Nuvens Brancas

Nuvens Brancas

Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância. O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério. Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.

 



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Terça-feira, Maio 06, 2008



A última refeição

Melanie Dunea, fotógrafa norte-americana, perguntou a alguns dos maiores chefs do mundo o que comeriam se soubessem que se trataria de sua última refeição. As respostas não me surpreenderam.

No livro que resultou da pesquisa, a maior parte dos cooks preferiu pratos triviais, regionais e que lembrassem momentos importantes, tempos de infância e comidas da mãe. Menos caviar, ostras, trufas, foie gras ou escargots. Mais espaguete, tomate picado com manjericão, peixe e rosbife.

Um terço falou da comida da mamãe. Achei pouco, até. Na internet, pesquisas sobre o assunto apontam resultado parecido: muitos escolheram pizza, torta de chocolate, filé com fritas, churrasco e outras ceias ligadas a Natal, Ano-novo e momentos inesquecíveis.

As últimas refeições dos condenados à morte nos Estados Unidos, na maioria, foram compostas de carnes bem-temperadas, batatas, torradas com alho, cebolas e tomates fritos, ovos, bacon, sorvete, chocolate e outras coisas saborosas.

Acho que se fosse feita uma pesquisa em nível nacional, os brasileiros iriam citar feijão com arroz, bife com batatas e ovos fritos, carne de sol, churrasco, leitão à pururuca, feijoada, tutu à mineira, baião de dois, vatapá, quindim, cocada, baba-de-moça, peixes da Amazônia, barreado e outras delícias de nossa culinária.

Deu para ver que quase ninguém comeria, na última ceia, frutas, verduras, cereais, pães de centeio, iogurte, açaí, sucos de beterraba com cenoura e outras saudáveis e equilibradas iguarias.

De minha parte, antes mesmo de andar por vários lugares do mundo e de viver cinqüenta e quatro anos e alguns meses, ainda piá elegi minha refeição predileta. Antipasto: pão colonial (feito no forno de tijolos) com queijo, salame, copa e manteiga.

Primo piatto: sopa de cappelleti feita na colônia pela nonna, com massa e recheio à base de ovos e carne de galinha caipira e noz moscada suficiente. O caldo de galinha deve ter "olhinhos" de gordura (co i occi). Secondo piatto: galletto al primo canto bem-temperado com vinhos e ervas, especialmente sálvia e alho. Pele crocante, carne se desprendendo quase sozinha dos ossinhos.

Polenta brustolada crocante por fora e mole por dentro; radicci (folhas grandes) com baccon e spaghetti al sugo; salada de batata com maionese caseira (feita com ovos de galinha caipira) e tortéi. Vinho tinto (pode ser da casa, chateau de jarrier), água mineral e, de sobremesa, sagu com creme de leite, licor de bergamota e um litro de chá de camomila.

Última ceia, mãe, pai, colinas verdejantes, Bento Gonçalves, domingo de manhã com missa - Dormonid, almoços familiares;

domingo de tarde com Tarzan ou Gordo e Magro e segunda de manhã com os pés brincando na geada, a caminho da escola, para assistir às aulas da professora Adyles Ros de Souza, que gostava de galletto, de contar histórias e de dizer que eu sabia escrever redações. Tudo a ver.

Jaime Cimenti

Uma ótima terça-feira, depois do ciclone tropical esperamos que o sol se faça presente.



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Segunda-feira, Maio 05, 2008


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

Governar países pobres

Não há mal no populismo político, condenável é o populismo econômico, ou seja, gastar mais do que arrecadar

A ELEIÇÃO no Paraguai de um candidato de esquerda e nacionalista, Fernando Lugo, é ao mesmo tempo um sinal de avanço da democracia e mais uma indicação do aumento da distância entre as massas e as elites.

Entretanto, apesar do aumento da fratura política entre pobres e ricos, estes continuam poderosos, com freqüência aliados a interesses externos, e a probabilidade de os novos governantes lograrem êxito na promoção do desenvolvimento econômico com eqüidade é pequena.

São muitos os obstáculos que os líderes políticos de países pobres enfrentam. Quanto mais pobre é um país, maior será a diferença entre pobres e ricos, menos informada politicamente será sua população, menos organizado será o mercado e mais fraco o Estado.

Como a apropriação do excedente econômico não se realiza principalmente por meio do mercado, mas do Estado, a probabilidade de que facções das elites recorram ao golpe de Estado quando se sentem ameaçadas é sempre grande.

Para avaliar a enorme dificuldade em governar esses países, basta comparar os países pobres e os de renda média que elegeram governantes de esquerda.

Enquanto na Venezuela, no Equador e na Bolívia tivemos ameaças recentes de golpe de Estado, no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai essas ameaças estão ausentes. Quanto mais pobre o país, menos consolidada será sua democracia e mais arriscado e difícil será governá-lo.

Entretanto, como as elites locais dos países mais pobres estão quase sempre associadas às potências externas e às suas elites, o que vemos na imprensa, além das ameaças de golpe, é o julgamento negativo dos seus governantes.

Primeiro porque esses governantes são incômodos aos países ricos na medida em que decidem defender os interesses nacionais via aumento dos impostos ou royalties sobre seus recursos naturais (quando não decidem nacionalizar alguns deles). Segundo porque as elites locais se sentem ameaçadas pelo líder político, embora sua prática raramente lhes prejudique.

Terceiro porque as elites dos dois tipos de países insistem em julgar esses líderes de acordo com critérios adequados a países desenvolvidos, em vez de compreenderem que os padrões mais baixos de desenvolvimento político exigem igualmente padrões menos rigorosos de avaliação.

A acusação que resume tudo é que o líder é "populista". De fato, se for realmente um líder, ele será populista, pois populista é o líder político que logra estabelecer um contato direto com o povo independentemente dos partidos e das respectivas ideologias.

Ora, na ausência de partidos ideológicos, não há alternativa a esse contato direto. Não há mal, portanto, no populismo político, que é geralmente a primeira manifestação política do povo nos países pobres.

Condenável é o populismo econômico (o Estado ou a nação gastarem mais do que arrecadam), mas, muitas vezes, líderes populistas políticos não são populistas econômicos, pois sabem que precisam cuidar das finanças internas do Estado e das externas da nação para se conservarem no poder.

Em síntese, quando um líder nacionalista alcança o poder, ele enfrenta tantas dificuldades e obstáculos que não há garantia de que a nação que governa será beneficiada, mas, quando suas elites rejeitam seu povo e se associam às elites externas, não há nenhuma dúvida de que a nação estará sendo esquecida, e a democracia, desprezada.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 73, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação:

Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".
Internet: www.bresserpereira.org.br - lcbresser@uol.com.br


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A última refeição

Melanie Dunea, fotógrafa norte-americana, perguntou a alguns dos maiores chefs do mundo o que comeriam se soubessem que se trataria de sua última refeição.

As respostas não me surpreenderam. No livro que resultou da pesquisa, a maior parte dos cooks preferiu pratos triviais, regionais e que lembrassem momentos importantes, tempos de infância e comidas da mãe. Menos caviar, ostras, trufas, foie gras ou escargots. Mais espaguete, tomate picado com manjericão, peixe e rosbife.

Um terço falou da comida da mamãe. Achei pouco, até. Na internet, pesquisas sobre o assunto apontam resultado parecido: muitos escolheram pizza, torta de chocolate, filé com fritas, churrasco e outras ceias ligadas a Natal, Ano-novo e momentos inesquecíveis.

As últimas refeições dos condenados à morte nos Estados Unidos, na maioria, foram compostas de carnes bem-temperadas, batatas, torradas com alho, cebolas e tomates fritos, ovos, bacon, sorvete, chocolate e outras coisas saborosas.

Acho que se fosse feita uma pesquisa em nível nacional, os brasileiros iriam citar feijão com arroz, bife com batatas e ovos fritos, carne de sol, churrasco, leitão à pururuca, feijoada, tutu à mineira, baião de dois, vatapá, quindim, cocada, baba-de-moça, peixes da Amazônia, barreado e outras delícias de nossa culinária.

Deu para ver que quase ninguém comeria, na última ceia, frutas, verduras, cereais, pães de centeio, iogurte, açaí, sucos de beterraba com cenoura e outras saudáveis e equilibradas iguarias.

De minha parte, antes mesmo de andar por vários lugares do mundo e de viver cinqüenta e quatro anos e alguns meses, ainda piá elegi minha refeição predileta. Antipasto: pão colonial (feito no forno de tijolos) com queijo, salame, copa e manteiga.

Primo piatto: sopa de cappelleti feita na colônia pela nonna, com massa e recheio à base de ovos e carne de galinha caipira e noz moscada suficiente. O caldo de galinha deve ter "olhinhos" de gordura (co i occi). Secondo piatto: galletto al primo canto bem-temperado com vinhos e ervas, especialmente sálvia e alho. Pele crocante, carne se desprendendo quase sozinha dos ossinhos.

Polenta brustolada crocante por fora e mole por dentro; radicci (folhas grandes) com baccon e spaghetti al sugo; salada de batata com maionese caseira (feita com ovos de galinha caipira) e tortéi. Vinho tinto (pode ser da casa, chateau de jarrier), água mineral e, de sobremesa, sagu com creme de leite, licor de bergamota e um litro de chá de camomila.

Última ceia, mãe, pai, colinas verdejantes, Bento Gonçalves, domingo de manhã com missa - Dormonid, almoços familiares; domingo de tarde com Tarzan ou Gordo e Magro e segunda de manhã com os pés brincando na geada, a caminho da escola, para assistir às aulas da professora Adyles Ros de Souza, que gostava de galletto, de contar histórias e de dizer que eu sabia escrever redações. Tudo a ver. (Jaime Cimenti)


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Domingo, Maio 04, 2008


DANUZA LEÃO

A vida a dois

E os amigos? A mulher implica com os dele, e ele com os dela, o que é um dos problemas do casamento

O GRANDE problema da vida é que, mesmo quando duas pessoas são muito próximas, uma delas quer, com freqüência, exatamente o oposto do que quer a outra -e isso nos mais variados campos.

A mãe quer que o filho vá para a cama às dez horas -razão suficiente para que ele queira ir às três da manhã. E como resolver esse problema, a não ser usando da autoridade no que ela tem de mais antipático e antidemocrático?

Ponderar, explicar que a aula no dia seguinte começa cedo, tentar entrar num acordo, é apenas uma ilusão; cada um quer fazer o que quer e bem entende, e ceder, em nome do bom senso e da civilidade, deixa uma das partes -a que cede- de péssimo humor.

Com toda a razão, aliás. Existe coisa mais insuportável do que ir ver o filme que o namorado quer quando a vontade é ver um outro?

Jantar no restaurante que o amigo escolheu, fazer a viagem que o marido achou mais interessante, na época que ele decidiu ser a melhor? Mas para não ficar só é preciso ceder, e geralmente quem cede é sempre o mesmo -uma grande injustiça, aliás.

A marca e a cor do carro, o bairro onde vão morar, o tipo de comida que a empregada faz, as frutas que são compradas na feira, tudo costuma ser decidido sempre pelo gosto de um dos dois -e o outro que se habitue.

Só num ponto não há acordo: quem não gosta de alho não vai tolerar, jamais, que o outro chegue em casa com a prova do crime cometido no almoço; este é um tema sem nenhuma esperança de solução.

E os amigos? A mulher costuma implicar com os dele, e ele com os dela, o que é um dos grandes problemas do casamento.

Mas como estão os dois apaixonados e dispostos a qualquer coisa para que dê certo, cada um cede -olha aí a palavra de novo- um pouco; um dia saem com os dela, no outro com os dele, o que significa que sempre um vai estar com um certo mau humor quando chegar em casa -mas tudo pelo amor.

Ah, mas por que não se pode fazer apenas o que se quer? Poder até pode, mas para isso é preciso abrir mão de um marido, namorado ou caso -o que tem sido, aliás, a escolha de muita gente, nos últimos tempos. Mas será esta a solução?

Às vezes é ótima; não ter que dividir o controle remoto da televisão com ninguém -convenhamos- é uma grande felicidade. Mas como seria bom também ter com quem ir ao cinema e depois sair comentando, trocando uma idéia, parar num bar e tomar um chope, comer uma pizza e sentir que faz parte da humanidade, digamos, normal.

Porque, com todas as vantagens, quem escolheu ficar só se sente muitas vezes um estranho no ninho, seja entrando numa festa, seja saindo, seja sentado sozinho no restaurante observando os casais das outras mesas, juntos -mesmo que, grande parte das vezes, se você reparar bem, eles estão mais sós que você.

São muitas as vantagens de uma solteirice assumida; mas às vezes, numa tarde de sábado, batem uns sentimentos que contrariam essa escolha tão duramente feita. E nessas horas você pensa: ah, como seria bom estar com alguém, mas de verdade mesmo. Como seria bom.

Aí você passa em revista os amigos, todos os homens por quem poderia eventualmente ter algum interesse, e se pergunta: será que eu gostaria de estar com algum deles aqui comigo, agora?

E se a resposta for um não convicto, talvez seja a hora de reconhecer que algumas pessoas nasceram para serem sós, e que você -feliz ou infelizmente- é uma delas.

Ou, pensando melhor: será que não somos, todos nós, uma grande multidão de solitários?

danuza.leao@uol.com.br


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Sábado, Maio 03, 2008



04 de maio de 2008
N° 15591 - Martha Medeiros


Doidas e santas

"Estou no começo do meu desespero/e só vejo dois caminhos:/ou viro doida ou santa". São versos de Adélia Prado, retirados do poema A Serenata.

Narra a inquietude de uma mulher que imagina que mais cedo o ou mais tarde um homem virá arrebatá-la, logo ela que está envelhecendo e está tomada pela indecisão - não sabe como receber um novo amor não dispondo mais de juventude. E encerra: "De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?".

Adélia é uma poeta danada de boa. E perspicaz. Como pode uma mulher buscar uma definição exata para si mesma estando em plena meia-idade, depois de já ter trilhado uma longa estrada onde encontrou alegrias e desilusões, e tendo ainda mais estrada pela frente?

Se ela tiver coragem de passar por mais alegrias e desilusões - e a gente sabe como as desilusões devastam - terá que ser meio doida. Se preferir se abster de emoções fortes e apaziguar seu coração, então a santidade é a opção. Eu nem preciso dizer o que penso sobre isso, preciso?

Mas vamos lá. Pra começo de conversa, não acredito que haja uma única mulher no mundo que seja santa. Os marmanjos devem estar de cabelo em pé: como assim, e a minha mãe???

Nem ela, caríssimos, nem ela.

Existe mulher cansada, que é outra coisa. Ela deu tanto azar em suas relações que desanimou. Ela ficou tão sem dinheiro de uns tempos pra cá que deixou de ter vaidade. Ela perdeu tanto a fé em dias melhores que passou a se contentar com dias medíocres. Guardou sua loucura em alguma gaveta e nem lembra mais.

Santa mesmo, só Nossa Senhora, mas cá entre nós, não é uma doideira o modo como ela engravidou? (não se escandalize, não me mande e-mails, estou brin-can-do).

Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar "the big one", aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais. Uma tarefa que dá para ocupar uma vida, não é mesmo?

Mas além disso temos que ser independentes, bonitas, ter filhos e fingir de vez em quando que somos santas, ajuizadas, responsáveis, e que nunca, mas nunca, pensaremos em jogar tudo pro alto e embarcar num navio-pirata comandado pelo Johnny Depp, ou então virar uma cafetina, sei lá, diga aí uma fantasia secreta, sua imaginação deve ser melhor que a minha.

Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca. E fascina a todos.

Todas as mulheres estão dispostas a abrir a janela, não importa a idade que tenham. Nossa insanidade tem nome: chama-se Vontade de Viver até a Última Gota.

Só as cansadas é que se recusam a levantar da cadeira para ver quem está chamando lá fora. E santa, fica combinado, não existe. Uma mulher que só reze, que tenha desistido dos prazeres da inquietude, que não deseje mais nada? Você vai concordar comigo: só sendo louca de pedra.

Ótimo domingo...Excelente iníco de semana para você.


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Diogo Mainardi

Eu sou BBB- Você é BBB-

"Pelos critérios da Standard & Poor’s, o Brasil é um bom pagador. O fato de ser classificado como BBB- equivale a ter o próprio cadastro aprovado no crediário do Ponto Frio. Já dá para comprar um freezer a prazo no mercado financeiro mundial"

Gilberto Freyre chegou perto. Bem mais perto do que Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda. Em todas as suas obras, eles se dedicaram a interpretar o Brasil. Mais do que isso: eles se empenharam em definir o Brasil. E fracassaram. Quem finalmente realizou o feito foi a Standard & Poor’s. Seus analistas acabam de definir o Brasil como BBB-.

O país cabe inteirinho nessa nota. Pode jogar fora aquela sua cópia surrada de Casa-Grande & Senzala. O debate nacional está encerrado. O Brasil é BBB-. Eu sou BBB-. Você é BBB-. Um dia, com certa dose de sorte, poderemos nos tornar BBB+.

Pelos critérios da Standard & Poor’s, o Brasil é um bom pagador. O fato de ser classificado como BBB- equivale a ter o próprio cadastro aprovado no crediário do Ponto Frio.

Já dá para comprar um freezer a prazo no mercado financeiro mundial. Depois de obter o reconhecimento internacional, o Brasil foi tomado por uma onda de euforia. O assunto contaminou todos os debates. Um professor de medicina da Universidade Federal da Bahia declarou que o batuque do Olodum é um exemplo de primarismo musical.

O presidente do Olodum reagiu comparando-o a Adolf Hitler, e acrescentou que o grupo, como o Brasil, tem sua "qualidade reconhecida internacionalmente". Isso significa que, numa hipotética Standard & Poor’s da música, o primarismo do Olodum estaria na categoria BBB-.

Se o risco de tomar um calote por aqui diminuiu, o risco de tomar um tiro na testa continuou igual. No mesmo dia em que os jornais comemoravam o BBB-, conferido pela Standard & Poor’s, O Globo publicou uma reportagem sobre os 18.000 cadáveres recolhidos todos os anos das ruas do estado do Rio de Janeiro.

Em média, cada cadáver demora sete horas para ser recolhido pelo Corpo de Bombeiros. Esse também é um bom critério para classificar os países: o grau de naturalidade com que se relatam os horrores cotidianos. Em 23 de abril, O Globo deu a seguinte notícia, escondida numa página interna, num bloco de 7 por 7 centímetros:

"Parte do corpo de uma mulher foi queimada ontem em plena Avenida Brasil, na altura de Guadalupe. Segundo testemunhas, homens trouxeram o corpo da Favela da Eternit. A mulher teve cabeça, braços e pernas arrancados. O tronco, então, foi colocado dentro de pneus para que os bandidos ateassem fogo".

Depois disso, nada mais. A mulher esquartejada e incinerada sumiu do noticiário. Ninguém se espantou com sua morte. Ninguém tentou interpretá-la. Pode jogar fora seu Gilberto Freyre.

Pode desmembrá-lo, colocá-lo dentro de pneus e atear-lhe fogo. O Brasil é ainda mais rudimentar do que ele supunha. Nosso primarismo é ainda mais bestificante. Aqui só resta um Olodum mental, um dum-dum-dum mental.


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Sexta-feira, Maio 02, 2008


Eliane Cantanhede - Folha de S. Paulo - 2/5/2008

Escandalização: do tudo ao nada

Quando saiu a pesquisa CNT-Sensus com Lula nas alturas e o terceiro mandato aceito por 50%, um velho amigo, petista e lulista de quatro costados, comentou: "Ih! Pronto! O Lula vai ficar com o ego nas nuvens e desandar a falar besteira". Não deu outra.

Alguém aí pode explicar por que o presidente da República tinha de fazer apaixonada defesa do governador do Ceará, Cid Gomes, que gastou uma bolada pública para passear com a família e com amigos na Europa? Cá pra nós, não dá.

Na versão de Lula, "um avião alugado não é alugado por uma pessoa", ou seja, já que alugou, qual o problema de levar a sogra? Mas a questão não é essa. A sogra entra na história de gaiata, um símbolo.

O que importa é que o Estado gastou R$ 388 mil só com avião numa viagem para a Europa com assessores, suas mulheres e até a sogra, em pleno Carnaval e com agenda fajuta. Gomes pode até ser bom cara, mas é ou não farra com dinheiro público?

Na oposição, Lula e o PT foram decisivos para estabelecer parâmetros morais a serem respeitados pelas autoridades, fiscalizados pela imprensa e aprovados ou não pela sociedade.

Ao chegarem ao poder, jogaram tudo para o alto. Não bastassem mensalão, cuecão, aloprados, dossiês, quebra de sigilo de caseiro e contratos com a Telemar, lá vem Lula defender o indefensável, tratando meio milhão de reais dos cearenses como uma bobagem. Imagina se o PT fosse oposição, e o governador, situação?!

Todo-poderoso, Lula previu um "mandato excepcional" de Collor, gargalhou com ACM, defende Renan e Severino, segue as luzes de Jader.

O que antes era escândalo virou provocação tucana, perseguição da imprensa, bobagem. Uma "escandalização do nada", como diria o chefão da AGU, Jorge Hage.

Saudade do PT na oposição e preocupação com um presidente tão popular quanto maleável ao tratar de moralidade pública. Não é responsável, não é educativo.


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Quinta-feira, Maio 01, 2008


CLÓVIS ROSSI

Política virou negócio

SÃO PAULO - Eduardo Zaplana, terceiro homem na hierarquia do conservador Partido Popular espanhol, anunciou anteontem que deixa seu posto de deputado para trabalhar na Telefónica (com acento agudo porque é a da Espanha, não a do Brasil).

Informa a respeito o jornal "El País": "O presidente da Telefónica, César Alierta, contratou Zaplana por seus contatos com o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, o que pode facilitar os negócios da operadora nesse país".

Saiu assim, como se fosse absolutamente normal que um importante líder político se torne ariete de negócios, usando seus contatos no meio conservador europeu. Uma espécie de multinacional da desfaçatez, no pressuposto óbvio de que o novo governo conservador italiano será suscetível ao charme de um ilustre conservador espanhol.

O pior é que é, sim, normal. Ou torna-se crescentemente normal, no mundo todo, que os políticos usem seus cargos e/ou prestígio para negócios. Ou, mais exatamente, para finalidades privadas em vez de o bem público (confesso que fico até envergonhado de falar em bem público nesse contexto; mais que ingênuo, me sinto um cretino).

Nem preciso falar do Brasil. No fundo, no fundo, a mais recente operação da Polícia Federal, que pegou deputados e funcionários públicos beneficiando-se de contatos para levar comissão em negócios com o BNDES, revela a mesma gênese do caso Zaplana, ainda que haja possíveis ilegalidades naquele e não neste.

Não é à toa que, na Itália, um livro recente trate o mundo político como "casta", um clubão a serviço dele próprio. Como diz Tito Boeri, colunista de "La Stampa", "a política se tornou mais que nunca auto-referente. O fato é que os políticos italianos não só custam muito, mas rendem muito pouco".

Você aí diria alguma coisa diferente dos políticos brasileiros?

crossi@uol.com.br


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A MATURIDADE DE CHARLES AZNAVOUR

Eu estava ansioso para ver o show de Charles Aznavour. Quando eu morava na França, não estava maduro para compreendê-lo. O mesmo aconteceu na minha vida em relação ao extraordinário escritor Georges Simenon, certamente o mais complexo autor de histórias policiais.

Décio Freitas o amava e tentava partilhar comigo o seu gosto. Eu me recusava em nome de James Joyce. Um dia aconteceu.

Hoje, leio Simenon ao som de Aznavour, de Charles Trenet ou mesmo de Serge Gainsbourg. A voz de Aznavour continua poderosa. Acho até que o sistema de som do Teatro do Sesi padeceu um pouco quando o homem soltou toda a sua potência. O cantor chegou a reclamar da falta de retorno.

Mas tudo isso é detalhe quase mesquinho. A verdade é que Aznavour encantou a platéia. Ao contrário do que eu imaginava, havia pessoas de todas as idades. Sem dúvida, a chamada platéia seleta. Um acontecimento.

Depois de dobrar o cabo dos 80 anos (nasceu em 1924, em Paris), Aznavour permanece um fenômeno de voz e de domínio de palco. Tem muita energia e faz algumas piruetas de provocar torcicolo em muito guri.

Dá uma lição em qualquer publicitário desses que só sabem endeusar a juventude. Mostra que arte não tem idade nem gênero exclusivo. No auge da minha arrogância, eu achava Aznavour brega. Eu pensava o mesmo de Roberto Carlos.

Certamente há algo de brega nos dois. Mas há também em todo mundo. Mesmo em Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim e nos Rolling Stones. A breguice faz parte da vida. Eu sou brega. Tenho paixão por muitas coisas bregas. O futebol, por exemplo, é considerado brega pelos que só amam a chamada 'alta-cultura'.

O romantismo é tido por brega. Ninguém escapa, contudo, de grandes surtos de romantismo. Nada mais brega do que um casal apaixonado de jovens hipermodernos e altamente descolados ouvindo música eletrônica e fazendo declarações doces por MSN.
Chega de provocações. Aznavour repassou os seus maiores sucessos.

Para meu gosto, embora isso varie com as estações do ano, 'Emmenez-moi' continua a ser especial. A platéia vibrou quando ouviu 'She'. Eu sou radical e purista. Não cedo diante desse piscar de olhos ao inglês. A cena mais engraçada foi a nova tentativa de Aznavour de doar, como sempre fez, o lenço, com o qual secou o suor das mãos, ao público.

Ninguém se candidatou. Esse tipo de show sempre me faz pensar sobre gostos. A cada vez, vejo chegar algumas pessoas muito conhecidas, entre as quais Paulo Brossard, o professor Leite, Juarez Fonseca, Lauro Schirmer. Não vejo o pessoal da minha geração.

Acho que venho me precipitando. Devem ser as tais afinidades eletivas. Deve ser por isso que, volta e meia, algum leitor me diz: 'Eu pensava que tu eras bem mais velho!'. A minha resposta é esta: 'Mas eu sou! Faz tempo que cheguei aos 80. É por isso que tenho esse espírito jovem e toda essa curiosidade relativista'.

Depois de comprovar a maturidade de Charles Aznavour, em plena forma clássica, irei, em junho, ao Pepsi On Stage ver e ouvir outra das minhas paixões musicais, Joss Stone, de 21 anos.

Tenho a impressão de que encontrarei outros conhecidos por lá. Salvo se for apenas o retorno de uma atitude preconceituosa ao meu imaginário. Aznavour, em todo caso, foi o máximo. Em 15 dias, dois octogenários franceses, Edgar Morin e Charles Aznavour, deram show em Porto Alegre.

juremir@correiodopovo.com.br

Aproveite o feriado e tenha um ótimo fim de semana



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