do pânico. Doença nova. Dia desses, escrevi sobre morrer do coração. Uma morte agradável, creio. Rápida. Praticamente indolor. Melhor do que morrer de velho, a decrepitude apodrecendo os órgãos lentamente, a gente se alimentando de purê sem sal e chá sem açúcar. Certo. Aí um leitor me escreveu. Roberto Borowski. Disse sofrer de síndrome do pânico e que tem um medo medonho de morrer. Por isso, passa a vida pesquisando sobre formas de falecimento. Nessas, descobriu que um ataque cardíaco pode ser bem dolorido e angustiante, o que me fez excluir o enfarte do meu rol de boas mortes. Enfim. O que eu queria dizer é que o mundo mudou muito. E, se algumas mudanças foram terríveis, como os sapatos de bico pontudo das mulheres, há uma que torna a vida melhor: hoje existe uma consciência de humanidade, de igualdade entre as pessoas, que não havia. Por isso, a revolta dos subúrbios de Paris de novembro de 2005 é mais importante do que a revolta dos estudantes de maio de 1968, embora menos romântica. Porque a revolta de hoje é de baixo para cima, sem líder, sem política, sem ideologia: é uma revolta por igualdade, tão-somente. E ontem mesmo, quando fui dar uma palestra na Feira, uma estudante perguntou sobre racismo. Respondi usando um adjetivo do qual meu amigo Ivan Pinheiro Machado gosta muito: muquirana. Racismo é coisa de gente muquirana, disse. E vi a alegria nos rostos dos estudantes. Porque hoje existe essa compreensão. Hoje se sabe que qualquer manifestação racista, seja num estádio de futebol, seja num país campeão de direitos humanos e desenvolvimento, como a França, é coisa de muquirana, é coisa antiga, que não deve existir mais. Sobretudo numa época em que se aceita todo tipo de cores. Até fêndi. Ah, aquela história na Rádio Gaúcha, errei, semana passada. Aquela história eu a conto a partir das 7h30min. A de amanhã: "A Mulher Que Só Diz Sim". david.coimbra@zerohora.com.br Bem aí está o David especialmente para minha amiga leitora que o adora. Mas temos o Ico, a Mauren, o Klécio e o Paulo Santana para as leituras desta sexta-feira que espero seja ótima para todos nós. E o fim de semana está aí outra vez, o último da Feira do Livro. Portanto dá tempo para aproveitar ainda. Venha para cá... Os Jacarandás e os sabiás te esperam... Quinta-feira, Novembro 10, 2005
Quinta, 10 de novembro de 2005, 14h18 Mulheres gastam 2 anos se arrumando para sair As mulheres passam cerca de dois anos de sua vida arrumando-se para sair de casa. Segundo uma pesquisa inglesa, escolher a roupa certa é o que leva mais tempo, cerca de 26 minutos por dia. Arrumar o cabelo leva mais 24 minutos. Banho e mais maquiagem fazem com que o tempo médio de "arrumação" chegue a 1 hora. Esse é o tempo médio nos dias de trabalho, segundo o levantamento do site lastminute.com Uma noite especial requer uma média de 1hora e 30 minutos de preparação. Já os homens gastam 13 minutos para arrumar-se diariamente e um pouquinho mais para uma saída à noite. No total, eles gastam oito meses de uma vida. É, são as estatísticas e servem para correção quando achamos que o rsultado não é satisfatório.
Nilson Souza 10/11/2005 Toalhas pintadas O bater de palmas no portão me pegou no meio de um parágrafo. Abandonei o computador firmemente decidido a mandar o intruso embora. Era uma intrusa. Mas a moça me saudou com tanta doçura que a minha carranca se desfez automaticamente. - Bom dia, senhor, podemos falar um minutinho mais de perto? Ainda desconfiado, perguntei o que ela queria tão cedo num domingo pela manhã, quando as pessoas deveriam ter aquele minutinho e outros mais para descansar sossegadas nas suas casas. - Eu quero lhe mostrar uns trabalhos que faço para poder pagar o meu curso de Auxiliar de Enfermagem. Fui olhar. Eram toalhinhas simples, enfeitadas por gravuras coloridas, cuidadosamente coladas e legendadas por mensagens do bem: bom dia, boa tarde, amor, felicidade, alegria... Confesso que não me despertaram qualquer interesse, mas a jovem continuou falando e sua história me tocou. Ela trabalha como vendedora num shopping, estuda à noite e atua como voluntária num hospital. Nas horas vagas, faz trabalhos artesanais para pagar o curso e já tentou duas vezes o vestibular, sem sucesso. Garante que vai insistir até conseguir. - Vou cursar Enfermagem. Quero trabalhar com idosos e crianças! Fiquei impressionado com aquela determinação. Jovens da idade dela dificilmente acordam cedo nos dias de descanso. Ela explicou que tinha que sair quase de madrugada de Viamão, onde mora, para vender toalhas de porta em porta na Capital. Mas jamais se queixou. Pelo contrário, relatou a sua dura rotina como se fosse uma dádiva do destino, passou a impressão de adorar tudo o que faz, convidou-me para visitar a loja onde trabalha e sorriu matreira: - Se o senhor comprar uma roupa lá, eu ganho a minha comissão. Era tão articulada e simpática a vendedora de toalhas que cheguei a sugerir: - Com a tua desenvoltura, em vez de enfermagem deverias fazer comunicação! Sem saber com quem estava falando, ela me respondeu com aquela franqueza dos puros de coração: - Deus me livre! Eu jamais teria coragem de ser jornalista! Resignado, comprei duas toalhas e desejei-lhe de coração que alcance as duas palavras impressas sob as gravuras: amor e felicidade. Desejo de jornalista. nilson.souza@zerohora.com.br Pois é, às vezes é preciso ir a luta incisivo e determinadamente para podermos chegar ao nosso objetivo. Como dizia "Sêneca": "não há vento favorável para quem não sabe onde vai". Uma ótima quinta-feira a todos nós. Quarta-feira, Novembro 09, 2005
Quarta-feira pra tirar o musgo Marcelo Carneiro da Cunha - Todos os dias, o escritor conta suas impressões sobre a 51ª Feira do Livro Chega de chuva e eu fiz a minha parte. Não peguei no pé de nenhum lançamento de livro sobre fadas, duendes ou gnomos e todos podem ver que deu certo e nenhuma frente fria e mística nos ameaça. Ufa. Explorando a praça, finalmente cheguei até a nova área de alimentação. Ela me parece a última coisa com jeito de quermesse da Feira, com seus pontos maus ¿ comida não lá muito boa pra quem quer viver saudavelmente e jeitão meio sem jeito; e pontos bons ¿ ahhhn, nenhum. Desde quando quermesse tem algum ponto bom? O Opinião poderia ser um ponto a favor, se deixassem o pessoal do Opinião criar algo mais bacana. Eles saberiam como fazer isso, já faziam no tempo do Nota Sete, mas parece que precisam se alinhar com as outras | |