Nuvens Brancas |
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Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância.
O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério.
Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.
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Terça-feira, Outubro 31, 2006
O colunista em coma político - Blargh.. blargh.... - Deus... Ele está acordando... milagre!... Depois de tantos anos em coma, o colunista está acordando!... - Brarrazil... mamma... Luuuuu... luuuuu... luuuulaa...? - Quer saber do Lula... Ele está em coma desde o Grande Salto para a Frente do segundo mandato, sob pressão dos sindicalistas, empregando mais de 80 mil "cumpanheiros" na máquina pública, o chamado "aparelhamento para a liberdade"... - Lulaaa...? - Calma... respire devagar. Hoje, Lula é o curador do Museu do PT, todo em mármore vermelho, um projeto do Niemeyer. São filas imensas como diante de um Lenin vivo e o Lula, apesar da idade, está lúcido, contando as histórias da Presidência, até o dia do grande "crash", quando os sindicalistas derrubaram-no do poder, sob o comando do Sérgio Sombra, a mão direita do Celso Daniel, que foi declarado pelo STF "um suicida neoliberal, que teria se matado para incriminar o PT". - Que... craaaashhhh? - Devo contar para ele?... Bem, como sempre, nada passava no Congresso ou no Judiciário. E o Lula tinha de compensar isso com gestos populistas, discursos inflamados, bonezinhos coloridos... Lula ainda tentou acordos com a oposição, mas pefelistas e tucanos não quiseram e os bolchevistas não deixaram... Foi a época do plano "Crash para o Progresso", quando professores inativos e militantes imaginários exigiram uma radicalização "bolivariano-tiradentista" sugerida por Hugo Chávez e seu assessor José Dirceu: reestatização total, aumento de impostos e gastos, negação de qualquer reforma e extinção do agronegócio com o Stédile na Agricultura. Era finalmente o "crash" revolucionário tão desejado pela Academia! Acabou o tédio macroeconômico; Meirelles foi agarrado no Planalto e alegres sindicalistas da Jovem CUT colaram-lhe penas de galinha no corpo. Também saiu a MP autorizando a mentira aos políticos, projeto de Jaques Wagner, sem falar na vitoriosa criação do habeas corpus automático e da Rodada de Panmunjong criada pelo Itamaraty, à frente com a Venezuela, Bolívia, Irã e Coréia do Norte. Foi lindo o churrasco da Nova Era, comandado por Lorenzetti, festa animada pelo conjunto de rock Los Aloprados e pela dupla de cantores Valdebran e Gedimar... Lula começou a beber um pouco mais nessa época e a discursar por três, quatro horas, no estilo de Fidel, falando de sua infância e de como ele tinha feito o Plano Real, injustamente atribuído a FHC. Começaram boatos de que ele fazia milagres e curava por imposição das mãos... - O... arghhh... - Ele está tremendo... mas vou continuar... Nessa época aboliram a Lei de Responsabilidade Fiscal, o real passou a se chamar mil réis, foram extintas as agências reguladoras, e... grande impacto... voltou a inflação, com a crise das dívidas interna e externa! Lula chorava ao declarar: "Não pago mais porra nenhuma!" Dava para escutar o barulho dos fluxos de dólares fugindo do País. O risco Brasil bateu recordes que fizeram o PCdoB chorar de orgulho: "É isso mesmo! Somos perigosos sim, ianques!". Houve bacanais nos paraísos fiscais, comemorando a chegada dos bilhões de dólares das elites brasileiras. Aí explodiu a grande crise de desabastecimento, apelidada pelas massas, sempre brincalhonas, de Barriga Zero. Os stalinistas da Academia uivavam de felicidade, pois chegara o tão ansiado caos, fazendo os intelectuais sorrirem: Agora, sim, podemos começar do zero e acabar com a burguesia internacional!". E todos cantavam o hino que o Lula mandou compor: o "Nunca Antes, Brasileiros!" - Blargh... - Dá mais oxigênio a ele... No entanto, caro jornalista, aconteceu um estranho fenômeno: o País "sifu", houve muito "panelaço", passeatas de protesto, mas isso amainou logo pois, sem querer, o Brasil encontrou a solução perfeita para a fome: a morte! Descobrimos que a fome e a morte se auto-regulam, reduzindo a população, com o esvaziamento das periferias. A quebra da Previdência também foi uma vitória inesperada; nem precisou de reforma, pois o número de velhinhos aposentados diminuiu muito, ha, ha... Essa foi a grande surpresa: o Brasil ficou em paz, de volta ao doce pântano, à grande sopa de acochambros e corrupções que sempre foram nosso caldo de cultura. Passaram-se os meses e, na semana deliciosa em que Maluf e Clodovil se esbofetearam no plenário, disputando a presidência da Câmara, o sucessor de Lula, o presidente evangélico Garotinho, lançou o "Recua Brasil". - Garotinho?... orggh...? - Rápido, injeção de cortisona! Ele está espumando... Sossega, leão! Explico: com a queda do Lula, entrou o vice Alencar que logo estatizou a Coteminas e foi sucedido por Garotinho que, assim que subiu ao poder, lançou o "Recua Brasil!", plano que foi ótimo porque nos livrou da angústia de progresso que oprimia os brasileiros... Foi um alívio! Voltou o sossego do Atraso sem culpa. Mas, logo depois, o Garotinho foi assassinado por seu vice Edir Macedo, que assumiu e aperfeiçoou o "Recua Brasil", inspirado no suicídio coletivo daquele lider Jim Jones - lembra? Edir percorreu o Nordeste e as periferias com o programa "Morra Por Jesus". Foi um sucesso demográfico, coroado pela instalação da Alca, que nos transformou numa espécie de parque temático, um grande Porto Rico, mas com belos safáris na Amazon Authority, com ralis disputadíssimos no Piaui Desert, além dos adventure tours nos morros cariocas... Depois que se esvaiu o breve governo do vice Edir, quem chegou de volta à presidência? - Queeemmm? - O velho José Sarney, com Rosinha de vice! Sarney intacto, nos seus 92 anos, ainda de bigode preto e jaquetão nos governa hoje. - Corre, enfermeira, o pulso dele está caindo... - Blarghhh... mama... - Olha... não sofra, amigo, o Brasil está melhor assim, paralisado, mas feliz. Sempre foi assim, está tudo bem agora, pois desistimos do progresso e reencontramos nosso destino de toupeiras, de viralatas... - Pu#@+&***que o Par!! - Ihhh! Agonia com palavrão! Rápido, enfermeira, massagem no peito... rápido... Ahhh... não... deixa pra lá... não adianta... ele já era..."
Liberato Vieira da Cunha 31/10/2006 A geração naufragada A vida é um caminho rumo ao desencontro. A reflexão me ocorre ao folhear o anuário de um colégio onde estudei e vem acompanhada de outra: formamos uma geração naufragada. Não falharam os padres, muitos dos quais diplomados em Louvain, uma das melhores universidades da Europa. Não havia nada de errado com os currículos: um aluno do primeiro ano do Clássico ou do Científico era obrigado a estudar cinco línguas, além de todas as demais disciplinas humanísticas, sem falar em física, química e matemática. O ambiente era comparável ao das mais conceituadas high schools americanas: dê-lhe esportes, debates, espetáculos de teatro ou de música, conferências, grêmios literário e estudantil, ações sociais voluntárias, publicação de jornais, acampamentos, retiros espirituais, cursos de oratória, além de um museu cinco estrelas e de uma biblioteca de milhares de volumes. Mas singrávamos um largo rio, sem saber que logo adiante ele se despenharia num abismo. Coube aos que eram adolescentes no início dos anos 60 uma áspera colisão com a realidade. Dizem que as ditaduras do Chile, da Argentina e do Uruguai foram mais sanguinárias que a implantada aqui pelos auto-eleitos tutores da pátria. Ouso crer no entanto que a nossa merece a fita azul no quesito crueldade. Não morreu tanta gente, nestes tristes trópicos, quanto nas masmorras de Santiago, Buenos Aires ou Montevidéu. Houve entre nós contudo mais insídia e hipocrisia. O Congresso funcionava a intervalos, sobreviviam arremedos de partidos, celebravam-se simulacros de eleições, se você não gostava de um Brasil que era a oitava economia do planeta, tinha duas escolhas: amá-lo ou deixá-lo. Foi isso, estou convicto, o que sentenciou legiões de jovens à desesperança, à descrença, quando não à insanidade da opressão - e não estou falando por metáforas. O país agora vai mal? Vai: basta ler as notícias de Brasília. Mas um velho homem público inglês, um dos poucos a que senta o adjetivo de estadista, Winston Churchill, escreveu: "Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que é a pior forma de governo, salvo todas as demais que têm sido experimentadas de tempos em tempos". Não discordo inteiramente dele. liberato.vieira@zerohora.com.br Octuber, the last day. Halloween is today. Festeje o dia das bruxas que se comemora hoje e tenha um ótimo fim de outubro
ORIGEM DA PALAVRA HALOWEEN A palavra Halloween tem origem na religião católica. É uma contração da expressão "Ali Halliows Eve", no inglês atual, "All Hallows Eve", que significa "Véspera do Dia de Todos os Santos". O Halloween, conhecido no Brasil como Dia das Bruxas, é comemorado na noite de 31 de outubro. No aspecto religioso, essa ocasião é conhecida como a vigília da Festa de Todos os Santos, dia 1º de novembro. Estudiosos de folclore acreditam que os costumes populares do Halloween exibem traços do Festival da Colheita, realizado pelos romanos em honra à Pamona (deusa das frutas), e também do Festival Druída de Samhain (Senhor da Morte e Príncipe das Trevas). De acordo com a crença, Samhain reunia as almas dos que tinham morrido durante o ano para levá-los ao céu dos druídas, nesse exato dia. Para os druídas, Samhain era o fim do verão e o Festival dos Mortos. O dia 31 de outubro marca também o término do ano céltico. Segunda-feira, Outubro 30, 2006
Ereções! Hoje eu estouro a pipoca! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País do Pleito Caído! É HOJE! Hoje eu vou estourar a pipoca. Porque aquela urna parece um microondas. Você aperta a tecla 'Descongelar' ou 'Pipoca' e a urna apita. A urna é boa pra estourar pipoca! E eu quero votar pelo telefone que nem no Big Brother. Tem que ter um 0800! Eu quero votar embriagado. Prefiro a ressaca que o remorso! E é tanto escândalo que o Lula não será reeleito, será RÉU-ELEITO! Aliás, ele não será reeleito, será repetente! E quem mais perde com a reeleição do Lula? A GILETTE! É tudo barbudo! E o Lula acordou com uma grande dúvida: como é que ele vai passar a faixa pra ele mesmo? Rarará! E o Geraldo? Coitado do Gelaldo! Eu já sei o que o Geraldo pode fazer: abrir um brechó com as roupas da Daslu! Rarará! E diz que o Lula vai mudar a bandeira do Brasil. Em vez de 'Ordem e Progresso' vai mandar escrever 'EU NÃO SABIA'! Só que todo mundo já sabe que ele não sabe! E uma vizinha minha disse: 'Não sei como o Lula vai ganhar, eu não conheço ninguém que vai votar no Lula'. É claro, ela só vai do shopping Iguatemi pra piscina do Clube Pinheiros. O Geraldo ganha estourado na piscina do Clube Pinheiros! E a nova definição do Lula: Geni com Teflon. Pode jogar pedra na Geni, pode jogar bosta na Geni, nada pega! E o Gelaldo Picolé de Chuchu pode perder, mas conquistou uma grande proeza: divulgou o chuchu para o resto do mundo. 'Le Monde': sorbet de chuchu. Der Spiegel': kandidat de chuchu. TVE da Espanha: helado del chuchu. E deu no 'New York Times': chuchu popsicle. Só não deu no Brasil. Porque quem gosta de chuchu é a elite; o povo gosta de filé mignon! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é duro, mas desce! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha vulcânica campanha 'Morte ao Tucanês'. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que no Recife tem um bairro chamado Fundão de Fora. Parece Dias Gomes. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção. Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante... O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. Chega de pleito! Queremos blunda! Da Rita Cadillac! simao@uol.com.br
Canela de sogra não é sagrada Então fiz o que qualquer zagueiro faria numa situação dessas: dei-lhe um chute.O chute da minha vida Casos "pitorescos" ajudam a lotar o Supremo. Em março de 2004, a primeira turma do STF discutiu o caso de um homem acusado de dar uma canelada na sogra. A denúncia, feita pela sogra, relata que, "no interior da residência da vítima, o acusado desferiu um chute que atingiu sua perna direita". Condenado a três meses de reclusão, recorreu ao Supremo. Cotidiano, 22 de outubro "MERITÍSSIMOS JUÍZES , como podem Vossas Excelências perceber, resolvi eu próprio fazer a minha defesa. Estou convencido, meritíssimos, de que nenhum advogado, por melhor que seja, poderia fazê-lo. Para isto, é preciso transmitir a indignação que de mim se apossou ao ser condenado em primeira instância. Um veredicto, meritíssimos, que revela insensibilidade e uma profunda incompreensão da situação que eu, como genro, vivia. Devo dizer, em primeiro lugar, que amo profundamente minha esposa. Ela é, não tenho dúvida, a mulher da minha vida, e estes anos de casados foram muito felizes. Só não atingimos a felicidade completa por causa de uma única pessoa: a minha sogra. Minha sogra me odeia, meritíssimos. Sim, eu sei que é proverbial a inimizade entre sogras e noras, entre sogras e genros: muitas anedotas refletem esta realidade. Mas, no caso dessa senhora que, infelizmente, se tornou minha sogra, era muito pior. Ela não perdia ocasião para me hostilizar. E arranjou para isso um excelente pretexto. É que, meritíssimos, infelizmente nunca consegui ganhar a vida. Não terminei os estudos, não tenho profissão; arranjava um bico aqui, outro ali, mas nada que desse certo. Porque minha vocação era, e é, outra, meritíssimos. Minha vocação era, e é, o futebol. Sou um grande zagueiro, meritíssimos. Modéstia à parte, eu poderia jogar num grande time internacional ou mesmo estrangeiro. Ninguém me bate em impetuosidade, em valentia. E só estou feliz quando adentro o gramado. Pois foi justamente este o mote que minha sogra arranjou para implicar comigo. Você é um vagabundo, ela dizia, tudo o que você sabe é ficar jogando bola enquanto minha filha trabalha para sustentar você. No dia do incidente estávamos na casa dela. Tínhamos terminado de jantar e estávamos conversando animadamente, quando de repente ela começou com a ladainha de sempre: você é um vagabundo, tudo o que você sabe é ficar jogando bola. E aí, meritíssimos, eu fiquei transtornado. Tão transtornado que comecei a imaginar uma cena: eu, num campo de futebol inteiramente vazio. Na minha frente, de calção e chuteiras, quem, senão aquela megera da minha sogra? E ali vinha ela, voando pra cima de mim, louca de vontade de me acertar, de me derrubar, de me pisotear. Então fiz o que qualquer zagueiro faria numa situação dessas: dei-lhe um chute na canela. Um chute glorioso, meritíssimos. O chute da minha vida. A mulher soltou um grito espantoso e saiu correndo. E daí por diante foi um desastre atrás do outro: a briga com minha mulher, a censura dos parentes e a condenação. Mas acreditem, meritíssimos: se aquela canela aparecesse de novo na minha frente, eu não teria dúvidas em chutá-la quantas vezes fosse necessário. Porque sogra pode ser sagrada, meritíssimos, mas canela de sogra não o é. E é ali que ela aprende a respeitar um pobre genro." MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha Uma ótima segunda e uma excelente semana a todos nós. Domingo, Outubro 29, 2006
Travessuras ONOVO LIVRO DE MARIO VARGAS Llosa é uma história de amor que dura uma vida inteira. Tudo começa no verão de 1950, no Peru, quando Ricardo, um rapazote de 15 anos que sonhava em morar em Paris, conhece Lily, uma adolescente com uma personalidade mais do que marcante. Ele se apaixona feito um bezerro, como ele mesmo define. O livro conta a trajetória deste amor ora feliz e quase sempre infeliz. Lily some do Peru sem deixar rastros, Ricardo vai morar em Paris e só a reencontra anos depois. Ela some de novo e, passado um tempo, ele a reencontra em Londres. Ela desaparece outra vez e ele mais tarde a descobre em Tóquio, onde ela apronta todas e evapora, claro. E ainda mais uma vez se cruzam em Madri, ambos já cinquentões. Lily, esta mulher misteriosa que vai trocando de nome e de marido a cada aparição, é uma peste. Tem uma índole suspeita, hábitos condenáveis e é fria como uma manhã de inverno em São Joaquim. Nem muito bonita é. Faz de Ricardo gato e sapato. Ele resiste? Nem tenta, pois sabe que não há como. O amor verdadeiro tem dessas coisas: não se explica, não se controla, não se racionaliza, simplesmente toma conta. É uma droga, um vício, uma viagem entre o céu e o inferno, ida e volta, várias vezes, sem parar. Vargas Llosa escreveu um livro encantador sob vários aspectos, não só pela original seqüência de encontros e desencontros deste casal improvável, mas também por retratar períodos significativos das principais cidades do mundo. E por escrever com mão de pluma, tratando com leveza a angústia humana e com isso dando ao livro um tom novo, sem o dramalhão que costumam caracterizar as histórias de amor não res o l v i d a s . Outra coisa que me chamou a atenção foi o título, Travessuras da Menina Má. Menina Má é como Ricardo chamava carinhosamente a jararaca, mas o uso do termo travessuras é curioso. A mulher que ele ama não é travessa, caramba. É uma bisca. Mentirosa, falsa, sem escrúpulos e fascinante, óbvio. Ricardo sabe que ela está a milhões de léguas da decência, mas seu amor impede que a julgue com a severidade dos adultos. Prefere resumir as sacanagens da amada como pequenas travessuras infantis. Só assim poderá perdoá-la a cada reencontro. Travessuras. Quantas mulheres consideram assim as artimanhas dos maridos, quantos pais encaram como travessuras as mentiras e furtos dos filhos, quantos de nós evitam o confronto com a verdade e, em vez de dar o nome certo às coisas, chamam erros graves de travessuras para poder perdoar? Aliás, neste domingo, é muito possível que tenhamos mais um exemplo disso: o eleitorado brasileiro confirmará como apenas uma travessura o que vem acontecendo nos bastidores do governo. Enxergar a verdade, quando se está apaixonado, nunca foi bom negócio, quem não sabe? Pois parece que anda servindo para a política também. Num caso ou no outro, só resta seguir em frente e torcer para que nossa condescendência seja recompensada. Sábado, Outubro 28, 2006
Thoreau contra o lulismo "Lula pode ser o seu presidente. Meu ele não é. Meu senso de moralidade é superior ao dele. Lula é o chefe de uma junta de golpistas. Ele que fique com seus doleiros, com seus laranjas, com seus lobistas, com seus assessores, com seus jornalistas, com seus mensaleiros, com seus filhos, com seus gorilas, com seus bicheiros" O Brasil é ruim. Irá piorar. Eu sempre acreditei nisso. Acredito cada vez mais. O Brasil já era ruim antes de Lula. Com ele ficou ainda pior. Ninguém conseguiu evidenciar nossa ruindade com tanta clareza quanto ele. E ninguém deu tanta garantia de que tudo iria piorar. O homem certo para este momento é Henry David Thoreau. Leia Thoreau. Releia Thoreau. Declame Thoreau em voz alta. É o melhor remédio para todos aqueles que foram atropelados pelo lulismo triunfante. Thoreau era um abolicionista americano. Ele rejeitava a escravidão embora a maioria dos eleitores de seu tempo a apoiasse. Em seu principal ensaio, Sobre o Dever da Desobediência Civil, ele argumentou que há algo superior à vontade da maioria: é a moral de cada um. "Minha única obrigação é fazer em todos os momentos o que considero certo." Mas recomendo Thoreau por outro motivo. Um motivo menor. Um motivo mais mesquinho. Recomendo-o apenas porque ele permite insultar pesadamente o eleitor mantendo uma certa pompa, um certo brilho. Thoreau disse: o eleitor é um cavalo. Ele disse também: o eleitor é um cachorro. Eu repito, citando Thoreau: o eleitor é um cavalo, o eleitor é um cachorro, o eleitor é um cavalo, o eleitor é um cachorro, o eleitor é um cavalo, o eleitor é um cachorro. Insulte o eleitor. Sem perder a pompa, sem perder o brilho. Thoreau: Cavalo. Cachorro. Thoreau defendeu o direito de repudiar a autoridade do governo. Eu sou o Thoreau dos pobres. O Thoreau bananeiro. Repudio a autoridade de Lula. Lula pode ser o seu presidente. Meu ele não é. Meu senso de moralidade é superior ao dele. Lula é o chefe de uma junta de golpistas. Referendá-lo significa referendar o golpismo. Cassei sua candidatura um ano e meio atrás. Unilateralmente. Ele que fique com seus doleiros, com seus laranjas, com seus lobistas, com seus assessores, com seus jornalistas, com seus mensaleiros, com seus filhos, com seus gorilas, com seus bicheiros. A forma que Thoreau encontrou para repudiar a autoridade do governo foi simples e direta: recusou-se a pagar impostos por seis anos. Chegou a ser preso por causa disso. Só foi solto porque uma tia saldou seus débitos. A revolta fiscal é o melhor meio de protesto que há. Muito melhor do que passeata. Muito melhor do que comício. Quem gosta de muita gente aglomerada é lulista. Prefiro me reunir com meu contador em seu escritório mofado, arrumando maneiras mais eficientes para burlar o Fisco. Falta somente uma tia rica para me tirar da cadeia. O lulismo precisa de dinheiro para funcionar. Dinheiro limpo e dinheiro sujo. Meu terceiro turno será combater a CPMF. Eu sei que é um combate pouco heróico. Mas alguém realmente esperaria gestos heróicos de mim? Abolindo a CPMF, sobrará menos dinheiro para financiar o golpismo lulista. E para comprar os eleitores. Thoreau: Cavalo. Cachorro Sexta-feira, Outubro 27, 2006
Ico Thomaz 27/10/2006 Eu sou normal Podemos ter idéia de como é uma pessoa, podemos conhecê-la muito bem, até podemos dizer exatamente como vai agir, mas só quem conhece verdadeiramente algum ser é ele mesmo. Temos como ver se a pessoa é do bem ou do mal, temos como ver se ela está triste ou feliz, temos como saber se podemos contar com ela ou não. Mas, lá no fundo, somente ela, entre as quatro paredes do seu quarto, sabe quem está ali. Às vezes, os mais santinhos são os piores, e os piores são os mais santinhos. Às vezes, pessoas que achamos especiais nos decepcionam com atos que parecem não condizer com sua personalidade, mas, lá no fundo, têm a ver com elas sim. São mistérios que nunca vamos descobrir, coisas que confundem nossa cabeça, algo do tipo: por que "tudo junto" se escreve separado e "separado" se escreve tudo junto? Bom, mas isso é o mais simples, até tem explicação, mas o ser humano não. Muitos médicos e cientistas já tentaram estudar o cérebro de seres humanos famosos e libados em todos os sentidos, mas isso sempre será um mistério, não se descobre tantas coisas assim. Claro que grandes avanços foram feitos, mas é tudo muito complexo. Se fôssemos estudar somente o ouvido humano, levaríamos quase uma vida inteira. O negócio não é tão simples assim, ainda mais quando envolve personalidade, caráter e distúrbios emocionais. Falando em estudar cérebro, tenho uma ótima dica para quem curte assistir a produções de TV do mundo inteiro, e o melhor, tudo de graça. Trata-se do International Public Television (Input), que vai até domingo na sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. Assisti na semana passada ao documentário canadense A Pós-Vida do Cérebro de Einstein. A história é sensacional e conta a jornada percorrida pelo cérebro do genial cientista através dos EUA, já que logo após sua morte, em 1955, o cérebro foi removido na esperança de ajudar na procura da origem da inteligência. Os filmes são superinteressantes. E hoje já tem sessão, às 16h30min, confere lá. Mas entender exatamente alguma pessoa é algo realmente impossível, se pararmos para pensar não entendemos direito nem nós mesmos, somos quem tem o maior número de informações e experiências sobre nosso corpo. Mente é diferente, mas, mesmo assim, ninguém nos conhece como a gente. Quando você achar que já viu tudo nesta vida, recicle seus pensamentos. Você não viu nada. Logo, logo podemos nos surpreender com pessoas bem próximas da gente, só esperamos que seja pelo lado positivo. Mas de uma coisa você pode ter certeza: de perto ninguém é normal. Ai, que medo. ico.thomaz@rbstv.com.br Pois é e dentro desta complexidade hoje votaremos para o nosso CGP (Conselho de Gestão Participativa). Ontem aconteceu a apresentação dos candidatos. Desejo sorte ao meu amigo Moises, a minha amiga Martina e a aminha amiga Rachel e que voces possam fazer uma excelente gestão junto aos demais. Uma excelente sexta-feira a todos nós Quinta-feira, Outubro 26, 2006
Sempre quis um amor que vivesse a felicidade sem reclamar dela ou disso. Sempre quis um amor não omisso e que suas estórias me contasse. Ah, eu sempre quis um amor que amasse. Elisa Lucinda
Nilson Souza 26/10/2006 La suerte Vi, dia desses, uma cigana na parada do ônibus e cheguei a pensar que era uma miragem do passado. As ciganas desapareceram da paisagem porto-alegrense. Na minha infância, elas andavam em bandos pelas ruas do bairro onde eu morava, vestiam saias e lenços coloridos, penduravam badulaques brilhantes nos pulsos e interpelavam os passantes, oferecendo-lhes tachos de cobre e presságios. - Quer tirar la suerte - perguntou-me certa vez uma moreninha magra de profundos olhos negros, adiantando-se para tomar-me a mão com assustadora desenvoltura. Recusei, por instinto e desconfiança. Quando menino, gostava de espionar os acampamentos que aquela gente estranha instalava nos terrenos baldios da Zona Norte. Aproximava-me por ousada curiosidade, pois os adultos da minha tribo costumavam advertir: - Cuidado, eles roubam crianças! Uma vez, atraídos pela música tocada em instrumentos que desconhecíamos, eu e dois amigos de molecagem fomos parar no meio das barracas de lona. Era uma festa. Havia grande quantidade de alimentos espalhados sobre uma toalha, no chão. Um velho barbudo recebeu-nos com um sorriso de ouro e nos ofereceu comida. Hesitamos, mas aceitamos. Lembro que cheguei a comer uma metade de laranja, só para ter alguma vantagem para contar no final da aventura. E saí de lá convencido de que aquela história de roubar criança não passava de terrorismo emocional contra aquela pobre gente. Nunca mais cruzei com ciganos até a tarde em que a jovem vidente me interpelou na Redenção. Então, já era mais do que adolescente. Mas não permiti que ela me lesse a mão. Quando ela se deu conta de que não adiantaria insistir, passou a me xingar com tanta fúria que tive vontade de devolver aquela metade de laranja e romper o acordo de paz firmado informalmente na visita ao acampamento. Mas passou. Não fiquei sabendo com antecedência qual seria o meu destino - e acho que isso não mudou nada na minha vida. Já os ciganos não tiveram a mesma sorte: perderam os seus espaços nesta cidade de asfalto e grades. Por isso me causou surpresa aquela aparição no ponto do ônibus. Confesso até que senti uma certa vontade de me aproximar da cigana solitária para oferecer-lhe a mão, não para que ela a lesse, mas sim como solidariedade pelas perdas da vida. Só não o fiz com medo de ser xingado novamente. nilson.souza@zerohora.com.br Uma ótima quinta-feira a todos nós com calor e chuva ao mesmo tempo, mas que pela previsão, deverá arrefescer ao fim da tarde. Quarta-feira, Outubro 25, 2006
Lula, o intocável Dia 29, Lula deverá ser reeleito. Favas contadas. Papo firme, sem bronca, na boa. Lula está reeleito, apesar de estar no centro de escândalos da pesada. Como se explica isso? Como explicar sua invulnerabilidade sob todos os ataques, provas, tudo? Há um conjunto de motivos que vão resultar na vitória deste movimento na contramão das conquistas da democracia dos últimos 20 anos, um regresso em nome do "progresso". Eis algumas razões: "Lula" é um nome doce, carinhoso, familiar. Lula é fácil de entender, fácil de dizer. Na mitologia política brasileira, Lula continua o símbolo do "povo" que chegou ao poder. A origem quase "cristã" desse mito de operário ignorante lhe dá uma aura sagrada intocável. Poucos têm coragem de desmentir esse dogma, como a virgindade de Nossa Senhora. Assim é o fenômeno da Fé. Quanto mais denunciam o Lula, mais ele cresce, quanto mais inacreditável o fato, mais valorizada a Fé. Alckmin está no oposto do mito. Sua imagem é lisa, gelada. Lula não precisa dizer a verdade; basta parecer. Pode mentir quanto quiser, que o que diz soa verdadeiro. É a "mentira revolucionária". Alckmin pode dizer a verdade que a maioria nem acredita. Mesmo quem sabe dos delitos que Lula presidiu, vota nele, "mesmo assim". Há também o voto "segunda chance" - a compulsão à repetição freudiana do erro, na esperança de um acerto. Grande intelectuais declaram que vão votar assim. Alckmin é um herege da religião da esquerda, enquanto Lula está "acima" da política, acima de nós, intocável. Os eleitores não votam em plataformas; votam em pessoas. O velho personalismo salvacionista continua vigente. E para muitos intelectuais e pessoas mais cultas, o conceito antigo de "revolução" continua presente, como um tumor inoperável. No duro, grande parte da Academia acha que a "vereda luminosa" é Morales ou Chávez. No Brasil, a palavra "esquerda" continua o ópio dos intelectuais. Pressupõe uma "substância" que ninguém mais sabe qual é, mas que "fortalece", enobrece qualquer discurso. O termo é esquivo, encobre erros pavorosos e até justifica massacres. Uma esquerda moderna é vista como "desvio" ou traição. A agenda do PSDB e de Alckmin é incompreensível para a maioria das pessoas, mesmo engravatadas. A complexidade de usar um "choque de capitalismo" para enxugar o Estado, fazer reformas básicas na administração, nada disso empolga o leigo. As palavras de ordem do PT são curtas e grossas, mais fáceis de entender: "fome, rico e pobre, elites..." O País tem um movimento "regressista" natural, uma vocação reacionária além dos homens e dos discursos, automática, quase física. O verdadeiro Brasil é boçal, salvacionista. FHC foi um parêntesis acidental de racionalidade, assim como Clinton foi o último democrata numa América fundamentalista. FHC subestimou a força da burrice e da Fé. O erro de comunicação dos tucanos começou no governo FHC. Foi seu maior equívoco. Jamais explicaram para a opinião pública a agenda de mudanças, os novos conceitos políticos de uma modernização. Tinha que ter sido uma cartilha de reeducação. Nada fizeram e, hoje, os tucanos não conseguem defender nem o Plano Real; nem eles acreditam em si. O povo só entendeu o Plano Real e olhe lá. O resto nunca foi explicado, a ponto de termos de ouvir que Lula fez a estabilização da moeda e que as essenciais privatizações foram ataques ao "patrimônio" da Nação, apesar do imenso sucesso da telefonia ou da Vale. O PSDB tem meia dúzia de gatos ou tucanos pingados: FHC, Tasso, Serra, Arthur Virgílio, Aécio, Goldman e poucos mais, defendendo complexas ambivalências. Por outro lado, o PT tem milhares de militantes defendendo seus empregos. Como disse Sérgio Buarque de Holanda: "A democracia ainda é um mal-entendido no País". No fundo, preferimos uma boa promessa de voluntarismo e populismo, na base do "pau no burro" ou "bota para quebrar". No fundo, democracia é vista como veadagem, perda de tempo. Estamos prontos para ditadores e demagogos; para administradores e reformadores racionais, não. Outra razão da vitória foi a bonança econômico-financeira do mundo atual. Se Lula tivesse pegado as cinco crises da pesada do FHC, estaríamos batendo panelas na rua. Sorte dele e nossa... Outro motivo: nenhum partido tem uma categoria chamada "companheiros" (ou "cumpanheiros"). Acima de erros, crimes, mentiras, existe um talismã secreto que todos carregam no peito ou no bolso: uma verdade maior, uma outra ética acima da nossa, uma "superioridade" que os absolve e justifica. Os "cumpanheiros" trabalham sincronizados no País todo, como um formigueiro. O sujeito pode até bater na mãe que continua "companheiro". Só deixa de sê-lo se criticar o partido, como o Paulo Venceslau que ousou denunciar roubos das prefeituras. Como querer que tucanos dispersos vençam uma matilha de "cumpanheiros"? É claro que a vitória se deve tambem à genialidade maquiavélica do Lula, qualidade subestimada pelos tucanos. Lula deu um banho de competência neles todos. Competentíssima também a tática do governo de negar as verdades e provas pela criação de um labirinto de "falsas verdades", formando uma rede de desmentidos, protelações e enigmas que vão desqualificando as investigações. Grande parte de seus eleitores não sabe nem o que é dossiê - pensam que é um tipo de doce, como apontou José de Souza Martins, no Estadão. Conseguiram também "fulanizar" a ampla estratégia da "corrupção revolucionária", transformando um plano de bolchevistas tardios em "meia dúzia de cumpanheiros que cometeram erros". As pessoas sem formação crítica acreditam, pois acham que "sempre foi assim"... Assim, elegeram Jânio, Collor e agora vamos continuar com Lula, o mascote de nossa utopia personalista e ibérica. Que Deus lhe dê a luz de, ao menos, não detonar a economia, senão, voltaremos a 1963, com a historiazinha do Brasil se "repetindo como farsa".
Martha Medeiros 25/10/2006 O pitbull e o pastor Todos os dias dou minha caminhada pela manhã. Todos os dias passo em frente a uma casa onde tem um pitbull circulando pelo pátio. Todos os dias esqueço da existência dessa criatura e, ao passar distraída pela calçada, sou recepcionada por um latido ameaçador e o rosto mais endemoniado que um bicho pode colocar entre duas grades. Todos os dias morro um pouco do coração e penso: qualquer hora eu mato este infeliz. Não vou matar. Não mato nem barata. Mas um policial gaúcho matou o pitbull da sua vizinha dia desses e deu a maior confusão. Aliás, semana passada um pitbull atacou uma menina de três anos em Belo Horizonte e arrancou metade do couro cabeludo da coitadinha, e era o pitbull da vó dela, gente de casa. Não vou aqui propor uma campanha de extermínio, mas nessas horas eu me pergunto qual é o prazer de se ter justo um pitbull? Geralmente as pessoas têm cachorro por duas razões: pra ter companhia ou para ter segurança. Segurança? Não lembro de ter lido uma única notícia dizendo: "Pitbull ataca assaltantes e evita roubo". Nunca. Não sei o que acontece com esta raça, mas eles têm predileção por atacar pessoas inocentes - se for criança, tanto melhor. Pessoas da família, então, eles adoram. Que bicho mais sem critério. Eu sou do tempo em que o sonho da garotada era ter um pastor alemão. Um animal clássico, nobre, porém simpático, afável. Um cão sensato: nem feroz, nem inútil. O pastor alemão era um cachorro em que se podia confiar, um cachorro que impunha respeito. Elegante, bonito, dava orgulho à família, que não precisava se explicar para os vizinhos sobre aquela fera dentro de casa, pois nada tinha de fera. Mas tampouco era um bibelô. Era um cachorro, digamos assim, com caráter. Para meu desapontamento, o pastor alemão saiu de moda. Agora as pessoas têm cachorros feiosos e assassinos. Eu sei, eu sei que a maioria deles nunca fez mal a ninguém, que são animais dóceis e tudo mais, mas isso também não entendo: qual a razão de se ter um pitbull dócil? Antes um poodle. Quem tem um pitbull vai defendê-lo, lógico. Ama seu cão, não vai se separar dele. Está certo. Mas quem não tem um cachorro e pretende ter, evite problemas. Antes o nostálgico pastor alemão do que essas caricaturas de belzebu que precisam andar com focinheira. Vi um pastor no parque outro dia e me deu, juro, saudade da infância. Estava ali um animal de estimação gentil e companheiro, um cão imponente, porém amistoso. E que apesar de ter o apelido de "policial", não costuma freqüentar a seção de crimes dos jornais. martha.medeiros@zerohora.com.br Tenhamos todos uma excelente quarta-feira. Terça-feira, Outubro 24, 2006
Buemba! O Chuchu foi pro sacolão! E o Schumacher se aposentou mais rápido que o Rubinho. Até pra isso ele chega na frente! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País do Pleito Caído! Piada pronta: sabe onde vive o padre envolvido no escândalo de pedofilia com o deputado americano? Em Malta, na ILHA DO GOZO! Pedofilia recompensada! Continua a sacanagem. E aí perguntaram pro Michael Jackson: "o que você quer ser quando crescer?" "Padre!" Rarará! E o Amarildo mostra a diferença entre o Massa e o Rubinho: é que o Felipe Massa é o The Winner e o Rubinho é o The Rotado! E o Schumacher se aposentou mais rápido que o Rubinho. Até pra se aposentar ele chega na frente. E o Rubinho se aposenta quando? Vai pra fila do INSS, chega atrasado e pega a senha 9.489! Rarará! E um amigo definiu assim o Salão do Automóvel: "um lugar que mostra os carros que poderei comprar e as mulheres que poderei comer. DAQUI A 20 ANOS!". Rarará! Ereções 2006! E, se o Lulalelé for réu-eleito, ops reeleito, vai mudar a bandeira do Brasil. Em vez de "ordem e progresso", vai escrever "EU NÃO SABIA!" E o Geraldo Picolé de Chuchu? Sabe o que ele pode fazer? Abrir um brechó com os vestidos da Daslu. Rarará. Aliás, diz que ele tem EM VESTIDO muito. E o Geraldo pode até perder, mas uma proeza ele conquistou: divulgou o chuchu para o resto do mundo. "Le Monde": "sorbet de chuchu". "Der Spiegel": "kandidat de chuchu". "El País": "helado de chuchu". E tem um sacolão em Belo Horizonte com a placa: Geraldo Alckmin, R$ 0,49 kg. É verdade. O Geraldo não foi pro saco. Foi pro sacolão! E se você for à Mostra e não entender nada daquele filme iraniano dublado em árabe com legenda em curdo, diga que a fotografia é maravilhosa! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é duro, mas desce! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha vulcânica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que tem uma placa no estacionamento em Fortaleza: "Reservado para deficientes físicos, mas ocupado por deficiente mental". Rarará. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção. Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Pedante": companheiro que solta pum no debate. Rarará. O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! Chega de pleito! Queremos blunda! simao@uol.com.br Segunda-feira, Outubro 23, 2006
A MULHER É MESTRA DO HOMEM A mulher que sabe amar é mestra do homem. Jamais governanta. A mulher que sabe amar não irrompe nem interrompe. Surge, suave. A mulher que sabe amar conhece a sua superioridade e os limites desta. A mulher que sabe amar sabe ser mãe e ser um furor na cama. A mulher que sabe amar jamais se deixa subjugar. Nem subjuga. A mulher que sabe amar sabe que não basta ter razão. Precisa saber ter razão. A mulher que sabe amar é o ser mais elevado que há na terra. A mulher que sabe amar cala quando sabe não ser compreendida e fala na hora certa. A mulher que sabe amar jamais diz: eu bem que avisei que não ia dar certo. A mulher que sabe amar compreende os filhos e sem pretender ensina amor ao marido. A mulher que sabe amar por ser superior não se preocupa em mandar: predomina. A mulher que sabe amar não obedece cegamente: ou compartilha ou arrefece. A mulher que sabe amar sabe tanto de moda quanto de arte, quanto de dengo. A mulher que sabe amar educa sem reprimir e orienta sem impor. A mulher que sabe amar fala baixo, não usa perfumes exagerados e ama a alma. A mulher que sabe amar conversa com Deus e partilha com a família, A mulher que sabe amar sente sua máxima realização quando amamenta. A mulher que sabe amar tem orgasmo e é abençoada pela bondade. A mulher que sabe amar não faz alarde de sua superioridade sexual sobre o homem. A mulher que sabe amar é a responsável pela sobrevivência da espécie humana. A mulher que sabe amar se o homem trair não perdoa, compreende. Mas separa. A mulher que sabe amar jamais ouvirá de seu marido a frase: Eu não tenho opiniões: tenho esposa....
Não roubarás Tinha certeza de que,se entrasse numa igreja para roubar, mais cedo ou mais tarde seria castigado Boa parte dos fiéis que freqüentam as igrejas do centro de São Paulo já sabe: nem durante uma missa pode-se bobear. Na hora de comungar, a bolsa precisa ir junto. Ao dar uma oferenda, não se deve abrir a carteira na frente de todo mundo. Celulares e relógios não podem ser ostentados. São comuns casos de fiéis que são roubados durante as celebrações. Maria Emília Souza, 48, não desgruda dos seus pertences. "Graças a Deus nunca fui roubada, mas já vi ladrõezinhos furtando carteiras e celulares sem os donos nem perceberem", diz. "A gente não tem sossego nem para falar com Deus." "Falta juízo aos ladrões", afirma padre Pascoali Priolo, da igreja São Januário, na Mooca (zona leste). A igreja de Priolo já foi furtada duas vezes neste ano. Em março, os ladrões levaram cálices, depredaram o sacrário e roubaram até o pára-raios. "Como era de cobre, levaram para vender ao ferro-velho." Na semana passada, a igreja da Consolação, no centro, foi mais uma que teve os fios de seu pára-raios furtados. Cotidiano, 16 de outubro Verdade seja dita, ele hesitou muito. Porque, apesar de já ter assaltado gente em bares, em restaurantes, nas ruas, em carros, nunca o fizera numa igreja. Um amigo, que em outra época fora seu cúmplice, tentava inutilmente convencê-lo: é mole, cara, o pessoal que vai a igreja não reage, não é de briga, não precisa nem usar arma. A ele, aquilo parecia um sacrilégio, uma tentação. Não era religioso, mas acreditava em Deus e na justiça divina. Tinha certeza de que, se entrasse numa igreja para roubar, mais cedo ou mais tarde seria castigado. Mas então teve um sonho, um sonho que foi decisivo. Sonhou que estava num lugar distante, desolado, perdido entre dunas de areia: um deserto. Sem saber o que fazer, olhava ao redor, desorientado, quando de repente avistou um homem. Uma figura exótica, sinistra mesmo: vestia uma espécie de fraque, usava cavanhaque e exibia um sorriso malicioso. Você está indeciso, disse o estranho, você não sabe se assalta uma igreja ou não, mas você está só perdendo tempo: é a coisa mais fácil do mundo. Acordou resolvido: naquele mesmo dia faria o assalto. E, para a estréia, escolheu uma pequena e modesta igreja de bairro. O que se revelou uma verdadeira decepção. Quando lá chegou, estava começando a chover e, talvez por causa disso, o lugar estava deserto. Nenhum fiel ali, nem homem, nem mulher, ninguém para ser assaltado. E na igreja propriamente dita, nada que aparentemente valesse a pena carregar; apenas algumas modestas imagens de santos. Foi até o ofertório, sacudiu-o: nada, estava vazio. Uma violenta trovoada fez estremecer o templo, o que lhe deu uma idéia: o pára-raios. Sempre podia render alguma coisa, afinal era de cobre, e ele conhecia um ferro-velho que pagaria uma boa grana. Sem muito esforço, retirou o pára-raios, uma haste com o seu fio, e foi embora sob o temporal. Ao atravessar o descampado, aconteceu aquilo que sempre pode ocorrer com quem carrega pára-raios: foi atingido por uma descarga elétrica fulminante. A última coisa que viu foi o homem que aparecera em seu sonho, mostrando os caninos num sorriso irônico. E estava bem abrigado da chuva. Porque, em ocasiões de temporal, o diabo não veste Prada. O diabo veste uma elegante capa preta. Ótima para quem tem de seguir pecadores sob a tormenta. MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha Domingo, Outubro 22, 2006
Qualquer um ARECLAMAÇÃO É ANTIGA, MAS continua vigente: mulheres se queixam de que não há homem no mercado. Acabo de receber um e-mail de uma delas, contando que faz parte de um grupo de mulheres na faixa dos 35 anos que são independentes, moram sozinhas, trabalham, falam idiomas, são vaidosas, têm cultura, fazem ginástica e que, mesmo com tantos atributos, seguem solteiras, e temem não haver tempo para formar a própria família. No finalzinho da mensagem, descubro uma pista para a solução do problema: Apesar de o relógio biológico estar nos pressionando, não queremos procriar com qualquer um. Queremos um cara bacana para ir ao cinema, almoçar no domingo, viajar nos finais de semana. Claro. Quem não quer? Não há problema nenhum em ser exigente, em querer uma pessoa que seja especial. O que me deixa intrigada é que há mais probabilidade de você encontrar qualquer um do que um deus grego com um crachá escrito Príncipe Encantado. Então me pergunto: as mulheres estarão dando chance para que este qualquer um demostre que está longe de ser um qualquer? Sou capaz de apostar que a maioria das mulheres, no primeiro papo, já elimina o candidato, e quase sempre por razões frívolas. Ou porque o sapato dele é medonho, ou porque ele errou a concordância de um verbo, ou porque ele gosta de pizza de estrogonofe com banana, ou porque ele só assiste a filme japonês, ou porque ele mistura steinheger com cerveja, ou porque o carro dele é um carro do ano. Do ano de 1987. Imagina se você, proveniente de uma família estruturada, criada dentro de padrões de bom gosto, com qualidades encantadoras, vai se envolver com este... com este... com este sei-lá-quem. Pois o sei-lá-quem pode ser, sim, aquele cara bacana que levará você para almoçar no domingo, mas você tem que dar uma mãozinha, minha linda. Recolha seus pré-julgamentos, dê umas férias para seus preconceitos, deixe seu orgulho de lado e saia com ele três, quatro vezes, até ter certeza absoluta de que o sapato medonho vem acompanhado de um caráter medonho, de um mau-humor medonho, de uma burrice medonha. Porque se o problema for só o sapato e a pizza de estrogonofe, isso se dá um jeito depois, ele não há de ser tão inflexível. Aliás, e você? Garanto que também não sai pra rua com uma camiseta piscante anunciando Mulher Maravilha. Ele também vai ter que descobrir o que há por trás da sua ficha estupenda, e vá que ele implique com as três dezenas de comprimidos que você ingere por dia, com sua recusa em molhar o cabelo no mar, com sua fixação por telefone ou com os seus sutiãs do ano. Do ano de 1991. Esta coisa chamada história de amor requer um certo tempo para ser construída, e as que dão certo são aquelas vividas com paciência, com o espírito aberto e geralmente com qualquer um que consiga romper nossas defesas e nos fazer feliz. Sábado, Outubro 21, 2006
Martha Medeiros 22/10/2006 Mães famosas e filhos adotados É uma pena que a gente viva numa era tão voltada para as aparências e para a superexposição que um gesto bacana como adotar um filho possa ser questionado Já comentei mais de uma vez, mas é o tipo de assunto que não custa reprisar: a adoção é um dos gestos mais generosos que há. Um homem e uma mulher que, por alguma razão, não podem ter seus próprios filhos tomam para si a guarda de um recém-nascido dando-lhe amor, conforto, educação e uma vida de oportunidades pela frente. Pouco importa ao casal que não haja laços de sangue, semelhança física ou que não conheçam a herança genética deixada pelos pais verdadeiros. O que importa é que a carência de todos, pais e bebê, foi preenchida, e que, dali por diante, será criado um ambiente familiar como outro qualquer. É uma atitude que, até ontem, era de foro íntimo, mas que tem ganhado as páginas dos jornais porque muitas celebridades passaram a adotar crianças, mesmo aquelas que possuem condições de gerá-los. De certa forma, é um bom exemplo a ser divulgado pela imprensa, ainda mais porque a maioria das crianças adotadas não é loirinha de olho azul, e sim crianças de raças e etnias diferentes das dos pais adotivos, o que ajuda a democratizar a escolha dos bebês. Até aí, tudo perfeito, pois se está promovendo a adoção como um ato de afeto e responsabilidade. O que me deixa intrigada é se este ato que deveria ser realmente de afeto e responsabilidade não está virando apenas mais uma estratégia de marketing. É muito fácil uma pessoa famosa ir até um país miserável da África ou da Ásia e voltar de lá com um bebê no colo para exibir para os fotógrafos. Mas o que acontece depois que os fotógrafos recolhem suas câmeras e os flashes se apagam? Como é que fica o dia-a-dia? Não se sabe. Ninguém está dentro da casa dos outros para testemunhar. Pode ser que o bebê seja cuidado por um staff de babás e enfermeiras e que só saia com a mamãe superstar uma vez por mês, com os paparazzi todos avisados com antecedência. Ou pode ser que os pais sejam presentes e afetuosos como quaisquer outros, não importa se são atores, atrizes, cantores. O que se está fazendo aqui é pura especulação, mas a tendência de adoção entre pessoas famosas existe, está se ampliando e não duvido que se transforme, um dia, em apenas mais uma jogada de autopromoção. Talvez eu esteja vendo coisas que não existem. É uma pena que a gente viva numa era tão voltada para as aparências e para a superexposição que um gesto bacana como adotar um filho possa ser questionado. Tempos atrás, eu seria a primeira a duvidar que um adulto, fosse ele a Madonna ou a Maria das Dores, fosse capaz de usar uma criança para fins tão fúteis quanto marcar presença na mídia, mas hoje nada tem me descido fácil. Ou fiquei mais cínica ou mais esperta, e nenhuma destas alternativas me envaidece. Tomara que eu esteja mesmo vendo coisas que não existem. martha.medeiros@zerohora.com.br Que tenhamos todos um ótimo domingo, este que antecede aquele das eleições. Sexta-feira, Outubro 20, 2006
Cartas a um jovem poeta Quando eu estava cursando o Clássico (atual segundo grau) no Julinho, a professora de Filosofia nos recomendou a leitura de vários livros. Lembro, particularmente, de Sidarta, de Hermann Hesse, e Cartas a um jovem poeta, de Rainer Maria Rilke. Já reli os dois, várias vezes. Agora a L&PM acaba de lançar uma edição de bolso de Cartas a um jovem poeta, com tradução e apresentação de Pedro Süssekind. Rilke nasceu em Praga, em 1875, faleceu na Suíça em 1926 e é considerado por muitos o maior poeta de língua alemã do século XX. Em fevereiro de 1903, ele recebeu uma carta de um jovem chamado Franz Kappus, que aspirava tornar-se poeta. Queria conselhos do escritor famoso. Iniciou-se então uma troca de correspondência que foi até 1908. Muito além de falar sobre o lado "técnico" da poesia e das várias facetas da criação artística, Rilke passou a Kappus impressões, opiniões e sentimentos sobre os aspectos verdadeiros da vida. Olhe para si mesmo, não dê importância para a crítica, procure aproveitar ao máximo a solidão, para conhecer o mundo que há dentro de si, entenda que a grande renovação do mundo talvez venha a consistir no fato de que o homem e a mulher, libertados de todos os sentimentos equivocados e de todas as contrariedades, não se procurarão mais como adversários, mas como irmãos e vizinhos, unindo-se como seres humanos, para simplesmente suportar juntos, com seriedade e paciência, a difícil sexualidade que foi atribuída a eles, ensinou o poeta experiente ao novato, entre muitas outras coisas. Sobre o amor, Rilke escreveu ao jovem poeta que amar era bom, pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor, ensinou Rilke. Nas belas páginas de prosa da carta, Rilke fala ainda de Deus e de outros temas essenciais. Sem dúvida, um livro que vem em muito boa hora. Numa hora em que superficialismos, mentiras, jogos de cena e marketing enganoso tomam conta das pessoas e do planeta. Hora boa de reler a densidade de Rilke.
David Coimbra 20/10/2006 Construção Lá de cima, da basculante do meu banheiro, posso ver a obra de um edifício que vem sendo erguido há meses ao lado do prédio onde moro. Adquiri o hábito de, durante o banho, observar o esqueleto da construção evoluir aos poucos, os andares se sobrepondo, a estatura do edifício aumentando a cada manhã. Dia desses, entrei sob o chuveiro logo depois das 12h, olhei pela janela e vi que a obra estava vazia. Os operários deviam estar no almoço. Mas... ali embaixo, creio que no segundo andar, havia um homem. Um dos trabalhadores. Estava sentado no chão, as costas apoiadas numa parede de tijolos, o capacete de metal pousado junto ao joelho esquerdo. Era uma cena estranha, aquele homem solitário numa estrutura que, normalmente, está pulsante de ação. Fiquei olhando para ele. Ele não podia me ver, óbvio. E, ao deter-me um pouco mais, tive a impressão perturbadora de que... ele chorava! Debrucei-me na basculante, concentrei-me. Será que a distância não me enganava? Não... ele de fato chorava, aos soluços, vez em quando escondendo o rosto na concha das mãos. Aquilo me desconcertou. Um homem adulto, um rude operário da construção civil, aos prantos. E era um pranto solitário. Quer dizer: a causa da sua tristeza não era imediata, era algo de que ele se lembrava e que o comovia, que o oprimia, que lhe despedaçava a alma. Os operários, eu os vejo rindo e assobiando nas construções, eles caçoam uns dos outros, eles gritam, eles brigam, eles bebem nos botecos e discutem futebol, eles fazem churrasquinho aos domingos e se irritam com suas mulheres. Posso imaginar um operário fazendo quaisquer dessas coisas. Não consigo imaginá-lo chorando, sozinho, sentado na pedra fria, com as costas escoradas na parede de uma construção vazia. O que havia acontecido para magoá-lo tanto? Cogitei de ir até lá e falar com ele. Às vezes, conversar com um desconhecido é o melhor consolo. Às vezes, é só isso de que um homem precisa: falar, desabafar, ser ouvido. Terminei o banho, vesti-me e saí para trabalhar. Devia ou não apresentar-me ao operário, perguntar o que ocorrera? Desviei uma quadra do meu caminho para passar em frente à construção, a essa hora já fervilhante de atividade. Fui aproximando-me do prédio, devagar, devagar, cada vez mais devagar. Em frente à obra, parei. Examinei os operários que trabalhavam na estrutura sem paredes. Todos me pareciam iguais debaixo de seus capacetes. Olhei, olhei, até que, pela roupa, reconheci o operário que, havia pouco, chorava, sozinho. Agora ele ria. Ria alto, brincando com os companheiros. De onde estava, não conseguia identificar se era um riso sincero ou se seus olhos estavam inchados. Mas ele ria. Segui caminho, um pouco confuso, levando no peito uma pontada de aflição que até agora não consegui explicar. david.coimbra@zerohora.com.br Quinta-feira, Outubro 19, 2006
Datapadaria! Deu chuchada de bode! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República. Direto do País do Pleito Caído! Datapadaria informa: deu chuchada de bode! O Lula é como o Corinthians, o povo gosta mesmo apanhando. Massa de pão, quanto mais bate mais cresce! Então é o Databolo! E essa: "Publicitária petista quebra o dedo em briga no Rio de Janeiro". Isso é que é querer ficar igual ao ídolo. Por que ela não deixa crescer a barba? Rarará! E o Geraldo tá anestesialdo. O Geraldo é anestesista formado. É verdade. Só que ele deve ter aplicado todas nele! E o chargista Pires encontrou uma solução para o Geraldo Picolé de Chuchu: fazer uma xepa do xuxu na feira: "Olha o chuchu baratinho! Quem vai levar? R$ 0,45". E começou o Salão do Automóvel! É como televisão de cachorro! Sabe aquelas máquinas de padaria que os frangos ficam rodando e os cachorros em baixo babando? É como o Salão de Automóvel: o carrão fica rodando e o povo fica babando. E quem gosta mesmo de salão de automóvel é motoboy. Os motoboys vão pro salão pra ver os novos modelos de retrovisor que eles vão quebrar. "Olha aquele ali mano, irado, prateado!". E eu já disse que o sucesso do Salão é uma minivan que vem da China: a Chana. "Compre uma chana zero quilômetro, leva até sete". Já imaginou comprar uma chana zero com cheiro de novinha? Rarará! E já imaginou tua mulher: "Quer dar uma volta na minha chana?". "Vou lavar a chana da vizinha". Rarará! Só precisa tomar cuidado pra não dar trombada com Picasso. Senão vira manchete: "Picasso entra na Chana". Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas, se provocar, ressuscita! Antitucanes Reloaded, a Missão. Continuo com a minha vulcânica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Cristianópolis, Sergipe, tem um motel chamado Hora do Lanche! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro obvio lulante: "Falácia" - companheiro que fala muito. Rarará. O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nois goza. Hoje só amanhã... Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. Chega de pleito! Queremos blunda! simao@uol.com.br
Nilson Souza 19/10/2006 Pelo radinho Os olhos claros do meu interlocutor brilharam ainda mais quando lhe perguntei se gostava de ouvir rádio. Ele focou a minha voz, sem me ver, e respondeu: - É o meu companheiro inseparável. Quis saber, então, o que ele gostava de ouvir. Imaginei que aquele homem sem luz, porque as imagens do mundo externo já não freqüentam suas retinas, talvez alimentasse a imaginação com as informações do dia. Eu mesmo faço isso. Acordo com o radinho ao lado do travesseiro e atravesso boa parte da manhã ouvindo as vozes dos previsores de tempo, dos locutores de notícias e dos debatedores de temas variados. Como as pessoas têm opinião sobre tudo! Diante de um microfone, então, ninguém é capaz de dizer "não sei, nunca pensei sobre isso". Todos têm respostas prontas. O rádio não tem espaço para dúvidas. E aquele ouvinte cego, que visitei na tarde do último domingo, tinha absoluta certeza na sua resposta quando indaguei sobre a sua programação preferida: - Só ouço religião. Passo todo o tempo ouvindo a mensagem do Senhor. Fiquei impressionado. Como sou viciado em notícias, até por dever de ofício, meu radinho não pega estações celestiais. O mais aproximado de recados divinos que consigo sintonizar são as previsões de tempo feitas pelo Cléo Kuhn, que de vez em quando encarna São Pedro nos seus boletins: - Vamos providenciar numa chuvinha para a tarde... Desconfio sempre, mas levo o meu guarda-chuva. Já o homem do olhar de trevas não tem por que desconfiar. O rádio, para ele, é a verdade e a vida. Não é a simples palavra de um locutor que ele ouve, nem o discurso de pastores eletrônicos especializados em conquistar corações e mentes. É a inquestionável mensagem do Senhor. Incomodam-me os espertalhões que se aproveitam da ingenuidade das pessoas simples para vender as suas verdades - especialmente aqueles que cobram por elas. Mas diante daquele homem tão convicto e tão satisfeito com a sua ração diária de palavras de salvação, não tive coragem de manifestar qualquer contrariedade. Quando me aproximei dele para me despedir, seus olhos vazios de imagens brilharam novamente e ele me desejou a proteção daquela luz que lhe chega ao coração todos os dias, pelas ondas mágicas do seu radinho. nilson.souza@zerohora.com.br Uma ótima quinta-feira a todos nós, mesmo que seja sem aquele sol da primavera por aqui. Quarta-feira, Outubro 18, 2006
Ueba! Lula tá comendo pra chuchu! Diz que a Clodovéia vai lançar o Bofe-Lotação. Com um bilhete só, você transa com três bofes BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O Esculhambador-geral da República! Direto do País do Pleito Caído! Adorei o feriadão. Não sou casado com mulher feia! E continuo com a minha campanha para lançar a Bocarelli, ops, a Cicarelli como musa do verão. E o slogan é: "Com a Cicarelli, até chovendo dá praia". Rarará. E o programa social do Lulalelé: PLURAL ZERO, ele engole todos os "esses". "Esse" Zero. E diz que o assessor gritou pro Lula: "Empregue o plural! Empregue o plural". E o Lulalelé: "Prometo dar emprego a TODOS OS PLURAL do Brasil!". Manchete da Folha: Lula emprega os plural! Rarará! E a Clodovéia? Ops, Clodovil vai lançar uma nova versão daquele golpe "Boa Noite, Cinderela". É o "Boa Noite, Mocréia": bota sonífero na bebida das muié. E crau no maridão! Rarará! E o Geraldo Picolé de Chuchu? Ele privatiza tanto, privatiza tanto que vai acabar privatizando o chuchu! Tem que pagar pedágio pra comer o chuchu. Chuchágio! Rarará! São Paulo é uma ilha cercada de pedágios por todos os lados. E o Lulalelé disse: "A especialidade do PSDB é vender patrimônio". E sabe o que um tucano respondeu? Uns vendem, outros roubam! Rarará! E diz que a Clodovéia vai lançar outro programa: Bofe-Lotação. Bilhete único: com um bilhete só você pode transar com três bofes. O problema é que Passa-Rápido! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz o outro: é mole, mas, se provocar, ressuscita! Ressuscita-me! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha vulcânica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Camamu, Bahia, tem uma rua chamada Rua do Quebra-Cabaço! Deve ser vulgarmente conhecida como cemitério de virgens. Aliás, hoje em dia virgem só mesmo em cemitério. Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil! E atenção. Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Temperaturas amenas": friozão na terra do companheiro gaúcho Tarso. Rarará! O lulês é mais fácil que o inglês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! Chega de pleito! Queremos blunda! simao@uol.com.br
Martha Medeiros 18/10/2006 Voltando a pensar No último domingo, publiquei no caderno ZH Donna uma crônica fantasiosa em que eu imaginava como seria bom parar de pensar por uns dias, para dar um descanso pro cérebro. Os leitores aprovaram a idéia, mas os dias passaram e é hora de voltar a pensar. Proponho dois assuntos para dar uma acordada nos nossos neurônios. Primeiro: soube que dois desempregados arrancaram, anteontem, 19 placas de sinalização da RS-331, que liga Viadutos a Gaurama, no norte do Estado. O objetivo? "Só para ver o que acontece", responderam eles. Vou dizer a eles o que acontece, dando o exemplo de um fato ocorrido na Flórida em 1997. Dois adolescentes e uma garota não tinham nada para fazer e resolveram arrancar algumas placas de PARE dos cruzamentos. No dia seguinte, três jovens transitavam por uma dessas avenidas desfalcadas de sinalização e, sem saber que estavam cruzando com uma preferencial, bateram num caminhão. Morreram. É isso que acontece. E aconteceu mais: os que arrancaram as placas foram condenados, cada um, a 15 anos de prisão, e o juiz ainda disse que eles deveriam agradecer, porque assassinos não costumam pegar menos de 30 anos. A verdade é que somos, todos, homicidas em potencial. Não é preciso sair pra rua com uma arma na mão para colocar a vida dos outros em risco. Pequenas sandices como danificar placas de trânsito ou fazer rachas em vias públicas também podem provocar tragédias. Segundo assunto: o adesivo que mostra uma mão sem o dedo mínimo com a frase "Mais 4 não! Fora Lula", aludindo à deficiência do presidente, que teve um dedo decepado na época em que trabalhava como metalúrgico. A polêmica surgiu porque algumas pessoas consideraram o adesivo preconceituoso e ilícito. Olha, ilícito me parece que não é, mas que é de um tremendo mau gosto, nem se discute. Todos têm o direito de externar sua opinião, de fazer propaganda de seu partido ou contra o partido oponente, mas usar uma deficiência que nada tem a ver com o caráter ou o currículo do candidato é preconceito, sim. O fato de o Lula não ter um dos dedos da mão é absolutamente irrelevante para o destino do país. Usar isso como uma "sacada" de marketing é fazer piada tosca e grosseira, e creio que já basta de deselegâncias nesta vida. Depois reclamamos quando crianças discriminam na escola os colegas negros, gordos, mancos, gagos, sem dedo, sem braço, sem perna. Estão seguindo exemplos, apenas isso. Parar de pensar é um convite à meditação, não à estupidez. martha.medeiros@zerohora.com.br Well, uma ótima quarta-feira a você neste dia internacional do sofá, como são todas as quartas-feiras. Terça-feira, Outubro 17, 2006
Liberato Vieira da Cunha 17/10/2006 O cronista pergunta Ontem, entrando em um ambiente decorado por muitas telas, percebi que uma delas me eletrizou os sentidos em um quarto de segundo. Bastou-me chegar perto para descobrir que se tratava da cópia de um Van Gogh. Já vi muitos Van Goghs. Estive na modestíssima casa em que ele morou com o irmão, Theo, em Montmartre. Percorri dois ou três livros a seu respeito. Sua vida foi uma sucessão de tragédias: morreu pobre, amargurado e demente. Volta e meia no entanto leio que algum anônimo japonês arrematou um de seus trabalhos, no Sotheby's ou no Christie's, por dezenas de milhões de dólares. Não foi o único drama do gênero. Gauguin, esquecido na ilha de Hiva-Oa, ao sul do Pacífico, não tendo onde pintar, preenchia portas de cabanas com a perenidade de suas cores. Foi mais feliz que Van Gogh: havia aquele oceano infinito, aquelas nativas lindíssimas, aquele sol de luz inimitável para confortá-lo de seu auto-exílio da fama, da civilização e do assim chamado fracasso como ser humano. Hoje suas pinceladas se eternizam nos principais museus do planeta e nada as supera no gênero. No tempo em que eu estudava em Berlim, percorria duas intermináveis linhas de metrô, para admirar, em Dahlen, O Homem do Elmo Dourado. Um pôster da criação de Rembrandt, esse jovem que acaba de completar 400 anos, era a primeira vista de quem entrasse em meu singelo apartamento de hostel. Uma reprodução continua presente agora, saudando os visitantes de meu apê em Porto Alegre. Recordo tudo isso porque, a outra semana, num acesso de prodigalidade, comprei um pequeníssimo, secular óleo sobre madeira, de passaporte português. Tornou-se um enigma pendurado na minha sala. O tema é uma ponte, que lembra tanto a dos Açorianos quanto a mandada erguer para dar passagem a Dom Pedro II no interior do interior de Cachoeira. É um prodígio de harmonia e tonalidades. Ninguém fica indiferente à sua beleza. O autor é um certo Thomy de Moura, de quem não há remota menção na internet. Esta é uma crônica diferente das que costumam preencher meu espaço das terças-feiras em Zero Hora. Na real é um pedido. Sei que não tenho um Van Gogh, um Gauguin, um Rembrandt. Mas quem souber qualquer longínqua informação sobre esse Thomy de Moura, favor dirigir-se ao endereço lá de cima. Pois talvez me ajude a definir a secreta identidade de um primo distante dos grandes mestres, mas nem por isso inteiramente desprovido de engenho e arte e gênio. liberato.vieira@zerohora.com.br Aproveite a terça-feira e que seu dia seja super produtivo. Segunda-feira, Outubro 16, 2006
DILEMAS DO SER OU DO FAZER Quando uma pessoa, um político por exemplo, vive mergulhado nas atividades do fazer, do agir, do disputar, sempre acaba massacrado pelos desgaste interior, preço pago para a atividade externa, a de ação sobre o mundo. Dói demais fazer o que não se quer para um dia (quando?) poder realizar o ideal ou interesse sonhado. Isso se dá na política, na carreira, na vida ou nas empresas Sacrifica-se o valor subjetivo, interno ou espiritual em nome de metas ou concretos ideais ou interesses mais altos. A pessoa corre o risco de chegar corrompida pela necessidade de vitória a qualquer preço ou poder. Quando, porém, o ser humano está mergulhado na atividade do não-fazer, do contemplar, do orar, do meditar, do exercer decididamente a sua vida interior, por vezes ele se percebe ( e sofre) como marginal dos atos que efetivamente mudam o mundo ou o próprio país, ou empresa ou família etc., atos que conduziriam os demais para o equilíbrio social, sempre sonhado pelos povos e alcançado por muito poucos. No primeiro caso (ação objetiva sobre o mundo) não se atende à clamorosa necessidade de espiritualidade do homem contemporâneo. E há o risco de se vender a alma ao diabo... No segundo caso ( só atender às necessidades interiores de elevação espiritual e meditação) não se enfrenta a injustiça no mundo nem a violência. Uma alma que busca a felicidade na contemplação, por outro lado capitula diante de sociedades materialistas e mercantilistas que levam o mundo e o homem à destruição da natureza e do próximo. A batalha humana é, então, vencida pela cupidez e uma visão de progresso concebido em termos puramente econômicos. A resposta - se existe - está no equilíbrio sempre errático entre a ação material e os objetivos espirituais da vida, sem os quais tanto a ação como as inações são vazias, inúteis e sem sentido. E com os quais ambas se tornam vivas e úteis. Quem se dispõe a viver e superar ou equilibrar este conflito?
Santa Edwiges O dia 16 de outubro é dedicado à Santa Edwiges, conhecida como protetora dos pobres e dos endividados. Edwiges nasceu na Alemanha. Casou-se com o príncipe da Silésia, que hoje pertence à Polônia, e teve seis filhos. Depois da morte do marido e dos filhos, entrou para o mosteiro. Dedicou-se a ajudar os carentes e, com seu próprio dinheiro, construiu hospitais, escolas, igrejas e conventos. Ganhou fama de santa dos endividados ajudando detentos da região. Ela descobriu que muitos estavam presos porque não tinham como pagar suas dívidas. Foi reconhecida pela Igreja Católica em 1267. Oração de Santa Edwiges Protetora dos Pobres e Endividados Vós Santa Edviges, que fostes na terra amparo dos pobres e desvalidos e socorro dos endividados, no céu onde gozais o eterno prêmio da caridade que praticastes, confiante vos peço, sede minha advogada, para que de Deus eu obtenha a graça (fazer pedido) e por fim a graça suprema da salvação eterna. Amem. Rezar um Pai Nosso, uma Ave Maria e um Glória ao Pai. Pois além de ser o dia da Santa Edwiges ainda é o Dia Mundial da Alimentação.
A fortuna do meu tio RIO DE JANEIRO - Eu o conheci velho, ainda rijo e saudável, com suas terríveis pupilas negras. Já era tio antes mesmo de ter sobrinhos. Era um título mais ou menos impessoal, dizia-se "tio" como se diz "chove": uma ação que não tem sujeito nem precisa ter complemento. O grande lance de sua vida fora o prêmio da Loteria de Natal que ganhara, segundo alguns, em 1929, segundo outros, em 1926. Pois esse tio Augusto César de Moraes conseguiu, em menos de três anos, gastar a fortuna recebida. Augusto César de Moraes não comprou iates, não fez cruzeiros pelo Mediterrâneo, não importou gado holandês, nem melhorou sua casa avarandada e fresca, caiada de branco, à sombra de um enorme pé de cajá-manga. Se Augusto César não distribuiu bens e bênçãos entre seus sobrinhos, o certo é que todos ganhavam, a enorme lata redonda, ainda quente dos tachos onde o cajá-manga dourava ao fogo. Como, quando, onde e por que Augusto César de Moraes gastou sua fortuna (5 mil contos de réis) sem sair de casa, sem sair de sua modesta vila, a antiga Soledade de Rodeio, tornou-se um mistério. Bem verdade que seus contemporâneos garantem que ele chegou a passar nas armas mais de 3 mil mulheres. Mas não teria sido com elas, numa prodigalidade de sátiro, que Augusto César de Moraes esbanjara tanta e tamanha fortuna. O certo é que um dia, um desses jornalistas investigativos que andam em moda deslocou-se até sua casa avarandada, coberta pelo pé de cajá-manga, e fez-lhe a pergunta na bucha: Como conseguira gastar tanto dinheiro sem sair dali? Embrutecido pelas 3 mil mulheres que possuíra, fez um gesto no ar, achando a pergunta idiota e o perguntador imbecil. E respondeu, com enfado, num tom de quem não dá importância, a mais nada: "Ora... ora"... Com certeza, foi sempre por uma boa causa. Uma ótima semana a todos nós. Domingo, Outubro 15, 2006
AO MESTRE , COM CARINHO! Mestre, É aquele que caminha com o tempo, propondo paz, fazendo comunhão, despertando sabedoria. Mestre é aquele que estende a mão, inicia o diálogo e encaminha para a aventura da vida. Não é o que ensina fórmulas, regras, raciocínios, mas o que questiona e desperta para a realidade. Não é aquele que dá de seu saber, mas aquele que faz germinar o saber do discípulo. Mestre é você, meu professor amigo que me comprende, me estimula, me comunica e me enriquece com sua presença, seu saber e sua ternura. Eu serei sempre um seu discípulo na escola da vida. Obrigado, professor! (N.Maccari)
Qual é a origem do dinheiro? Este é o lema da campanha da oposição Odebate de domingo serviu para vermos dois lados do Brasil. De um lado, a busca de um choque de capitalismo, de outro, um delirante choque de um socialismo degradado em populismo estadista, num getulismo tardio. De um lado, São Paulo e a complexa experiência de um estado industrializado, rico e privatista, e, do outro, a voz de grotões onde o Estado ainda é o provedor dos vassalos famintos. De um lado, a teimosa demanda de Alckmin pelo concreto da administração pública, e, do outro lado, o Lula apelando para pretextos utópicos, preferindo rolar na retórica de símbolo, lendo constrangido estatísticas e citando obras que nem foram iniciadas. Alckmin foi incisivo; Lula foi evasivo. Lula saiu da arrogância do primeiro turno para o papel de sóbrio estadista injustiçado. Mas não deu para esconder seu mau humor quase ofendido, por ter de dialogar ali com aquele burguês, limpinho, sem barba. Faltou-lhe a convicção de suas afirmações, pois seu amor ao povo não teve a energia de antes. Gaguejou, tremeu, suas frases peremptórias não tinham ritmo, não tinham punch line, não fechavam, enquanto Alckmin parecia um cronômetro, crescendo no ritmo e concluindo com fragor. Lula estava rombudo, Alckmin era um estilete. Lula estava deprimido porque raramente foi contestado assim, ao vivo. Sempre recuamos diante do sagrado Lulinha do povo, imagem que se rompeu domingo. Houve um leve sabor de sacrilégio na acusação do agora agressivo picolé de chuchu. Alckmin rompeu a blindagem do Lula, protegido dos escândalos, Alckmin atacou a intocabilidade do operário sagrado e tratou-o como cidadão. Isso. O Lula perdeu um pouco da aura de ungido de Deus. Lula sempre se disse igual a nós ou ao povo, mas sempre do alto de uma intocabilidade, como se ele estivesse fora da política. Sempre houve um temor reverencial por sua origem pobre; qualquer critica mais acerba soava como um ataque da elite reacionária que não suporta um operário no poder, como clamam tantos lulo-colunistas e artistas burros. Quando apertou o cerco, Lula tentou se valer dos pobres, dos humildes, falou da mãe analfabeta, mas sempre evitou responder qualquer pergunta concreta, como se a concretude fosse uma ofensa a seu mundo ideológico puro, acima da vida comum. Várias vezes, suas falas não faziam sentido, porém mantinham para o espectador acrítico aquele ronronar grosso que empresta um ritmo de fundo em torno à sua imagem de símbolo dos pobres. Lula não precisa dizer a verdade; basta parecer. Sempre que o Alckmin o encostava na parede, ele chamava as verdades proferidas de leviandades, o que é muito comum no vocabulário petista, que nomeia de erros os crimes cometidos ou de meninos os marmanjos corruptos que transportam dólares na cueca ou nas maletas e que foram desencaminhados, coitados, por bandidos comuns, talvez até (quem sabe?) a serviço de tucanos solertes. Lula tentou encobrir os crimes de sua quadrilha apelando para pretensos crimes de gestões anteriores, como barragem de CPIs, votos comprados, caixa 2 sem provas. Ele e os petistas se julgam donos de uma metaética, uma supramoral que os absolveria de tudo e, por isso, Lula se utilizou de mentiras e meias verdades para responder às acusações de mensalões e sanguessugas em seu governo. Para justificar a omissão e a passividade diante da Bolívia e do prejuízo de um bilhão e meio de dólares nas instalações da Petrobras, Lula chegou a criticar a violência burra do Bush para se absolver na política de companheirismo com o Evo Morales. Em vez de se defender de acusações pontuais, dizia que a Era FH também era corrupta, como nas brigas de bordel, em que as prostitutinhas se defendem apontando os pecados das outras. Lula tentou fugir da pergunta que não vai se calar: Qual a origem do dinheiro? Lula respondeu com a metáfora batida: Muitas vezes o sujeito está na sala e não sabe o que está acontecendo na cozinha. Ou seja: é normal que o chefe da Casa Civil e agora o presidente do partido, Berzoini, Hamilton Lacerda, o chefe da campanha do Mercadante, o diretor do Banco do Brasil, seu assessor, seu churrasqueiro, petistas ativos no diretório, todos soubessem e trouxessem o dinheiro em malas, sem avisar o chefe. E quer que a gente engula. Lula pediu a Deus que não o mate até que ele saiba de onde veio o dinheiro. A resposta obvia é: | |