Nuvens Brancas

Nuvens Brancas

Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância. O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério. Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.



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Quarta-feira, Maio 31, 2006



Martha Medeiros
31/05/2006


Dia Mundial sem Tabaco

Para que serve um Dia Mundial de qualquer coisa? Para provocar uma reflexão, e isso não é pouco se levarmos em consideração que ninguém anda muito a fim de pensar em nada. Pois hoje é o Dia Mundial sem Tabaco, e é claro que vem aí todo um discurso sobre os riscos causados pelo fumo.

Uma cantilena necessária, ainda que as pessoas saibam muito bem o veneno que estão tragando. Seria hoje um bom dia para romper com esse hábito? É um dia excelente, clássico. Pare, se for capaz. Mas tem uma coisa ainda mais importante e muito mais fácil para se determinar hoje: não começar a fumar!

Os números são alarmantes: 100 mil jovens começam a fumar todos os dias. Nesta quarta-feira, no mundo todo, tem 100 mil garotos e garotas acendendo seu primeiro cigarro.

Amanhã serão outros 100 mil. E sexta, mais 100 mil. Como é que as pesquisas chegaram a esse número, eu não sei, mas a verdade é que tem gente à beça no planeta e 100 mil pode ser um chute bem aproximado.

A gente sabe por que um fumante tenta parar, mas o que faz um não-fumante começar? Até algumas décadas atrás, começava-se a fumar por auto-afirmação. Todo adolescente sonha em crescer de uma vez, parecer mais maduro do que é - e mais charmoso. O importante era ter Charm, alguém lembra? E levar vantagem em tudo.

E sentir um raro prazer. "Hollywood, o sucesso!" Por muito tempo, o cigarro foi associado a aventura, beleza, classe, virilidade, erotismo. Com espinhas na cara não se tem nada disso, mas dá pra comprar uma carteira no boteco da esquina e bancar o tal.

Dei minha primeira tragada aos 13 anos e o cigarro me enjoou tremendamente, mas não me deixei abater, eu também queria ter charme, então insisti nessa insensatez durante algum tempo, até que comecei a dar vexames públicos, passando mal de verdade.

Descobri que era preferível abrir mão do charme e ter minha reputação preservada. E o meu pulmão também. Foi litigioso: eu e ele nos abandonamos para nunca mais.

Com o fim da propaganda e da constante associação do cigarro com pessoas vitoriosas, fumar perdeu status, passou a ser considerado uma fraqueza humana.

Hoje os adolescentes se auto-afirmam de outras maneiras - através da roupa, do esporte, da ficação, dos blogs e, tendo a cabeça fraca, através de pichações, bebedeiras e rachas. Observo diariamente alunos em portões de escolas e ninguém fuma.

Quando eu estudava, bastava colocar o pé pra fora do colégio e quase todos os alunos acendiam um cigarro, se achando muito espertos. Os espertos, hoje, estão limpos. E mais bem informados. Sabem que, quando a nicotina entra na vida de alguém, é pra ficar. Desgrudar-se é uma dificuldade. Morre-se por ela.

O cigarro dos outros nunca me aborreceu, compreendo perfeitamente que é um amor verdadeiro e difícil de largar. Quem estiver disposto, hoje é um bom dia para tentar parar, mas se não conseguir, paciência, há hábitos piores nesta vida.

Mas, quem nunca fumou, não escolha hoje pra começar. Nem amanhã, nem depois. Começar é que é estupidez. Começar é que não se explica.

martha.medeiros@zerohora.com.br

Como tudo aquilo que é proibido é desafiante. Como todos os meus colegas fazem eu é que sou careta, por aí vai uma série de razões para se começar alguma coisa. E é um pena a gente não querer ser diferente, querer ser igual a todo mundo, pelo menos àqueles a quem achamos importantes.

Quando deveríamos ter personalidade. Não seguir, mas dar exemplos. Uma ótima quarta-feira a todos nós, esta que encerra este mês de maio de 2006. Um Feliz mês de Junho.


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Terça-feira, Maio 30, 2006



Liberato Vieira da Cunha
30/05/2006


Palavras cruzadas (1)

Andei percorrendo meus 14 dicionários. Recomendo a viagem. É uma ótima maneira de você cruzar com a própria ignorância.

Ababá não é uma abreviatura de Ali-Babá, nome muito comum em Brasília, mas um vaso de barro ou de metal, excelente para depositar a, digamos, lama tão popular na Ilha da Fantasia.

Capitão-de-bigode não é bem o comandante de um navio dotado daquele adorno, mas uma ave piciforme. Não entendeu? Então traduzo: mais exatamente é um legítimo capito auratus nítido. Agora melhorou?

Daraf. É canja. Como você já deve ter adivinhado, é uma unidade de medida de elastância, igual ao inverso de um farad. Mas essa, também, era uma barbada.

Estrela-de-ouro não é nenhuma jóia, mas uma planta glabra, da família das compostas, de capítulos solitários, dotados de discos e lígulas, e cujos aquênios marginais são bialados. Sacumé?

Forno-de-jacaré não é algum bárbaro instrumento de tortura para grelhar reptis crocodilianos aligatorídeos. É, bem mais singelamente, um horrendo sinônimo para a belíssima vitória-régia.

Ganga. Não é o feminino de gangue. Duvido que você conheça um de seus sentidos, que são, pela ordem: certo tecido forte, azul ou amarelo; resíduo, em geral não aproveitável, de uma jazida filoneana; qualquer bebida espirituosa; variedade de algodoeiro de fibras pardas; série de partidas do jogo de gamão. Ah, sim: provém do chinês yang, mas tão-só no dialeto falado na extinta corte da popular república.

Hora de canção pegar menino, segundo qualquer pessoa inteligente sabe, significa simplesmente, como você já pescou, a hora da onça beber água.

Iluso não é algum modo de os portugueses grafarem o i. É iludido, enganado. Como você, agora.

João-dias tem nada a ver com aquele cantor que encantou a sua vovó. É na verdade um sebastião, bem assim, com letra minúscula, mas essa era fácil de matar.

Letra cortesã pode sugerir a usada para você cortejar uma dama. Ledo engano. A palavra nem é romântica; designa a escrita usada em chatíssimos processos jurídicos na Península Ibérica do tempo do epa.

Você acha que meia-cana é um meio martelo da branquinha? Nem pensar. É óbvio que se trata de uma moldura côncava de um lado e convexa de outro.

Continua na próxima semana...

liberato.vieira@zerohora.com.br


Chove torrencialmente por aqui e faz 14 graus. Então não está frio, mas a umidade é aproximadamente de 100%. Então haja, bota, sapato, guarda-chuva, todos eses apetrechos para poder sair e se locomover.

E aí aquele ventinho que teima em querer levar os guarda-chuvas para longe. Essas coisas quem vem de carro para o trabalho não vê e não sente.

Uma ótima terça-feira a todos nós.


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Segunda-feira, Maio 29, 2006



Caixa vende 1.415 imóveis no fim-de-semana

A Caixa Econômica Federal vendeu 1.415 imóveis, no valor de R$ 52.573 milhões, entre sexta-feira e ontem no estacionamento do hipermercado Big Cristal.

Os contratos foram assinados durante o 2º Feirão da Casa Própria, evento que disponibilizou 10,4 mil imóveis, entre novos, usados, na planta e da própria instituição para financiamento. Outros 5.781 negócios, no valor de R$ 249,773 milhões, devem ser concretizados nos próximos dias.

Na primeira edição do evento, realizada no ano passado, foram vendidos 485 imóveis no local, no valor de R$ 21,3 milhões, e encaminhados 3.845 negócios no valor de R$ 161,6 milhões.

A decisão sobre o 3º Feirão da Casa Própria será da diretoria da empresa. Entretanto, com os bons resultados não tenho dúvidas de que esta iniciativa terá continuidade, afirmou o gerente regional de negócios da Caixa Econômica Federal, Rubem Danilo Pickrodt.

Segundo Pickrodt, a Caixa Econômica Federal mobilizou 200 funcionários especializados em habitação para prestar as informações sobre financiamento aos consumidores. Gustavo Azevedo, 28 anos, funcionário público, foi um dos atendidos ontem em busca de informações sobre consórcio imobiliário para a compra do primeiro apartamento na Capital.

Estou pesquisando consórcio em diversas instituições financeiras e achei interessante as condições oferecidas pela Caixa, explicou Azevedo. Agora, o segundo passo será encaminhar os documentos em uma agência bancária. Escolhi a Caixa, pois é uma instituição de credibilidade, com garantia de que não serei prejudicado no futuro, destacou.

Consumidores também buscaram informações para a aquisição de crédito para construção. Edson Soares, 37 anos, motorista, já possui um terreno no bairro Vila Nova, em Porto Alegre, mas ainda não conseguiu recursos para o compra do imóvel.

Pretendo utilizar meu Fundo de Garantia como entrada e financiar os 90% restantes, ressaltou Soares. Para ele, o feirão foi importante para tirar as dúvidas e poder enfim encaminhar o negócio. Pude aproveitar o domingo para buscar uma solução para o financiamento, concluiu.

Os imóveis ofertados pela Caixa Econômica Federal atraíram 31.029 visitantes ao estacionamento do hipermercado Big Cristal entre sexta-feira e ontem. A instituição estava ofertando até 100% de financiamento do valor e prazo de pagamento de até 20 anos.

Bem essa iniciativa de aproximar os interessados, construtoras/imobiliárias/compradores/Agente Financeiro é bem interessante. Como a demanda por imóveis é quase infinita será sempre bemvinda.


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Sem-terra acampados já somam 1 milhão sob Lula

Número de famílias em barracos de lona subiu de 60 mil, em 2002, para 230 mil

Ministério não comenta levantamento da Ouvidoria Agrária Nacional; aumento mostra "incapacidade do governo", afirma MST

Leonardo Wen - 23.abr.2006/Folha Imagem

Criança dentro de um barraco de lona em um acampamento montado pelos sem-terra do MST, em Teixeira de Freitas, na Bahia

EDUARDO SCOLESE
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA


A quantidade de sem-terra acampados explodiu neste ano eleitoral. Levantamento recente feito pelo governo federal revela que cerca de 1 milhão deles está espalhado pelo país morando debaixo de barracos de lona à espera de um lote de terra da reforma agrária.

Ao lado das invasões de terra, a criação e o inchaço dos acampamentos são os principais instrumentos de pressão dos movimentos que representam trabalhadores sem terra contra o Palácio do Planalto.

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito, em outubro de 2002, a contabilidade oficial apontava 60 mil famílias acampadas. Hoje está em 230.813 famílias, o equivalente a 1 milhão de homens, mulheres e crianças.

Ao chegar ao Planalto, a primeira promessa de Lula aos sem-terra foi justamente priorizar o assentamento dos acampados. Neste ano, ao concluir sua gestão, terá mais sem-terra nessas condições do que quando assumiu a Presidência da República.

Assunto proibido

O resultado do último levantamento da Ouvidoria Agrária Nacional obtido pela Folha é assunto proibido no Ministério do Desenvolvimento Agrário, a quem a ouvidoria é subordinada. Na pasta, a informação oficial é que não existe um número atualizado.
Segundo o ministério, valeria o censo realizado no final de 2003, que apontou 162 mil famílias acampadas.

Na prática, a preocupação do governo com a divulgação do número é que o aumento dos acampados somente reforce o discurso do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em torno da ineficiência de sua política de reforma agrária, que, de fato, tem privilegiado o assentamento de agricultores na Amazônia Legal (Estados do Norte, além de Maranhão e Mato Grosso), onde o movimento atua com timidez e os projetos carecem de água tratada, energia elétrica, rede de esgoto e estradas de acesso.

Até dezembro, para cumprir integralmente a meta do Plano Nacional de Reforma Agrária, o governo terá de assentar pelo menos 155 mil famílias.

No ano passado, diz ter assentado 127 mil. Em 2006, porém, além de uma greve de servidores do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), o Planalto vê o pior ritmo de desapropriação de terra da gestão.

"Incapacidade"

"Esse número [230 mil famílias] mostra que os trabalhadores se organizaram nos acampamentos com a esperança de que Lula fosse resolver os problemas da reforma agrária. Mostra ainda a incapacidade e os limites do governo Lula de cumprir as suas promessas", disse Marina Santos, da coordenação nacional do MST.

Essas 230.813 famílias representam o tamanho da clientela da reforma agrária. Nem todos, porém, vivem de fato debaixo da lona preta. É prática comum manter as famílias morando nas periferias das cidades e fazê-las seguir para os barracos somente quando são chamadas pelos líderes dos movimentos.

Todas as famílias acampadas e cadastradas por uma das 30 superintendências regionais do Incra recebem uma cesta de alimentos do Ministério do Desenvolvimento Social. No ano passado, o governo distribuiu 1,3 milhão de cestas a 226,2 mil famílias acampadas.

Neste ano, 213,7 mil famílias foram beneficiadas com o recebimento de pelo menos uma cesta de alimentos, que tem oito itens e custa R$ 45.

Mas pense bem, se somar a esse contingente de sem terras, todos os nossos irmãozinhos sem teto, qual será o quantitativo? É um País ainda bem injusto esse Brasil e a pergunta que não quer calar, é quando se resolverá essas questões?

Bem uma ótima semana a você que vem aqui todos os dias ou eventualmente.



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Domingo, Maio 28, 2006



Publicado em 28 de maio de 2006
Versão impressa - Paulo Coelho


Odessa é assim

CATARINA, A GRANDE, RECEBE EMpleno inverno algumas caixas de laranja recém-colhidas. Um bilhete diz que vieram de um porto longínquo, parte do seu império. Veja do que somos capazes: mas precisamos de sua ajuda para crescer. Impressionada, a imperatriz de todas as Rússias manda uma quantidade enorme de dinheiro para que o tal porto possa desenvolver-se ainda mais.

Na verdade, as laranjas haviam sido trazidas de outros países, através do Mar Negro. Sem dizer mentiras, o bilhete para a imperatriz tampouco explicava toda a verdade. Como vim a aprender assim que desembarquei ali, continuando os 90 dias em que me propus a peregrinar pelo mundo sem destino certo, a frase mais ouvida na cidade: Odessa é assim.

Quando resolvi viajar, sabia que precisava de pelo menos um compromisso oficial a cada semana: me ajudaria a resistir à tentação de interromper o caminho no meio e voltar para o Brasil antes da hora. Neste caso, aceitei vir à Ucrânia a convite do governo, para o fórum sobre 20 anos do desastre atômico de Chernobyl.

O evento duraria apenas uma tarde e o vento estava me levando para a Ucrânia. Portanto, decidi ficar mais uma semana ali. Quando me perguntaram o que desejava fazer, expliquei que estava tendo encontros surpresa com meus leitores, normalmente avisando com apenas dois ou três dias de antecedência. Onde seria o encontro?
Odessa respondi.

Todos pareceram muito surpresos. Por que Odessa? Por causa de Sergey Kostin, que teve um projeto selecionado pela Fundação Schwab (da qual sou membro da diretoria). Nos encontros em Davos (a fundação é ligada ao Fórum Econômico Mundial) eu ficava impressionado com aquele ucraniano que, sem falar inglês, conseguia mostrar seu projeto e sensibilizar homens de negócios. Sergey insistia que eu deveria conhecer sua cidade.

Como estava sendo guiado por impulsos e sinais, achei que tinha chegado a hora, mantendo uma tradição que começou em Puente la Reina, que o livreiro local organizasse uma festa/noite de autógrafos para 50 leitores escolhidos através de sorteio.

Um amigo nos emprestou seu avião. Quando desembarcamos, a minha representante na Rússia pede para ver o tal convite da festa e se certificar de que está tudo bem. Mas não tem nem data, nem local, nem hora!

Odessa é assim responde o livreiro. Os que receberam o convite telefonarão três horas antes e receberão as informações necessárias. Caso contrário, teremos muitos ingressos falsificados.

Achamos que não irá ninguém, mas peço a Natasha que não se preocupe. Visito a escadaria onde acontece a cena mais forte do filme Encouraçado Potemkim, de Eisenstein (a única referência que eu tinha sobre a cidade). Já que Odessa é assim, a festa é um sucesso. O livreiro me apresenta a um homem gigantesco, que gostaria de fazer minha escultura.

Jamais aceitei este tipo de proposta porque sei que significa ficar dias posando e pretendo voltar para Kiev na manhã seguinte. Mas o livreiro insiste: Apenas uma hora. Odessa é assim.

É a Páscoa ortodoxa, um dia importante para a cristandade. Sinto que devo aceitar apenas para lhe dar prazer; a volta a Kiev será um pretexto verdadeiro para limitar minha permanência em seu estúdio.

Vou até lá com alguns amigos. Alexander Petrovich Tokarev, o escultor, diz que passou a noite em claro rezando (um costume na Igreja Ortodoxa). Mesmo sem dormir, começa o trabalho.

Eu estou um pouco ansioso: não conseguirá nada em tão pouco tempo. Está suando em bicas, suas mãos não param, mas seus movimentos são precisos, uma espécie de balé espiritual. Os trabalhos ao redor mostram sua genialidade e talento, entendo seu amor e sua capacidade de realizar coisas que aparentemente são impossíveis.

E o meu coração está triste, porque daqui a pouco terei que dizer que devo ir embora. Entretanto, uma hora depois a escultura está pronta: mais uma vez me foi lembrado que quando se deseja uma coisa, todo o Universo conspira a favor. Por que devo ficar surpreso? Odessa é assim!

Nota: Aqueles que têm internet podem ver todo o processo e o resultado em www.paulocoelho.com Galeria de Fotos> 2006

paulo@paulocoelho.com.br


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Publicado em 28 de maio de 2006
Versão impressa - Martha Medeiros

O que mais você quer?

ERA UMA FESTA FAMILIAR, DESTAS QUE reúnem tios, primos, avós e alguns agregados ocasionais que ninguém conhece direito, e que por isso mesmo são aqueles com quem a gente logo se entende. Jogada no sofá, uma prima não estava lá muito sociável, a cara era de enterro.

Quieta, olhava para a parede como se ali fosse encontrar a resposta para a pergunta que certamente martelava em sua cabeça: o que estou fazendo aqui?

De soslaio, flagrei a mãe dela também observando a cena, inconsolável, ao mesmo tempo em que comentava com uma tia. Olha pra essa menina. Sempre com esta cara. Nunca está feliz. Tem emprego, marido, filhos. O que ela pode querer mais?

Nada é tão comum quanto resumirmos a vida de outra pessoa e achar que ela não pode querer mais. Fulana é linda, jovem e tem um corpaço, o que mais ela quer? Sicrana ganha rios de dinheiro, é valorizada no trabalho e vive viajando, o que é que lhe falta?

É quase um pecado confessar: sim, quero mais. Quero não ter nenhuma condescendência com o tédio, não ser forçada a aceitá-lo na minha rotina como um inquilino inevitável. A cada manhã, exijo ao menos a expectativa de uma surpresa, quer ela aconteça ou não. Expectativa, por si só, já é um entusiasmo.

Quero que o fato de ter uma vida prática e sensata não me roube o direito ao devaneio. Que eu nunca aceite a idéia de que a maturidade exige um certo conformismo. Que eu não tenha medo nem vergonha de ainda desejar.

Quero uma primeira vez outra vez. Um primeiro beijo em alguém que ainda não conheço, uma primeira caminhada por uma nova cidade, uma primeira estréia em algo que nunca fiz, quero seguir desfazendo as virgindades que ainda carrego, quero ter sensações inéditas até o fim dos meus dias.

Quero ventilação, não morrer um pouquinho a cada dia sufocada em obrigações e em exigências de ser a melhor mãe do mundo, a melhor esposa do mundo, a melhor qualquer coisa. Gostaria de me reconciliar com meus defeitos e fraquezas, arejar minha biografia, deixar que vazem algumas idéias minhas que não são muito abençoáveis.

Queria não me sentir tão responsável sobre o que acontece ao meu redor. Compreender e aceitar que não tenho controle nenhum sobre as emoções dos outros, sobre suas escolhas, sobre as coisas que dão errado e também sobre as que dão certo. Me permitir ser um pouco insignificante.

E na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicação, conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei, deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma, me conectar com as minhas outras possibilidades de existir.

O que eu quero mais? Me escutar e obedecer o meu lado mais transgressor, menos comportadinho, menos refém de reuniões familiares, maridos e filhos e bolos de aniversário e despertadores na segunda-feira de manhã.

E quero mais tempo livre. E mais abraços. E receber mais flores. Pois é, ninguém está satisfeito. Ainda bem.

martha.medeiros@oglobo.com.br


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Sábado, Maio 27, 2006



Martha Medeiros
28/05/2006


Laços

No filme "Estrela Solitária", de Wim Wenders, um ator decadente procura o sentido da vida

Assim como tem gente (duas ou três) que nunca viu Tangos e Tragédias, eu faço parte daquelas duas ou três que não leram O Código da Vinci e que não têm a menor intenção de ver o filme, que já me disseram ser a bomba do ano.

Se você fizer parte deste seletíssimo grupo "do contra", então reserve um tempo para assistir a Estrela Solitária, que não é nem nunca será um blockbuster (orçamento de mirrados U$ 11 milhões) mas compensa o preço do ingresso.

Mais uma vez Wim Wenders nos coloca na estrada com personagens outsiders em busca de alguma coisa que está faltando. No caso de Estrela Solitária, o que falta é, adivinhe, sentido pra vida.

A história: depois de muito sexo, drogas e fama, um ator agora decadente abandona um set de filmagens para buscar sabe-se lá o quê no meio da aridez norte-americana. Encontra a mãe, primeiro, que não via há 30 anos. Depois encontra um ex-amor e um filho que não sabia que existia. Encontra-se a si mesmo? Tenta, ao menos.

O filme é um on the road de trás pra frente: em vez de buscar liberdade e um futuro mais aventureiro, o personagem gostaria mesmo era de ter tido laços mais permanentes, ter tido bem menos liberdade e mais comprometimento. Cá entre nós, numa época onde ninguém quer ser de ninguém, um homem que quer ser de alguém é um tema revolucionário.

Não que o filme tenha esta pretensão. O diretor Wim Wenders - aliado ao roteirista e ator Sam Shepard, sempre cool - é econômico e não pretende fazer carnaval nenhum das emoções. Simplesmente mostra poesia onde há poesia, e um pouco de música boa.

Em termos de fotografia, o filme é uma pintura. O homenageado é Edward Hopper, o artista que melhor retratou a solidão e o isolamento do ser humano. Não fosse por nada mais, só certos enquadramentos valeriam o filme.

Mas vale por mais. Vale pela cena em que Sam Shepard passa 24 horas sentado num sofá abandonado no meio da rua, sem ter para onde ir. Vale pelo jogo de luz e sombras. Vale pela economia de diálogos, pela total falta de frases feitas. Vale para mostrar que personagens fictícios jamais compensarão uma boa vida real.

E vale porque durante duas horas você está dentro de um cinema protegido desta bandidagem que se tornou nossas vidas, onde roubo de carro é notícia, celular em presídio é notícia, onde só é notícia o macabro. Cinema te recupera um pouco desta esquizofrenia.

Pode ser que você cochile em alguns momentos, se for muito ligado em filme de ação. Mas vá. Nem que seja pra resgatar o belo e descansar de tanto barulho.

martha.medeiros@zerohora.com.br


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Seleção brasileira de estrangeiros

Eles vestirão a camisa amarela e cantarão o Hino, mas para eles o Brasil é uma realidade distante

Fred veio em seu próprio carro, desde a França, deslizando pelas magníficas estradas européias. O grupo de Milão Kaká, Cafu, Dida chegou junto, também de carro, ao cabo de um confortável passeio de 200 e tantos quilômetros. Ronaldo desembarcou de jatinho.

Ele tinha viajado com a namorada para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e, como de lá seria complicado voltar a tempo em avião de carreira, alugou um. Outros vieram do Brasil, país ao qual por vezes lhes ocorre dar um pulo, entre um compromisso e outro. O ponto de encontro era Weggis, à beira do Lago de Lucerna, na Suíça.

Era a seleção brasileira reunindo-se para a Copa da Alemanha. Mas, se se quiser interpretar como um clube de milionários atendendo ao chamado para sua reunião quadrienal, também se estará certo.

A nossa será possivelmente a seleção mais bem paga na Alemanha. Nunca um Brasil tão rico se apresentou a uma Copa do Mundo. Mas, fora detalhes como vestir a camisa amarela e cantar o Hino..., é o Brasil mesmo o que eles representam?

Seus componentes são brasileiros, mas vivem a uma distância segura do PCC. Notícias de mensalão e de máfia das ambulâncias chegam a eles como ecos de um outro mundo.

Não por acaso, o grupo se reuniu na Suíça, onde se pode estacionar o carro sem trancar as portas e nunca se registrou um caso de bala perdida. Ali se hospedou no Park Hotel Weggis, sediado numa nobre edificação do século XIX, e fechado para atendê-lo com exclusividade. O ambiente belle époque é o da Montanha Mágica, de Thomas Mann, sem a tuberculose.

Os milhões que hoje em dia giram em volta da seleção brasileira ilustram a evolução do futebol, em tempos de capitalismo e meios de comunicação globalizados. Em sua época, Pelé amealhou fortuna que equivaleria à de um craque de segunda linha hoje.

Mas não é bem a riqueza o que empresta um caráter único à seleção de 2006. É antes sua característica de legião estrangeira. Em 2002, dos 23 convocados para a Copa do Japão e da Coréia, os jogadores que atuavam no Brasil ainda eram maioria treze contra dez. Já estávamos numa fase de exportação maciça de craques, mas ainda assim, e ainda que por pouco, os de casa eram maioria.

Entre os 23 de agora, só dois jogam no Brasil, Rogério Ceni e Ricardinho. Os outros 21 são profissionais acostumados a outras línguas e a outros códigos. Num programa recente, o canal SporTV exibiu Kaká a circular por Milão, conduzindo seu carro e mostrando a cidade para o repórter, a seu lado. A certa altura ele pára diante do Convento de Santa Maria delle Grazie e explica: "É aqui que fica o Cenacolo".

Ele disse "Cenacolo", como os italianos, e não "Santa Ceia", como os brasileiros se refeririam à célebre obra de Leonardo da Vinci. Mais adiante, num restaurante, Kaká explicou que todos os cardápios sugerem uma entrada, depois um primo piatto, depois um secondo, mas que não se é obrigado a comer tanto.

Por toda parte ele era saudado efusivamente. Movimentava-se pela cidade com a desenvoltura de quem nasceu lá.

A fuga dos jogadores brasileiros para o exterior decorre de circunstâncias em parte inevitáveis e em parte evitáveis. A parte inevitável é a atração de mercados futebolísticos milionários como os da Espanha, Itália, Inglaterra e Alemanha.

Mas há bons jogadores brasileiros atuando até na Ucrânia e na Turquia. Isso tem a ver com a parte evitável. Se o futebol brasileiro fosse mais bem administrado, e mais honestamente, os clubes teriam força para defender seus jogadores, pelo menos, do assédio turco ou ucraniano.

A soma dos fatores inevitáveis com os evitáveis empurrou o país para a condição de exportador de matéria-prima.

Da mesma forma como nos tempos coloniais éramos exportadores de cana-de-açúcar ou de ouro, hoje somos de futebolistas. O Brasil regrediu gostosamente à condição colonial claro que com grandes lucros para muita gente, senão não seria assim.

Os jogadores são produtos dessa situação. Os mais festejados, como os da seleção, cercados de atenções e do conforto que a boa remuneração proporciona, acabam por se dar tão bem no novo ambiente que o antigo fica lhes parecendo um castigo. Ronaldo já avisou que ao deixar o futebol continuará a viver na Europa. Ele se acostumou, e não agüentaria mais morar no Brasil.

Nada contra, nem ao dinheiro que ganham, nem ao modo de vida. O dinheiro eles têm mais é que ganhar mesmo, estrelas de primeira grandeza de um espetáculo de massa que são.

Quanto ao modo de vida, nada mais justo do que, para usar o mais simples dos argumentos, querer viver em lugares onde se circula à noite sem medo e se pode deixar a mãe em casa sem o risco de ela ser seqüestrada, como aconteceu com a mãe de Robinho em Santos. Mas que é estranho ter uma trupe de exilados como seleção, isso é.

Eles cantarão o Hino Nacional e serão saudados com bandeiras verde-amarelas, mas para eles o Brasil é uma realidade distante, sem muito a ver com as questões do dia-a-dia.

Bem e para nós que não podemos mudar, um ótimo fim de semana assistindo orgulhosos aos treinos de nosssos representantes.


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Cláudia Laitano
27/05/2006


Bola de cristal

Te cuida, Tom Hanks: o melhor ator do mundo, desta semana, chama-se Osvaldo Mil. O nome não ajuda muito, e a estampa não é de quem vai disputar a mocinha com o Marcello Anthony, mas se você assistiu ao Fantástico nas últimas semanas também deve ter ficado impressionado com o desempenho do falso vidente Ângelo no divertido quadro Operação Bola de Cristal.

Treinado durante seis meses pelo mágico gaúcho Khronnus e pelo parapsicólogo Jayme Roitman na arte da falcatrua esotérica, Osvaldo, na pele de Ângelo, recebeu o desafio de convencer uma pequena audiência de seus poderes sobrenaturais.

Pelo que se viu até agora (o quadro continua no ar por pelo menos mais dois domingos), o sujeito não apenas conseguiu enganar a platéia toda - levando inclusive às lágrimas algumas almas mais sensíveis - como, depois de revelado o esquema, ainda sobrou gente que simplesmente se recusava a acreditar que tudo aquilo que ele "advinhara" sobre seu passado ou sua personalidade nada mais era que o resultado de alguma observação, boa conversa fiada e muita malandragem.

O surpreendente nesse quadro, pra mim, não foi nem o talento do ator para dominar meia dúzia de truques ou o fato de a brincadeira expor a facilidade com que pessoas comuns capitulam diante da irracionalidade.

(Flashes de pensamento mágico manifestam-se nas nossas vidas todos os dias e de milhares de formas - algumas delas muito respeitadas, ainda que tão lunáticas quanto um falso vidente, se você pensar bem.) O que mais me chamou a atenção, na verdade, foi uma tal "técnica do arco-íris", aparentemente muito usada pelos picaretas. Trata-se de olhar bem nos olhos da vítima e soltar frases genéricas, muitas vezes contraditórias, com as quais é impossível não se identificar.

"Às vezes você gosta de ficar sozinho, mas fica feliz quando procuram você." Ou: "Você percebe tudo ao seu redor, mas nem sempre as pessoas ao seu lado se dão conta disso." "Você não suporta pessoas egoístas" e "fica furioso quando invadem seu espaço".

Tive um acesso de riso vendo esse desfile de frases feitas porque, claro, também me identifiquei com todas elas. Enfileiradas assim, elas soam ridículas, mas quem é que não se acha especialmente sensível ou justo? A grande esperteza dos ditos videntes é saber explorar essa tendência natural que todo ser humano tem de pensar-se único e especial.

O curioso é imaginar que essa mesma habilidade, a de captar o que temos em comum além de todas as diferenças aparentes, possa, no limite, ser usada tanto pelo falcatrua quanto pelo grande artista.

A diferença, talvez, é que o picareta joga com o que a gente acha que sabe sobre si mesmo, e se engana - enquanto a grande arte mobiliza em nós exatamente o que a gente não sabe que sente, mas reconhece na hora.

claudia.laitano@zerohora.com.br


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Sexta-feira, Maio 26, 2006



Liberou geral, tudo sob controle, dois mil e hexa e a cereja do bolo

Final de domingo. Noite fria, chuvosa, manuseio revistas e jornais no silêncio e na solidão da sala de leitura do clube. Primeiro passo os olhos meio distraídos nos suplementos culturais e literários. Velhas e novas vanguardas, velhos e novos ismos e dê-lhe misturas pós-modernas, geléias-gerais e textos à deriva.

Os cronistas e articulistas estão aí, burocrática e pontualmente, cumprindo pautas, tentando explicar os meio inexplicáveis humanos, as coisas loucas e certas do mundo e os últimos acontecimentos. Violência, guerras, desgovernos, liberou geral, mas tudo sob controle. Os governantes fizeram o possível. Falta governo.

Cada um diz o que bem entende. Ninguém ouve muito o outro. Os governantes querem que a gente seja parceiro, que providencie educação, saúde , habitação e segurança enquanto eles ficam lá, muito ocupados, nos palácios, governando territórios aéreos, divãgando e assistindo aos jogos de futebol dos dias de semana e dos domingos, assim como muitos de nós.

Já não sabemos mais se os espetáculos dos circos de horrores e factóides são produzidos para a mídia ou se a mídia, de uma forma ou de outra, é que os produz. Mídia é show, espetáculo, mídia fala de mídia, do seu próprio e maravilhoso umbigo virtual ou real. Jornalistas e jornalismo agora são pautas sensacionais, notícias estonteantes e espelhos narcísicos. Bom, mas aí canso um pouco disso tudo, do papo chato e abro a Caras.

Gente fina, elegante, rica e sincera. É outra coisa. Outro mundo. Fico pensando em mandar fazer, sob medida, aquele sapato de couro de cervo virgem, que só o Pierre Pout-Pourri-De-Gateaux , no sul da França, é capaz de fazer.

Mil euros é um precinho meio salgado para um pisante, mas o que se leva da vida é a vida que a gente leva, não é? Sorry, periferia. Fico pensando que ainda tenho umas coisas na geladeira, que o resto do domingo está calmo.

Saio caminhando pelas calçadas desertas, em meio às sombras das árvores e aí penso, sem nenhuma originalidade, que a cereja do bolo é a própria cereja do bolo, que esse ano é dois mil e hexa.

Melhor deixar o leilão da Varig, os mensalões, os presídios e as chatices da realidade para depois da Copa. Está tudo liberado, está tudo sob controle. Meu barco de chocolate navega tranqüilo pelos mares do arco-íris. E isso que ainda não bebi nada esta noite.


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Ico Thomaz
26/05/2006


Calma, Bete!

Lembro de uma frase que meu avô dizia: "nunca sofra com as coisas antes de elas acontecerem; se acontecer, você irá sofrer duas vezes, e se não acontecer, sofreu em vão".

É incrível como certos momentos e frases marcam a vida de uma criança. Precisamos ter o maior cuidado em relação a como agimos e o que falamos na frente dos pequeninos.

Às vezes estão ali, brincando, parece que nem entendem - engano, hoje em dia nos dão um banho. Não estou falando de frases e ensinamentos sábios como os que meu querido avô me dava: estou falando de assuntos que devem passar despercebidos pela gurizada. Tome cuidado, não subestime o poder intelectual destas figuras.

Bom, mas voltando ao assunto de não sofrer antecipadamente, acredito que seja bem mais fácil falar do que concretizar esta história. Não são todas as pessoas que têm esse dom - o poder de acalmar os pensamentos tortuosos não é para qualquer um, tenho noção disto.

Mas todos devem tentar. Quantas noites mal dormidas, quantos neurônios queimados, quantos momentos perdidos. A cama mais parece um tatame olímpico: o indivíduo rola pra lá e pra cá e, o mais gozado, não resolve nada.

Se você tem razão, acalme-se, ninguém tira sua idoneidade. Se fez alguma coisa errada, se ligue, comece por mudar seu jeito. Mas sofrer antecipadamente não adianta nada.

ico.thomaz@rbstv.com.br

Neste que é o último de maio, que seja um ótimo fim de semana a todos nós.


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Quinta-feira, Maio 25, 2006



Crônica de Távola para Terça 25/05/06

Dino Sete Cordas

Não tenho o hábito de usar este espaço para matérias que vêm da Internet ou de outros profissionais, salvo em casos excepcionais.

Mas tendo em vista a justiça implícita de uma nota do colega Joaquim Ferreira dos Santos, transcrevo, divulgo e endosso seu grito de alerta sobre a enfermidade do músico Dino Sete Cordas.

É que se trata de um grande músico, responsável por participação de décadas da melhor música popular brasileira.

Em geral, o violão sete cordas é o que menos aparece nos conjuntos regionais. Diferente do violão comum de seis cordas, o de sete possui uma gama de sonoridades, principalmente as baixas, que se responsabiliza pela harmonia principal do grupo. É, ademais, um instrumento difícil de ser tocado, havendo, por isso, bem poucos solistas e acompanhadores como o Dino.

Felizmente, gente como o Marcelo Gonçalves, o falecido Rafael Rabelo, hoje o malabarista Yamandú, e, mais, gente da antiga como o pai de Paulinho da Viola, o Meira, e o gênio de Zé Menezes, com mais de oitenta anos, que toca tudo quanto é instrumento de corda, felizmente gente como esta, eu dizia, deu tutano à música brasileira de verdade.

São heróis quase anônimos de uma luta contra o esmagamento imposto pela mídia e pelas gravadoras em sua maioria.

Mas vamos ao Joaquim: "Um dos mais importantes violonistas brasileiros, Dino Sete Cordas, 88 anos, está internado com pneumonia no Hospital do Andaraí. Sem plano de saúde, enfrentando as precárias condições do hospital, Dino - do "Época de Ouro", do primeiro LP de João Gilberto, professor de Paulinho da Viola - corre risco de vida se não encontrar melhor atendimento."

Agora o meu apelo para você, leitor e leitora que amam a música do Brasil: dia 30 de Maio vai rolar no Teatro Carlos Gomes, no Rio, um grande show em prol do Dino.

Já estão confirmadas participações de Paulinho da Viola e Conjunto Época de Ouro. Outros convidados muito especiais são esperados. Ingressos a 20 reais e 10 reais (meia-entrada). Realização em conjunto do Instituto Jacob do Bandolim e a Petrobrás.


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Nilson Souza
25/05/2006


Vania vai morrer

Talvez tenha faltado o circunflexo, mas em nomes próprios este tipo de erro é tolerável, especialmente quando vem do cartório de registros. No mais, a frase do título deste texto está correta. Sujeito e predicado verbal, sem complemento. O sujeito é a professora que dirige uma escola pública de Viamão.

O predicado é a locução verbal formada pelo verbo ir, conjugado no presente do indicativo, terceira pessoa do singular, e pelo pior de todos os infinitivos. Morrer é o fim, literalmente.

Pois esta frase, cruelmente pichada na parede da escola, certamente foi escrita por alguém que aprendeu a conjugar verbos e a escrever com suficiente correção.

Se não foi aluno da própria instituição, provavelmente aprendeu a ler e redigir com uma professora como Vânia, que hoje exerce a função de diretora. Deveria, portanto, usar o conhecimento adquirido para agradecer e não para ameaçar.

Pichadores são, normalmente, mais exibicionistas do que perigosos. Tudo o que querem é ver a reação que suas mensagens causam nas outras pessoas. Por isso, talvez o melhor antídoto para o vandalismo que eles praticam seja limpar imediatamente os rabiscos, de modo que sequer possam apreciar o seu trabalho sujo.

Porém, uma mensagem tão contundente como a que foi deixada na escola de Viamão não pode ser simplesmente ignorada. Em tempos de PCC, não dá para facilitar.

Há quem defenda tolerância zero para com os pichadores e há também quem os considere apenas artistas incompreendidos. Sei que existe também uma distinção clara entre pichador e grafiteiro, embora ambos costumem praticar sua arte no patrimônio alheio. Nem vou entrar nesse debate.

O que me preocupa é o teor das mensagens. Se o desajustado que pichou a parede da escola tivesse escrito uma mensagem de amor para a namorada, ainda daria para aceitar. Mas ameaçar a professora é de uma covardia inominável, mesmo que se trate de uma bravata.

Vânia vai morrer, sim. Assim como eu, você e o inconveniente pichador, pois essa continua sendo uma lei imutável da natureza.

Mas temos todos que torcer para que ela tenha uma vida longa, a fim de continuar trabalhando para que muitas outras crianças e adolescentes aprendam a se comunicar pela linguagem escrita e tenham ao menos a perspectiva de um futuro digno.

E no coração desses meninos e meninas, Vânia vai viver para sempre, senhor pichador. E com circunflexo.

nilson.souza@zerohora.com.br

A questão é que de uma simples profecia acaba consumando-se o ato ou concretizando-se o previsto com uma naturalidade tal que vamos nos acostumando a isso. Profissão essa de professor que vai ficando cada vez mais complicada.

Aliás a de bombeiro já está, pois ao invés de salvar a vida dos outros eles tem que preocupar-se em primeiro salvar a sua própria.

Momentos difíceis esses. Uma ótima quinta-feira a todos nós que amanhã já é sexta, aliás, a última de maio.



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Quarta-feira, Maio 24, 2006



Martha Medeiros
24/05/2006


Fazer diferença

Por que a gente escreve? No meu caso, porque não sei cantar ou dançar. Nem cozinhar, que vergonha. Escrevo porque é a única coisa que sei fazer razoavelmente. Aliás, todos sabemos, mal ou bem. E todos escrevem. Uns por vaidade, outros porque precisam se expressar, a maioria porque quer fazer diferença. Mas cheguei à conclusão de que escrever já não faz diferença nenhuma.

Quando se escreve sobre política, somos todos honestos, todos indignados com a corrupção, todos cheios de razão. De cima a baixo e pros lados, a população inteira acredita que o país tem que tomar jeito - e os políticos concordam, já reparou? O discurso deles é o mesmo que o nosso. Igualzinho. Somos uma única voz bem-intencionada.

Escrever sobre a deturpação dos valores? Todos escrevem. Sobre a importância do sentimento, sobre a ausência dos pais na educação dos filhos, sobre a necessidade de se preservar o bom humor e acabar com a grosseria, e do absurdo que é alguém jogar lixo pela janela do carro.

Eu leio todos os colunistas, os famosos e os de ocasião, os de jornais e os de blogs, e acho que somos uma tribo encantada, uns eleitos, sabemos exatamente o que fazer, nada nos corrompe. Tudo gente boa.

E os leitores, idem. Todos magníficos. Avalizam nossas opiniões e, mesmo quando não avalizam, o caráter se mantém, eles querem igualmente um mundo melhor, feito do jeito certo.

O certo está do nosso lado. O certo ronda nossas famílias. Pensamos certo, agimos certo, todos nós que nos manifestamos publicamente. O mundo está povoado de anjos tentando vencer os demônios lá fora: assassinos, traficantes e boa parte da classe política. Eles agem. Nós escrevemos.

A propagação da informação nos deu consciência de sobra. Sabemos tudo, desde como nos comportar num jantar até como investir corretamente o dinheiro público: alguém aí assume que não sabe e nem quer saber de nada disso? Ora, somos pessoas bacanas. Malditos são os outros, os que não se pronunciam através de palavras, e sim através de ações - e ganham a guerra, sempre.

Não adianta mais escrever. Continuo porque é minha profissão, porque tenho contas pra pagar, porque alivia. Mas ou a gente se mexe, ou a gente FAZ alguma coisa, ou vamos continuar remando sem sair do lugar, achando que basta ter bons pensamentos.

Fazer o quê? Eis a pororoca. Primeiramente, o básico, o que está ao nosso alcance: respeitar as leis, assinar carteiras de trabalho, não sonegar impostos - mesmo que a gente saiba que a carga tributária é uma indecência. E então tentar mudar as coisas filiando-se a ONGs, participando de passeatas, fazendo trabalho voluntário e pensando bem em quem votar.

Eu não posso imaginar nada menos tentador do que sair da frente do computador para fazer militância de qualquer tipo, mas ao menos já caí na real: escrever, só, não basta. Falar, muito menos. Quem tiver mais disposição que eu, comece agora, não me espere. Blá, blá, blá não vai nos salvar.

Quem ainda acredita que escrever serve, sim, para alguma coisa, não deixe de ler Umbigo é nosso Rei?, recém-lançada coletânea de artigos sobre os "umbigóides", pessoas que só pensam em si mesmas e que se lixam pro mundo lá fora. Ao menos para refletir se não somos um deles.

martha.medeiros@zerohora.com.br

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Terça-feira, Maio 23, 2006



Publicado em 23 de maio de 2006
Versão impressa - Arnaldo Jabor


Estamos todos no inferno

Você é do PCC? Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias... A solução é que nunca vinha... Que fizeram? Nada.

O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a beleza dos morros ao amanhecer, essas coisas... Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão...

Mas... a solução seria... Solução? Não há mais solução, cara... A própria idéia de solução já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como?

Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma tirania esclarecida, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) e do Judiciário, que impede punições.

Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios...)

E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.
Você não têm medo de morrer?

Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... mas eu posso mandar matar vocês lá fora... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira.

Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala... Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em seja marginal, seja herói? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né ?

Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados.

Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas com autorização da Justiça? Pois é. É outra língua.

Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.
O que mudou nas periferias?

Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$ 40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado?

Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no microondas... ha, ha... Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha. Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo.

Nós somos bem armados. Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor.

Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.
Mas o que devemos fazer?

Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército?

Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas.

O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, Sobre a guerra. Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas...

A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também umazinha, daquelas bombas sujas mesmo... Já pensou? Ipanema radioativa?
Mas... não haveria solução?

Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a normalidade. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... na boa... na moral... Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês... não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela.

Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: Lasciate ogna speranza voi che entrate! Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.


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Crônica de Távola para Terça 23/05/06

A Lucidez do Horror

Lucidez, algo de que o Brasil anda tão necessitado, é uma palavra errática quem tem a ver com luz, (lúcifer também vem...), com clarividência, precisão e justeza de idéias; com saber defrontar-se com o real, com deslindar-se dos embaraços e da confusão inerentes à complexidade das coisas. Um poeta, já disse: Sou lúcido, merda! Outro, declamou: Estou lúcido como se estivesse para morrer.

Um terceiro, após narrar suas angústias abissais descobriu essa grande verdade existencial: bom é ser bombeiro frase que foi válida até há uns doze dias quando mataram um inocente e bondoso bombeiro de maneira brutal. Bombeiro para o poeta (e para todos nós)é um homem que só faz o bem, dorme tranqüilo e vive sem angústias, salvo as salariais.

Sim, a lucidez exagerada cansa e exaure. A plena lucidez é depressiva tanto quanto a inocência é loucura. E precisamos dos dois. Entre esses dois extremos agitamo-nos, ora tapados como uma mula, ora perspicazes e até profundos como uma serpente. Mas a lucidez pode até ser a natureza em sua ordem direta. Em passagem das Prosas Bárbaras, diz Eça de Queirós:

0 vento, que passa pelos campos e pelas eiras, vem cheio de grão e de sementes: a chuva cai lúcida e fresca. Literatura é literatura! Neste a chuva cai lúcida e fresca, frase mínima, a gente visualiza, sente na pele, o tipo de chuva descrito. Sim a natureza é lúcida, como quer o zen. Nós é que interpomos conceitos (bom, mau, feio, bonito) entre o real e a nossa percepção.

Floreios à parte, a lucidez de quem pensa e age com poder no Brasil precisa encontrar saídas que não sejam delirantes nem mágicas. Lula ia salvar o Brasil e vejam no que deu, o que não quer dizer que seja tudo responsabilidade dele.

Há problemas históricos renitentes que vêm de nossa organização social; da indiferença das elites; da explosão populacional de 1970 até hoje (nasceram quase noventa milhões de pessoas, a população dobrou em pouco mais de trinta anos) e, ademais, existe um diabinho transgressor que habita dentro de cada um de nós.

Mas no plano de pessoa vividas, maduras e experientes, a lucidez, lamento dizer, em vez de ser um farol iluminador hoje é a imobilizadora constatação do horror contemporâneo, no que tange a todas as formas de violência diariamente sofridas pela população.
Ficar parado e passivo é que não adiante. Precisamos acordar.


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Liberato Vieira da Cunha
23/05/2006


Conta de somar

Se pudesse fechar uma conta de somar de todos os momentos belos com que fui presenteado, eu correria ao globo terrestre mais próximo. Eu revisitaria a primeira vez que vi o mar, que inundou minha alma de imensidão. Seu sal se misturou ao das lágrimas de uma menina cujos olhos eram naquele instante todo um oceano azul.

Eu tornaria às noites da Chácara da Penha e às lajes fronteiras à casa de pedra, onde duas mãos se uniam a cada segundo em que o luar se escondia nas nuvens.

Eu volveria a Timmendorfer Strand, só para constatar de novo que as águas do Báltico são violeta.

Roma, eu caminhando na campina e transpondo a primavera, em busca do túmulo de Cecília Metela, por quem penou de amor Lord Byron.

A mesa do restaurante em Fishermen's Wharf - e de súbito aquele sorriso engastado numa frase inesquecível.

E a Broadway às 11 horas da noite, na saída do teatro, e toda Nova York reunida ali e toda paz compondo um acalanto para meu coração.

E aquele quarto de hostel em Berlim, imenso como minha liberdade, porque parecia que sempre era domingo e sempre era feriado e alguém me esperava nos gramados do Viktoria Park, em oferenda ao sol.

E as leves batidas na janela em Steamboat Springs, no alto das Montanhas Rochosas, e eu me perguntando quem seria e de manhã abrindo as venezianas e percebendo que era apenas a neve e que o universo se vestira de uma segunda era glacial.

E a ladeira da Ilha de Rhodes, o guia contando histórias de 400 séculos antes e minha amiga me tomando a mão e me segredando: Vai uma flash bier? Tem um bar ali na esquina.

E o Cassino de Nice, onde eu recuperei nas fichas a exata quantia que me haviam roubado em Paris, que não era pequena, mais uns trocados que alguém surrupiou em Viena, pois Santo Antônio, padroeiro das coisas perdidas é, como se sabe, maior que tudo.

E o enorme transatlântico se aproximando da Ilha de Patmos, imersa numa luz mediterrânea pontilhada de casas brancas e da gruta onde se anunciou o Apocalipse.

E Paris na Place de la Contrescarpe e Scott e Hemingway comigo, e comigo uma senhorita de Porto Alegre que acho que nunca ninguém tinha dito para ela como era linda, pelo menos do jeito que eu disse.

E o imenso teatro de Éfeso, na Ásia, e eu me reencontrando em seus degraus com umas 12 vidas de que já não lembrava.

E aquele cais na Grécia, onde perdi a urgência de qualquer partida, e me senti puro e bom e simples como um pescador, sem projetos nem sonhos.

De todas essas coisas me adiciono.

E desta voz que me diz ao telefone, vinda do outro lado do planeta:

"Tenho medo de jamais te rever".

liberato.vieira@zerohora.com.br

Com a temperatura em média de 5 a 10 graus já dá para se ver a elegância das mulheres e de alguns homens, é verdade, por aqui. Uma ótima terça-feira a todos nós.


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Segunda-feira, Maio 22, 2006



Jesus de Nazaré

Aqueles eram dias em que Roma dominava o mundo... Sua águia sedenta de sangue sobrevoava o cadáver das civilizações e povos vencidos. Os valores éticos eram esquecidos...

A desconsideração moral permitia que os ideais da humanidade fossem manipulados pelas estruturas políticas odientas que levavam por terra as construções filosóficas e espirituais do passado. Foi nessa paisagem que Jesus veio apresentar a doutrina de amor, propondo uma nova ordem fundamentada na solidariedade fraternal.

Surgiu na Terra o Homem-Luz para modificar a arcaica estrutura do homem-fera. Tratava-se de Personalidade inconfundível e única. Deixava transparecer nos olhos, profundamente misericordiosos, uma beleza suave e indefinível. Longos e sedosos cabelos molduravam-Lhe o semblante compassivo, como se fossem fios castanhos, levemente dourados por luz desconhecida.

Sorriso divino, revelando ao mesmo tempo bondade imensa e singular energia. Irradiava da Sua melancólica e majestosa figura uma fascinação irresistível. Sua palavra, Seus feitos, Seus silêncios estóicos dividiram os tempos e os fatos da história. Conviveu com a ralé, e, trabalhando-a logrou fazer heróis e santos, servidores incansáveis e ases da abnegação...

Utilizando-se do cenário da natureza, compôs a mais comovedora sinfonia de esperança. Na cátedra natural de um monte, apresentou a regra áurea para a humanidade, através dos robustos e desafiadores conceitos contidos nas bem-aventuranças.

Dignificou um estábulo e sublimou uma cruz... Exaltou um grão pequenino de mostarda e repudiou a hipocrisia dourada dos poderosos em trânsito para o túmulo, quanto a covardia mofa, embora disfarçada, dos déspotas da ilusão mentirosa. Levantou paralíticos.

Limpou leprosos. Restituiu a visão a cegos. Reabilitou mulheres infelizes. Curou loucos. Reanimou desalentados e sofredores. Em troca do amor que dedicou foi alçado à cruz... Seus pés, que tanto haviam caminhado para a semeadura do bem, estavam ensangüentados. Suas mãos generosas e acariciadoras eram duas rosas vermelhas, gotejando o sangue do suplício.

Sua fronte, em que se haviam abrigado os pensamentos mais puros do mundo, se mostrava aureolada de espinhos.

O Mestre, todavia, que vivera e falara da Boa Nova que é toda uma cascata de luz e de alegria, prenunciando a vitória da vida sobre a morte, do bem sobre o mal, da bondade sobre a perversidade, roga a Deus com extrema sinceridade: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!..." O amor é o perene amanhecer, após as sombras ameaçadoras.

A palavra de Jesus, na tônica do amor, é a canção sublime que embalou Sua época e até hoje constitui o apoio e a segurança das vidas que se Lhe entregam em totalidade.


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Nico Fagundes
22/05/2006


O cavalo

Como de outras vezes, eu me socorro dos conhecimentos especializados do Dr. Antonio Augusto Fagundes Filho sobre temas greco-romanos. De todos os animais que o homem domesticou, o cavalo é, sem dúvida, o mais importante.

De fato, no momento em que o uso do cavalo se consagra, os povos se dividem, passando de agricultores a cavaleiros, em uma evolução que veio a redefinir as fronteiras e os hábitos até então conhecidos.

Nas cavernas de Lascaux, na França, encontram-se pinturas rupestres, feitas pelo homem pré-histórico. Entre os animais retratados ali, destacam-se nitidamente os cavalos, revelando a importância deles como símbolo de força e de liberdade.

Os antigos gregos reservavam um papel muito importante para o cavalo em sua cultura, inclusive em sua religião. Para eles, o cavalo foi o resultado de uma competição entre os deuses.

O tirano Diomedes, da Trácia, segundo a lenda, possuía éguas que só comiam carne humana, até que o herói Hércules o jogou para elas, que o devoraram, perdendo o sinistro hábito. Hércules também desviou um rio para cumprir um dos seus 12 trabalhos, que era o de limpar as cavalariças do Rei Áugias, que criava cavalos em enorme quantidade e que nunca as limpara.

Os habitantes da Ilha de Rodes sacrificavam anualmente quatro cavalos atrelados a uma quadriga que era jogada ao mar, em honra ao Sol. O célebre Cavalo de Tróia também nos atesta a importância do cavalo para os gregos.

Ademais, é sempre importante referir que a Grécia Antiga era a pátria dos centauros, metade homem e metade cavalo, ávidos por vinho, mulheres e combates, verdadeiro símbolo do gaúcho previsto milhares de anos antes.

Outros povos também elevaram o cavalo ao nível de amigo e companheiro. Os antigos vikings acreditavam que o seu deus supremo, Odin, cavalgava um cavalo cinzento (que o gaúcho chama de lobuno) e de oito patas chamado Sleipnir.

O mestre maior dos Samurais, Miyamoto Musashi, em seu livro sobre a arte da guerra, recomenda que o cavalo seja robusto e sem defeitos, adestrado para a guerra tanto quanto o próprio samurai.

No zodíaco chinês, o cavalo é um dos animais e dizem que, antigamente, quando era o ano do Cavalo de Fogo, matavam-se todas as meninas que nasciam, porque seriam incontroláveis.

Na Idade Média européia, quando se acreditava que um vampiro assolava uma aldeia, levava-se um cavalo branco (inteiro) para o cemitério e soltava-se lá dentro. Dizem as lendas que o cavalo ia direto ao túmulo do vampiro, pondo-se a bater com as patas no chão.

É bem conhecido o episódio em que o Imperador Calígula nomeou seu cavalo Incitatus para o Senado e que Alexandre Magno só ia para a batalha em seu cavalo Bucéfalo, que recebeu honras militares quando morreu. No próprio jogo de xadrez, de extrema antigüidade, o cavalo aparece em destaque.

Acima de tudo, todos esses mitos e lendas relativos ao cavalo apenas enfatizam algo que os gaúchos sabem desde sempre: que o cavalo, em sua inteligência e seu afeto pelo homem, é um valioso aliado no trabalho e na guerra. Amigo e companheiro, o cavalo é a montaria dos deuses e o transporte dos heróis, símbolo maior do gaúcho. (continua)

nico.fagundes@zerohora.com.br

Pois é um pouco de história não faz mal a ninguém. Aproveite esta última semana completa de maio, pois junho vem aí a passos largos e céleres para ocupar o espaço.


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Domingo, Maio 21, 2006



Publicado em 21 de maio de 2006 - Versão impressa
Martha Medeiros


As coisas que importam

NO MESMO DIA EM QUE O PARREIRA anunciava a lista dos convocados para a Copa, os jornais totalizavam 86 mortos nos ataques a policiais em São Paulo e 66 ônibus urbanos queimados. Como escrevo esta coluna com quase uma semana de antecedência, os números podem estar muito aquém do total atualizado, mas são assustadores igualmente.

Então Rogério Ceni vai à Alemanha ficar na reserva do gol no lugar de Marcos e o Brasil é atacado por criminosos que dão ordens de dentro das penitenciárias, por celular.

Um Brasil em busca de vitória, outro Brasil insuportavelmente derrotado. E o pior é que estamos perdendo pra gente mesmo. Eu, que sempre gostei de futebol, desta vez não estou ligando a mínima para o Mundial. Não há gol que vá me tirar esta sensação de humilhação, de vergonha e de desânimo diante da situação em que nos encontramos.

Qual é a nossa estratégia para vencer, para sermos campeões em alguma coisa que não seja no esporte? Não existe. Não há um Ronaldinho Gaúcho no Planalto. Não há um Kaká no Congresso. Não há craques que possam nos dar alguma esperança de sair deste atoleiro, desta zona do rebaixamento moral e ético.

De quatro em quatro anos, apostamos todas as nossas fichas nas palavrinhas ¿penta¿, ¿hexa¿, na ilusão de que elas nos façam sentir um pouquinho invencíveis, grandes em alguma coisa. Mas a barra anda tão pesada lá fora que não vou esperar que meia dúzia de jogos me reconciliem com o país. Melhor apostar imediatamente nas coisas que nunca nos desapontam. Nas coisas que importam.

O sol nasce no lado esquerdo do meu apartamento e entra pela janela. Minha filha mais moça leva uma foto minha dentro da mochila. Meu pai me deu um disco de Schubert que o emociona muito, sinal de que ele quer dividir sua emoção comigo.

Tenho uma foto no meu escritório em que estou abraçada a uma amiga que mora na Suíça e a saudade é boa. Água é a melhor bebida que existe. Fazer as pazes com quem a gente ama faz o coração relaxar. O mar é sempre bonito, esteja azul ou cinza, calmo ou agitado. Minha mãe ainda vive. Minha filha mais velha está apaixonada pela primeira vez.

Solidão não é ausência de nada, é só a presença intensa de nós mesmos. A dois centímetros de distância da minha boca, sei que ele vai me beijar. Hoje dormi sem nenhum sobressalto. Andar de pés descalços na areia é melhor que massagem. Sublinhei diversas passagens de um livro que me capturou sem piedade.

E um filme me mostrou que o desespero também tem sua poesia. Amanhã vou comer peixe. Ainda lembro de quando eu era pequena e tinha medo de que tudo desse errado, mas não deu. Ainda estou aqui. O amor ainda tem o poder de unir duas pessoas que não se conhecem. Eu escuto música.

O telefone me traz a voz dos amigos. O sofá da sala é confortável. Eu ando de meias pela casa. Um cálice de vinho tinto é obrigatório. Tenho muito tempo livre: todo o nosso tempo é livre. A lua fica cheia uma vez por mês. Tomo banho de sol na janela do meu quarto. Aquele mesmo sol que entra pelo lado esquerdo do meu apartamento.

Me rendo ao que parece pequeno, mas invencível. Só mesmo um pouco de ternura para neutralizar tanta violência.
martha.medeiros@oglobo.com.br


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Publicado em 21 de maio de 2006
Versão impressa - Paulo Coelho


Direita ou esquerda?

CHEGO A SANTIAGO DE COMPOSTELA, desta vez de carro, para celebrar minha peregrinação há 20 anos. Quando estava em Puente La Reina, veio a idéia de fazer tardes de autógrafos sem grandes preparações: bastava telefonar para a próxima cidade onde deveríamos dormir, pedir que colocassem um cartaz na livraria local e estaria ali na hora marcada.

Funcionou magnificamente nas pequenas aldeias, embora exigindo um pouco mais de organização em grandes cidades, como a própria Santiago de Compostela. Tive um contato inesperado com os leitores e aprendi que coisas feitas com amor podem ter o improviso como um grande aliado.

Santiago estava agora diante de mim. E, algumas dezenas de quilômetros mais adiante, o Oceano Atlântico. Mas estou decidido a seguir adiante com as tais tardes de autógrafos improvisadas, já que pretendo ficar 90 dias fora de casa.

E como não pretendo atravessar o oceano neste momento, devo ir para a direita (Santander, País Basco) ou esquerda (Guimarães, Portugal)?

Melhor deixar que o destino escolha: minha mulher e eu entramos num bar e perguntamos a um homem que está tomando um café: direita ou esquerda? Ele diz com convicção que devemos seguir à esquerda, talvez pensando que nos referíamos a partidos políticos.

Telefono para o meu editor português. Ele não pergunta que loucura é essa, não reclama de avisá-lo em cima da hora. Duas horas mais tarde me chama, diz que contatou as rádios locais de Guimarães e Fátima e em 24 horas posso estar com meus leitores naquelas cidades.
Tudo dá certo.

E em Fátima, como um sinal, recebo um presente de uma das pessoas que estão ali. Trata-se dos escritos de um monge budista, Thich Nhat Hanh, intitulado ¿The long road to joy¿ (A longa estrada para a alegria). A partir daquele momento, antes de continuar esta jornada de 90 dias pelo mundo, passo a ler todas as manhãs as sábias palavras de Nhat Hanh, que resumo a seguir:

1. Você já chegou. Portanto, sinta o prazer em cada passo e não fique preocupado com as coisas que ainda tem que superar. Não temos nada diante de nós, apenas um caminho para ser percorrido a cada momento com alegria. Quando praticamos a meditação peregrina, estamos sempre chegando, nosso lar é o momento atual, e nada mais.

2. Por causa disso, sorria sempre enquanto andar. Mesmo que tiver que forçar um pouco e se achar ridículo. Acostume-se a sorrir, e terminará alegre. Não tenha medo de mostrar seu contentamento.

3. Se pensa que paz e felicidade estão sempre adiante, jamais conseguirá atingi-las. Procure entender que ambas são suas companheiras de viagem.

4. Quando anda, está massageando e honrando a terra. Da mesma maneira, a terra está procurando ajudá-lo a equilibrar seu organismo e sua mente. Entenda esta relação e procure respeitá-la, que seus passos sejam dados com a firmeza de um leão, a elegância de um tigre, a dignidade de um imperador.

5. Preste atenção ao que acontece à sua volta. E se concentre em sua respiração, isso o ajudará a se libertar dos problemas e das ansiedades que tentam acompanhá-lo em seu caminho.

6. Ao caminhar, não é apenas você que está se movendo, mas todas as gerações passadas e futuras. No mundo chamado de ¿real¿ o tempo é uma medida, mas no verdadeiro mundo não existe nada além do momento presente. Tenha plena consciência de que tudo o que já aconteceu e tudo o que acontecerá está em cada passo.

7. Divirta-se. Faça da meditação peregrina um constante encontro consigo mesmo; jamais uma penitência em busca de recompensas. Que sempre cresçam flores e frutas nos lugares onde seus pés tocaram.

paulo@paulocoelho.com.br


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Sábado, Maio 20, 2006



Martha Medeiros
21/05/2006


Iôga ou ioga

Se eu, como a maioria das pessoas que conheço, ainda diz ioga, não é para depreciar ninguém, pelo contrário, é uma prova de humildade

Quando participo de bate-papos em escolas, sempre há quem me pergunte qual a crônica que gerou mais repercussão, se uma antiga sobre bichos de pelúcia ou sobre a das praias gaúchas.

Acabo falando sobre estas duas e sempre me esqueço de dizer que houve outra cuja repercussão foi significativa, mas que não chegou a reverberar aqui no Sul porque foi publicada apenas no Rio, em janeiro de 2005. Nela, eu falava sobre a minha espantosa dificuldade em pronunciar yôga em vez de ioga, mas que prometia tentar.

Nem sei quantos e-mails recebi, foram inúmeros. Muitos leitores torceram pelo meu empenho, defendendo que o certo era mesmo yôga, termo sânscrito do gênero masculino, e que dizer ioga, rimando com toga, era ignorância.

Outros diziam que ioga é que estava certo, que eu não fosse atrás do mestre Fulano e procurasse saber mais sobre o mestre Sicrano, e assim passaram-se dias e dias, minha caixa postal abarrotada de posicionamentos controversos e eu no meio daquele fogo cruzado, espantada por o tema merecer reações tão calorosas.

A verdade é que mais de um ano se passou e sigo não conseguindo dizer yôga. Tentei, como prometi, mas não sai de jeito nenhum. Fico com a sensação de que se eu disser yôga estarei me infiltrando num mundo que não me pertence.

Yôga é para iniciados, não para gente que se atrapalha com as pernas na hora de sentar em posição de lótus e que nem morta consegue encostar no chão com a ponta dos dedos. Yôga tem um quê de sagrado, remete à contemplação, encontro espiritual, energia cósmica, encontro do próprio eixo, todas essas coisas bonitas e superiores, e ioga se aplica mais à nossa chinelagem e desconhecimento.

Se eu, como a maioria das pessoas que conheço, ainda diz ioga, não é para depreciar ninguém, pelo contrário, é uma prova de humildade. A gente não quer parecer muito besta, só isso.

Eu não faço ioga nem yôga nem meditação e nem dormir direito eu durmo. Mas voltei ao assunto porque, outro dia, tive que pronunciar a palavra em voz alta e me dei conta de que ainda fico inibida com esta questão, preocupada por estar ofendendo mestres e discípulos, sem falar nas ofensas ao sânscrito e à língua portuguesa.

Mas resolvi assumir: vou continuar dizendo ioga, não há de ser um erro tão grave. Foi assim que aprendi, numa época em que ninguém tinha muita informação a respeito e achava que isso era coisa de gurus vegetarianos com turbantes na cabeça, uma coisa exageradamente exótica.

Hoje sabemos que é uma prática mundialmente respeitada que visa maior flexibilidade, fortalecimento muscular, aumento de vitalidade, administração do stress, controle da respiração, tudo através de técnicas corporais que exigem força e concentração, nada a ver com ficar deitado no colchonete ouvindo cítaras.

Mas falar yôga já é me pedir flexibilidade demais. Sou durinha mesmo.

martha.medeiros@zerohora.com.br


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Morte no Everest

Sozinho, Vitor Negrete realiza o sonho de atingir o cume da montanha mais alta do mundo sem oxigênio suplementar, mas não consegue comemorar a conquista

Por Andréa Estevam

Há pouco mais de uma hora soube da morte de Vitor Negrete, a 8.300 metros de altitude, no Everest, mas ainda não consegui chorar. Primeiro porque todas as lembranças que tenho dele são de momentos engraçados e felizes (ele era divertidíssimo, com um senso de humor único) e quando penso nele o sorriso me vem antes do choro.

Segundo pelo choque. A possibilidade dele perder a vida na montanha não existia para mim, mesmo sabendo que mais da metade dos alpinistas que tentam escalar o Everest sem oxigênio morrem nessa tentativa.

Desafio: o Everest e Negrete. A montanha é previsível. Quando ela mata alguém, já era esperado

Vitor Negrete era uma espécie de Super-Homem para mim e todos que o conheciam, e poucos de nós tinham dúvidas de que ele seria o primeiro brasileiro no cume do Everest sem auxílio de oxigênio suplementar.

E foi. Na terça-feira 16, ele chegou ao topo da maior montanha do mundo do jeito que achava certo: sem oxigênio suplementar e sem a ajuda de sherpas povo do Nepal que auxilia os alpinistas.

O primeiro brasileiro a fazer tal feito. Na descida, ele parou no segundo escalão e chamou pelo rádio o Dawa Sherpa, que o esperava no acampamento 3, a 8.300 metros de altitude o último acampamento antes do cume, onde Vitor havia passado algumas horas na madrugada de terça, descansando e derretendo gelo para o ataque final.

Dawa subiu ao encontro de Vitor e o localizou no segundo escalão, a 8.600 metros. Vitor estava extremamente fraco, mas Dawa conseguiu ajudá-lo a chegar ao acampamento 3. Infelizmente, ele não resistiu à exaustão extrema e faleceu às 2 horas da quarta-feira 17, dentro de uma barraca na face norte do Everest.

Ele e seu parceiro de escalada, Rodrigo Raineri, haviam escolhido a face norte por ela ser mais difícil que a sul. As dificuldades técnicas acima dos 8 mil metros, onde a falta de oxigênio é extrema, também são maiores, havia me dito Vitor antes de sua primeira ida ao Everest, em 2005.

No ano passado, ele alcançou o cume usando os cilindros de oxigênio e Rodrigo retornou a menos de 50 metros do topo. Este ano, a dupla voltou ao Everest para terminar o que havia começado. Rodrigo estava no acampamento base, a 5.200 metros, quando soube da notícia.

A aclimatação processo de adaptação à altitude a que os alpinistas se submetem, feito através de uma seqüência de subidas e descidas na montanha para que o corpo se prepare para a ausência de oxigênio dos dois havia se desencontrado e Rodrigo não estava se sentindo pronto para tentar o cume na janela de tempo que estava prevista para o dia 18, então Vitor foi sozinho. Rodrigo esperaria até dia 25, quando estava prevista outra janela.

O clima no Everest é um dos mais hostis e imprevisíveis do mundo. Ali, duas correntes climáticas colidem-se causando temperaturas de -10 a -40 graus centígrados, tempestades de neve e ventos de 200 km/h.

No verão, a monção que vem do sul prevalece; no inverno, é a vez da monção do norte. Em alguns dias da primavera (março a maio) e do outono (setembro a novembro) himalaios, as massas de ar se equilibram no que se chama janela de tempo.

Os alpinistas que querem chegar ao cume chegam ao acampamento base em abril e ficam se aclimatando na montanha à espera da janela. Depois do último contato telefônico do Vitor, quando disse que iria subir sozinho e deixaria o telefone no acampamento 3, já que a bateria estava acabando, Rodrigo mal dormiu, à espera de notícias.

Agora ele planeja subir aos 8.300 para realizar uma cerimônia pudja e enterrar o amigo. Eles formavam uma dupla perfeita: Vitor era a força, Rodrigo era a técnica. Talvez, se eles estivessem juntos, Rodrigo conseguisse convencer Vitor a subir com um sherpa, para ajudar na descida em caso de necessidade.

Talvez agora muita gente questione a decisão do Vitor de subir sozinho e não levar nem um cilindro de oxigênio para uma emergência, mas o jeito que ele resolveu subir era o seu jeito. Se fosse diferente, não seria ele: polêmico, autêntico, do contra, mas mesmo assim muito responsável e um alpinista extremamente experiente e competente.

Conheci Vitor antes de nos tornarmos parceiros de corridas de aventura, de churrascos e de risadas. Fui entrevistá-lo a respeito de uma viagem de bike que ele fez com dois amigos pela Transamazônica.

Coincidentemente, acabamos integrantes da mesma equipe de corridas de aventura e encaramos juntos grandes desafios. Sempre me senti muito segura, mesmo nas maiores roubadas, por ter ele ao meu lado.

Sempre acreditei que ele conseguiria conquistar a montanha que quisesse, pois além da força física tinha também uma incrível força psicológica e o discernimento que depara os aventureiros inconseqüentes dos bem sucedidos.

Não sei quanto tempo ele ficou lá em cima, nos 8.850 metros, mas espero que tenha sido o suficiente para ele sentir, de verdade, a importância de sua conquista para o alpinismo brasileiro. Tenho certeza de que se ele tivesse voltado, teria me dito, rindo, que nem tinha sido tão difícil assim.

E eu o chamaria de Ogro ou de Frito aliás, eu nunca o chamava de Vitor. Ogro era muito mais a sua cara. Ele morreu na montanha fazendo o que gostava.

Lamento um pouco o fato de ter sido no Everest sei que a montanha que o encantava de verdade era o Annapurna, no Himalaia, que tem apenas 8.090 metros. Sei também que a possibilidade da morte era algo que ele encarava com calma e clareza. A montanha é previsível. Quando ela mata alguém, já era esperado, ele me disse.


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Sexta-feira, Maio 19, 2006



David Coimbra
19/05/2006


Molho vermelho

Vamos deixar uma coisa bem clara: o molho branco é uma fraude. Molho tem de ser vermelho como a paixão, de bom e suculento tomate, encorpado como uma Juliana Paes.

Mas, lamentável, há poucos lugares em Porto Alegre que servem massa com autêntico e espesso molho vermelho. Os donos de restaurantes e seus maitre acham que molho branco é fino, é requintado, piriri, piriri. Blé. Molho branco, francamente.

Então foi isso que me atraiu naquele prato de espaguete - o molho vermelho que tingia a massa e nela se infiltrava, saborosamente.

Mas parecia disparatado comer espaguete àquela hora, nos albores do café da manhã. Se bem que tudo naquele lugar era estranho. Kuala Lumpur. Quem diria que um dia eu visitaria Kuala Lumpur, Malásia, longe do IAPI, longe do chope cremoso do Lilliput, longe da mãe.

Pois lá estava o degas aqui, olhando para uns pratos esquisitos que os malaios comem no café da manhã, tinha até umas gelecas pretas que talvez fossem de olho de cabra, como os que a Globo servia no programa aquele. E, bem, a massa com molho vermelho. Devia arriscar? Quer saber? Sim! Na Malásia, aja como os malaios. Ouié!

Na primeira garfada, cáspite!, foi como se tivesse colocado na boca o naco mais quente do inferno. O troço era muito, mas muito apimentado.

Os malaios adoram pimenta, mas aquela massa havia ultrapassado todos os limites da decência gastrointestinal. Passei o dia com as entranhas e a língua em chamas, amaldiçoando os cozinheiros malaios e as mães deles.

A Malásia é assim, é como se fosse planeta Mongo, tudo diferente. No entanto, no segundo dia na cidade eu já me sentia em casa. Eu e todos os jornalistas brasileiros que cobríamos a preparação do Brasil para a Copa de 2002.

Isso foi muito interessante de observar naquela Copa de tantos países - assim que chegávamos a um lugar, nossa primeira providência era estabelecer uma rotina.

Exemplo: ninguém perguntava: "Em que hotel você está?" A pergunta era: "Onde você está morando?" Ansiávamos por alguma relação sólida com o ambiente. É até paradoxal: o bom do viajar é quebrar a rotina, mas o viajante só vai se sentir seguro quando se familiarizar com o lugar, quando construir uma rotina.

Hoje vamos embarcar para outra Copa. A cada semana uma nova cidade; a cada troca, a pequena apreensão causada pela novidade. E, para combater a apreensão, só mesmo a rotina.

Primeira parada: Suíça, um país sem molhos condimentados, mas onde a rotina é o cumprimento da lei. O oposto do Brasil do PCC, no qual a população, sem ter quem a defenda, pode terminar transformando a violência em rotina. Nada mais humano. E nada pior.

david.coimbra@zerohora.com.br

Well, weeckend. Eu desejo de coração que seu fim de semana seja repleto de coisas boas. Assista ao filme polêmico do livro também polêmico: Código da Vinci. Leve o namorado/namorada, marido/mulher. Adquira aquele sacão de pipoca e se dê o direito de curtir as 2h33m do filme.


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Quinta-feira, Maio 18, 2006



18/05/2006 - 09h39

Humano e símio se acasalavam, diz DNA

RICARDO BONALUME NETO
RAFAEL GARCIA
da Folha de S.Paulo


Humanos e chimpanzés normalmente não se consideram mutuamente atraentes em termos sexuais nem seriam capazes de ter filhotes férteis. Mas nem sempre foi assim entre os ancestrais evolutivos desses dois primatas.

Uma análise detalhada do genoma das duas espécies indica que a separação definitiva entre suas linhagens ocorreu 1 milhão de anos mais tarde do que se imaginava. Além disso, os genes revelam uma longa história de cruzamentos entre hominídeos e os ancestrais dos chimpanzés.

A hipótese foi levantada para tentar compatibilizar o que se conhece do registro fóssil com os dados genéticos.

A duração do período de intercâmbio sexual entre ancestrais de humanos e de macacos promete polêmica. Os genes indicariam que as linhagens do homem e do chimpanzé se dividiram entre 6,3 milhões e 5,4 milhões de anos atrás, mas que antes disso houve troca de genes entre indivíduos híbridos por 4 milhões de anos.

O estudo está na edição de hoje da revista científica britânica "Nature", assinado por pesquisadores do grupo de Eric Lander, do Instituto Broad da Universidade Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, de Cambridge, nordeste dos EUA.

Comparando o genoma (conjunto do material genético) das espécies é possível ver quais áreas são mais antigas e se preservaram e quais foram mudando ao longo do tempo, sinal da "especiação" (desenvolvimento de novas espécies a partir de uma ancestral).

Os dados surpreenderam, pois os fósseis conhecidos --deve-se admitir que são poucos-- contam outra história. São candidatos a ancestrais de humanos (diretos ou indiretos), como os fósseis chamados Toumaï (Sahelanthropus tchadensis) e Homem do Milênio (Orrorin tugenensis), que teriam mais de 6 milhões de anos.

"É possível que Toumaï seja mais recente do que previamente imaginado", disse um dos autores do estudo, Nick Patterson, em comunicado divulgado pelo Instituto Broad.

"Mas se a datação for correta, o fóssil Toumaï precederia a separação entre homem e chimpanzé. O fato de que ele tem características humanas sugere que a especiação entre homem e chimpanzé pode ter ocorrido durante um longo período com episódios de hibridação", diz.

A observação que levou os cientistas a especularem sobre isso foi a idade recente da separação evolutiva medida a partir do cromossomo sexual X. David Pilbeam, paleoantropólogo que participou da descrição do Sahelanthropus em 2002, classificou o trabalho de Reich como "tremendamente estimulante e importante", mas fez ressalvas quanto às implicações para interpretações de alguns restos fósseis.

"Acho bastante provável que Sahelanthropus, Orrorin e Ardipithecus sejam hominídeos, com base em evidências de bipedalismo [postura ereta sobre dois pés] e morfologia dentária", disse.

Pilbeam também disse não acreditar que quadrúpedes possam ter tido descendentes férteis ao se acasalar com primatas bípedes.
"Provavelmente a diferença entre seus programas de desenvolvimento embrionário era muito grande.", disse.

O paleontólogo Dan Lieberman, também de Harvard, é mais pragmático: "Meu problema é imaginar um hominídeo e um chimpanzé olhando um para o outro como parceiros adequados --para não ser muito grosso".
Pilbeam elogiou a maneira com que os geneticistas autores do estudo apresentaram suas idéias, sem tentar desqualificar trabalhos anteriores.

"Eles não entraram nessa para arranjar briga, marcar pontos ou buscar publicidade", disse. A razão: "Eles não são paleoantropólogos nem paleoprimatólogos."

Estranho, não? Como a história é atraente e quão pouco sabemos!


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Quarta-feira, Maio 17, 2006



Tempo que foge

Pe. Ricardo Gondim

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos. Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não vou mais a workshops onde se ensina como converter milhões usando uma fórmula de poucos pontos. Não quero que me convidem para eventos de um fim-de-semana com a proposta de abalar o milênio.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos. Não gosto de assembléias ordinárias em que as organizações procuram se proteger e perpetuar através de infindáveis detalhes organizacionais.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de "confrontação", onde "tiramos fatos a limpo". Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário do coral.

Já não tenho tempo para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. Não quero ficar explicando porque gosto da Nova Versão Internacional das Escrituras, só porque há um grupo que a considera herética. Minha resposta será curta e delicada: - Gosto, e ponto final! Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos.

Já não tenho tempo para ficar explicando aos medianos se estou ou não perdendo a fé porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes; a voz da Maria Bethânia; os livros de Machado de Assis, Thomas Mann, Ernest Hemingway e José Lins do Rego.

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a "última hora"; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto delas nunca será perda de tempo.

Texto que recebi de minha Vera que está tentando colocar sua casa novamente em ordem depois de ter feito a gentileza de ceder para moradia de quem não merecia. Boa sorte amiga.


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Martha Medeiros
17/05/2006


A poesia dos desesperados

Fui assistir a A Lula e a Baleia com a recomendação de que era uma comédia dramática, mas não vi comédia nenhuma. É um bom filme que trata de um assunto nada risível: o quanto uma separação pode afetar os filhos, principalmente quando o casal está atolado em mágoas e