Nuvens Brancas

Nuvens Brancas

Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância. O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério. Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.

 



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Sábado, Outubro 31, 2009



01 de novembro de 2009
N° 16142 - MARTHA MEDEIROS


O último a lembrar de nós

REcentemente li Rimas da Vida e da Morte, do excelente Amós Oz, que narra os delírios de um escritor que, ao participar de um sarau literário, começa a olhar para cada desconhecido na plateia e a criar silenciosamente uma história fictícia para cada um deles, numa inspirada viagem mental. Lá pelas tantas, em determinado capítulo, o autor comenta algo que sempre me fez pensar: diz ele que a gente vive até o dia em que morre a última pessoa que lembra de nós.

Pode ser um filho, um neto, um bisneto ou um admirador, mas enquanto essa pessoa viver, mesmo a gente já tendo morrido, viveremos através da lembrança dele. Só quando essa pessoa morrer, a última que ainda lembra de nós, é que morreremos em definitivo, para sempre. Estaremos tão mortos como se nunca tivéssemos existido.

Pra minha sorte, tive poucas perdas realmente dolorosas. Perdi um querido amigo há mais de 20 anos, e perdi uma avó que era como uma segunda mãe. Lembro deles constantemente, sonho com eles, busco-os na minha memória, porque é a única homenagem possível: mantê-los vivos através do que recordo deles.

Daqui a 100 anos, ninguém mais se lembrará nem de um, nem de outro, eles não terão mais amigos, netos ou bisnetos vivos, eles estarão definitivamente mortos, e pensar nisso me dói como se eles fossem morrer de novo.

Aquele que compõe músicas, faz filmes, escreve livros, bate recordes ou é um Pelé, um Picasso, um Mozart, consegue uma imortalidade estendida, mas, ainda assim, será sempre lembrado por sua imagem pública, não mais a privada, não mais a lembrança da sua voz ao acordar, da risada, do bom humor ou do mau humor, não mais daquilo que lhe personificava na intimidade. Serão póstumos, mas não farão mais falta na vida daqueles com quem compartilharam almoços, madrugadas, discussões, já que essas testemunhas também não estarão mais aqui.

Alguém me disse: se você acreditasse em reencarnação, nada disso te ocuparia a mente. De fato, não acredito, e mesmo que eu esteja enganada, de que me serve a eternidade sem poder comprová-la? Se sou um besouro reencarnado ou se já fui uma princesa egípcia, que diferença faz? Minha consciência é que me guia, não minhas abstrações. Sou quem sou, sou aquela que pode ser lembrada. Não me conforta ser uma especulação.

É provável que ainda não tenha nascido aquele que será o último a me recordar, a rever minhas fotos, a falar bem ou mal de mim. Nem tive netos ainda. Qual será a data de minha morte definitiva? Não será a do meu último suspiro, e sim a do último suspiro daquele que ainda me carrega na sua lembrança afetiva – ou no seu ódio por mim, já que o ódio igualmente mantém nossa sobrevivência. Cafajestes e assassinos também se mantêm vivos através daqueles que lhes temeram um dia.

Nessa véspera de Finados, queria fazer uma homenagem a ele: ao último ser humano a lembrar de nós, a ter saudade de nós, a recordar nosso jeito de caminhar, de resmungar, o último a guardar os casos que ouviu sobre nós e a reter nossa história particular. O último a pronunciar nosso nome, a nos fazer elogios ou a discordar de nossas ideias. O último a permitir que habitássemos sua recordação. Bendita seja essa criatura, que ainda nos manterá vivos para muito além da vida.

Bendita seja essa criatura, que ainda nos manterá vivos para muito além da vida


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Pequeno manual da civilidade

As pequenas vantagens de virtudes grandemente subestimadas, analisadas por quem entende tudo do assunto, desde sempre

Juliana Linhares - Montagem sobre foto divulgação
NÃO LIBERTE O MONSTRO QUE EXISTE EM VOCÊ



A vida em estado natural: "Solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta"

Engana-se quem pensa que civilidade é uma matéria relacionada a senhores pomposos e mesas cobertas de talheres esquisitos. Mas é verdade que o tema foi tratado por cavalheiros com quilometragem de pelo menos alguns séculos.

Tudo o que disseram, porém, sobre a necessidade de convenções sociais para promover a boa convivência e administrar conflitos permanece de urgente contemporaneidade. Quando Schopenhauer, o gigante da filosofia alemã do século XIX, dizia que as pessoas deveriam seguir o comportamento do porco-espinho - se fica muito perto de seus pares, morre espetado; se fica muito longe, morre de frio -, não estava pensando no uso do telefone celular em público, mas bem que poderia.

Thomas Hobbes, um dos gênios do pensamento político produzidos pela Inglaterra, constatou no século XVII que em estado natural, sem as construções sociais, "a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta".

Em outras palavras, um congestionamento em São Paulo em dia de chuva. Por isso, emergem leis necessárias, entre as quais que "os homens cumpram os pactos que celebrarem" (e não parem em fila dupla, por exemplo) e "não declarem ódio ou desprezo pelo outro por atos, palavras, atitude ou gesto" (e não façam perfis falsos na internet).

Especialistas em ética, comportamento e controle dos monstros interiores fazem análises e sugestões nesse pequeno manual das virtudes da civilidade. Todo mundo pode aprender - e até lucrar com elas.

"O stress é causado em grande parte por relacionamentos humanos mal resolvidos. Se melhorarmos a capacidade de nos relacionar, teremos menos brigas, menos stress e, consequentemente, menos processos e pessoas doentes", diz o italiano Piero Massimo Forni.

Professor da Universidade Johns Hopkins e um dos maiores especialistas mundiais no estudo da civilidade, ele até calculou o custo da falta dela nos Estados Unidos: 30 bilhões de dólares por ano. Já pensaram se ele conhecesse o Congresso brasileiro?

Questão de honra

Houve um tempo em que tudo girava em torno dela: ter honra era ser um legítimo membro da tribo; não ter, preferível morrer. O conceito de honra, na sua interpretação mais tradicional, nasceu na Grécia antiga, foi remodelado em Roma e reemergiu na Idade Média.

"Na época feudal, a honra era uma qualidade atribuída aos nobres, essencialmente guerreiros, cuja função social era proteger o rei, as crianças e as mulheres", diz Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Unicamp. Hoje, a HONRADEZ pode ser mais relacionada à fidelidade aos próprios princípios ou ao próprio eu.

Ou, no popular, ter vergonha na cara. É por isso que o tribunal da própria consciência continua a pesar mesmo quando se alega que "todo mundo faz", a começar dos "caras lá de cima", então "que mal tem" em levar a avozinha para passar na frente na fila de comprar ingresso, desrespeitar a precedência na hora de pegar uma vaga no estacionamento do shopping ou deixar uma toalha guardando lugar o dia inteirinho na espreguiçadeira da piscina disputada? O mal, evidentemente, está em desprezar a própria dignidade.


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Sexta-feira, Outubro 30, 2009


JOSÉ SIMÃO

Ueba! Vampiro suga a marginal!

BR é abreviatura de buraco! BR 101 quer dizer que a estrada tem 101 buracos!


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Ueba! Mais um feriadão! O brasileiro é um feriado! O Lula tem que lançar mais uma emenda provisória: EMENDA até o fim do ano! E o que abre e o que fecha nesse feriadão? AS PERNAS!

As pernas e a porta da geladeira!

E sabe por que a novela tem intervalo? Pra esfriar o pingolim do Zé Mayer! E adorei a charge do Sponholz: saiu o primeiro contemplado do programa Minha Casa, Minha Vida! O Zelaya. "Muchas Gracias. Embajada del Brasil.

Tu Casa, Mi Vida!" E notícia de todo feriadão: "Trânsito lento na rodovia Ayrton Senna". "Tudo parado na rodovia Ayrton Senna." Lento e parado? Então muda o nome pra Rodovia Rubens Barrichello! E ainda por cima, a marginal em obras! É o Serra! Vampiro suga a marginal! Rarará!

E essa buemba: "Polícia de São Paulo apreende aranhas vivas". Ainda bem que são vivas.

A única aranha morta que eu conheço é a da Hebe! O cara recebeu as aranhas pelo correio direto de Belém do Pará. E sabe onde ele comprou as aranhas? Num site de relacionamento. Rarará. É verdade! Por 400 contos! É que veneno de aranha cura impotência! É verdade!

A Ana Maria Braga mostrou no programa. Quer dizer, mostrou a notícia, não a aranha. Porque Halloween é só no sábado! E precisa ser veneno de aranha viúva-negra! E como disse o outro: "Aranha sempre me deixou excitado, independente do estado civil. Pode ser viúva-negra, loira solteira ou ruiva divorciada".

E péssima notícia pra quem vai pegar estrada: "70% das estradas têm problemas". BR é abreviatura de buraco! BR 101 quer dizer que tem 101 buracos. Já tem buraco esperando no acostamento!

E adorei a charge do Marco Aurélio pro Rio-2016. Faixa estendida no Pão de Açúcar: "FAVOR NÃO ATIRAR NOS ATLETAS!". E esse Zina do "Pânico" tem que se benzer: BENZINA! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão.

Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que no Rio Grande do Sul tem uma churrascaria chamada Dois Irmãos. Com a faixa "Grelhados no Carvão"! Dois Irmãos Grelhados no Carvão! Rarará! Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Prolixo": destino dos discursos do companheiro Lula. PRO LIXO! Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br

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Quinta-feira, Outubro 29, 2009



29 de outubro de 2009 | N° 16139
LETICIA WIERZCHOWSKI


Da parte que nos cabe

Há duas semanas, a norte-americana Elinor Ostrom dividiu com seu compatriota Oliver Williamson o Prêmio Nobel de Economia. Elinor foi laureada pela Real Academia Sueca de Ciências por sua pesquisa que demonstra como propriedades compartilhadas podem ser gerenciadas com êxito por associações de usuários.

A tese de Elinor, focada na análise de florestas, pastagens e lagos, derruba a noção de que o poder público deve ser o único responsável e grande atuante na manutenção do bem comum.

Não entendo nada de economia, mas a senhora Ostrom mostrou (e convenceu os caras) que todos nós devemos fazer a nossa parte, e podemos fazê-la muito bem, obrigada. O recado é claro: temos que cuidar juntos deste planeta que dividimos e viemos usando tão egoisticamente.

Alguém pode imaginar maior associação de usuários que essa, a dos habitantes do planeta Terra? Ok, todos os governos devem fazer a sua parte, as grandes indústrias devem fazer a sua parte, mas você e eu, caminhantes, cidadãos e consumidores, temos que contribuir com o nosso modesto quinhão.

Impressionou-me o resultado de uma pesquisa divulgada recentemente pelo Ministério do Meio Ambiente: no Brasil, são consumidas 1 milhão e 500 mil sacolas plásticas por hora. Imaginem a gigantesca montanha de sacolas que somamos num único dia, e agora pensemos quantos milhares dessas sacolas vão parar nos bueiros, entupindo encanamentos e prejudicando o escoamento da água nas ruas e avenidas (avenidas que irão alagar na próxima chuvarada), e quantos milhares dessas sacolas finalmente vão parar no fundo dos mares e dos rios, matando flora e fauna marinha.

Evidemente, a maioria dessas sacolinhas não segue para o lixo reciclado: seu destino é apodrecer lentamente, envenenando o solo por 400 anos, até seu completo desaparecimento.

Quatrocentos anos por uma reles sacola plástica? O Taj Mahal levou 22 anos para ser erguido. A cidade de Chichén Itzá foi construída em menos de 15 anos pelo povo maia. O Cristo Redentor precisou de 5 anos para abrir seus braços sobre o Rio de Janeiro, e o Coliseu Romano gastou 10 anos até acolher as primeiras lutas de gladiadores.

É claro que a maioria dessas maravilhas precisou do trabalho constante de milhares de homens para ficar pronta; porém, o mesmo fazemos nós: somos milhares, diariamente, descartando tranquila e repetidamente nossas sacolas plásticas, criando o nosso monumento ao não-futuro. Um grande não-trabalho em equipe, enquanto alguns ganham prêmios por provar que somos capazes de fazer justamente o contrário.


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Quarta-feira, Outubro 28, 2009



A morte do e-mail

Cresce o número de internautas que usam as redes sociais para trocar mensagens, deixando em segundo plano o "velho" correio eletrônico

DANIELA ARRAIS - DA REPORTAGEM LOCAL

Você checa e-mail várias vezes ao dia, usa sua caixa de entrada como um arquivo da sua vida e até manda lembretes para si mesmo sobre o que tem que fazer? E acha que a sua relação é a mais natural possível com a internet?

Então saiba que o e-mail, criado nos anos 1960, é uma ferramenta que tem perdido espaço na rede. O crescimento de redes sociais como Orkut e Facebook e de serviços como o Twitter aponta que usuários estão tentando se comunicar com mais velocidade.

Os adolescentes puxam essa onda. Pesquisa do Pew Internet & American Life Project, dos Estados Unidos, aponta que o e-mail vem perdendo espaço para os mensageiros instantâneos e o SMS como forma de se conectar com os amigos.

"O e-mail é visto como uma ferramenta usada para se comunicar com "gente velha", como pais e professores", afirmou em entrevista à Folha a pesquisadora Mary Madden.

Ferramentas como o Wave, do Google, reforçam a tendência ao enaltecer a multiplicidade e a instantaneidade.

"Embora o e-mail seja um formato de comunicação muito importante, a partir de agora só decairá no uso", afirma João Paulo Cavalcanti, sócio da Box 1824, empresa de pesquisa de tendências.

Ele cita estudo da Nielsen que aponta que o uso de softwares sociais superou a penetração do uso de e-mail. "Ou seja, os softwares sociais, principalmente o Facebook, já representam a principal forma de relacionamento via internet."

Nesta edição, veja como adolescentes se comunicam, leia como questões de insegurança afastam usuários e confira apostas para o futuro.


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28 de outubro de 2009 | N° 16138
MARTHA MEDEIROS


Confie em Deus, mas tranque o carro

Mike Tyson segue na mídia: andou sendo entrevistado pela Oprah e fazendo um mea-culpa por uma vida inteira de desvios de comportamento. Isso me fez lembrar de quando ele foi acusado de estupro pela ex-miss Desiree Washington, em 1991. A moça havia entrado no quarto com ele, de madrugada e, ao que consta, desistiu de levar adiante a brincadeira.

Qualquer pessoa tem o direito de desistir do ato sexual na hora H e o parceiro tem o dever de respeitar a decisão, por mais fulo da vida que fique, mas deixar Mike Tyson fulo não é algo que uma pessoa de juízo arrisque. Na época, a escritora Camille Paglia disse que Tyson errou, logicamente, mas que a moça era uma idiota.

E justificou sua opinião dando o seguinte exemplo: se você estaciona seu carro numa rua escura e deixa a chave na ignição, não significa que ele possa ser roubado. Mas, se for, você foi um panaca.

Essa história sempre me volta à cabeça quando começo a ouvir algum “ai de mim”, que é o mantra das vítimas. Fico prestando atenção na história e, quase sempre, descubro que o mártir deixou a chave na ignição.

São os casos de garotas que se deixam filmar nuas pelo namorado e depois descobrem que viraram as musas do YouTube, garotos que dirigem alcoolizados a 140 km/h e acordam no outro dia no hospital, ou artistas que vivem dando barraco em público e depois se queixam por serem perseguidos por paparazzi. Eles devem se perguntar, dramáticos: onde está Deus nessa hora, que não me ajuda?

Está ajudando a encontrar sobreviventes de um tsunami ou consolando quem tem um câncer em metástase, porque esses, sim, são vítimas genuínas: mesmo deixando seus carros bem trancados, foram surpreendidos pelo destino.

“Não há prêmio ou punição na vida, apenas consequências.” Não sei quem escreveu isso, mas está coberto de razão. Sorte e azar são responsáveis por uns 10% do nosso céu ou inferno, os 90% restantes são efeitos das nossas atitudes.

Vale para o trabalho, para o amor, para o convívio em família, para o dinheiro, para a saúde da mente e também do corpo. Reconheço que os governos não ajudam, que certas leis atrapalham, que a burocracia atravanca, que o cotidiano é cruel, e até as disfunções climáticas conspiram contra. Ainda assim, avançamos (prêmio) ou retrocedemos (punição) por mérito ou bananice nossos.

Então, tranque o carro numa rua escura e também dentro da sua garagem, não entre no quarto de um neanderthal se você não estiver bem certa do que deseja, não deixe uma vela acesa perto de uma janela aberta, pense duas vezes antes de mandar seu chefe para um lugar que você não gostaria de ir, não tenha em casa Doritos, Coca-Cola e Ouro Branco se estiver planejando perder uns quilos e lembre-se do que sua bisavó dizia: regue as plantas, regue suas relações, regue seu futuro, porque sem cuidar, nada floresce.

E, por via das dúvidas, confie em Deus também, que mal não faz.

Uma excelente quarta-feira ensolarada por aqui, para todos nós.


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Terça-feira, Outubro 27, 2009


JOSÉ SIMÃO

Socuerro! Carla Perez vira apostila!

E o Lula, que fez aniversário? O corpinho é de 64, mas a cara é sempre de 51!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! É que um amigo meu estava prestando um concurso e comprou uma apostila resumida. Como era o nome da professora? CARLA PEREZ!

Carla Perez! Rarará! Carla Perez vira apostila. Com "i" de iscola e "e" de esqueiro! E ela foi pro programa do Silvio Santos e disse que o Alasca era uma praia! Neve e areia é tudo branco mesmo! Ela faz esquibunda nas dunas do Alasca!

E o Lula, que fez aniversário? Vocês viram na TV? O Lula fez 64 anos. Com aquela cara de 51. O corpinho é de 64, mas a cara é sempre de 51! E a boca da dona Marisa? Completou 64 plásticas. Ela tá com a boca da Aline Moraes. Boca de bico de tênis Conga.

E essa: "Sarney fechará fundação que leva seu nome no Maranhão". Se ele fechar tudo que leva seu nome no Maranhão, o Maranhão acaba. Ele fechou a Afundação Sarney. Mas não é onde ele seria sepultado? Então ele não tem mais onde cair morto! Campanha: "Arrume um lugar pro Sarney cair morto e seja feliz!".

E essa vem direto da Cópula do Clima de Copenhague: "A vaca é uma bomba climática!". Flatulência de gado esquenta o planeta. Botaram a culpa na vaca! Pum de vaca avacalha o planeta. A vaca é PUMluidora. A PUMluição!

E querem que os fazendeiros paguem imposto. Já imaginou se a moda pega: IPUMtu e IPUMva! Rarará! E ainda acaba com a maior diversão do ser humano: soltar pum embaixo do cobertor! E sabe o que o planeta disse pros ecologistas? Me deixem morrer em paz! Rarará!

E um amigo me disse que o Palmeiras tá parecendo a Vanusa cantando o hino! Um sincroniiiiiismo! Sujão na Chavezuela! Chávez quer que os companheiros tomem banho de três minutos pra economizar. Lembrar da namorada ou da vizinha durante o banho nem pensar. Como disse aquele venezuelano: "Não dá nem pra bater uma no chuveiro!".

Na Venezuela a única coisa que se bate é continência. Rarará! Manda o Chávez botar aquela placa no chuveiro: "Favor lavar só o que for usar hoje!". Quem tomar banho é inimigo da pátria! Ianque de mierda! Venezuelano não é porco, é patriota!

É mole? É mole, mas sobe. Ou, como disse aquele outro: é mole, mas chacoalha pra ver o que acontece.

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Penúria": companheira galinha. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

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27 de outubro de 2009 | N° 16137AlertaVoltar para a edição de hoje
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

Um traço de ternura

Encontro por acaso uma dama que não vejo há anos. Ambos sorrimos, conversamos uns momentos, ela conta que continua morando no Exterior, que tem agora duas filhas pequenas – e então há um instante de silêncio em que nos fitamos e nos despedimos como se nos tornássemos a ver amanhã.

Não sei quando a reencontrarei. Mas eu amei essa mulher. Foi um suave romance num mês de outubro e nos separamos sem mágoas nem queixas. Lembro que, à época, eu ia viajar para a Europa e prometi lhe trazer um relógio-cuco e que ela me respondeu que não trouxesse, que detestava a passagem impiedosa do tempo.

Creio que não tivemos uma grande paixão. Mas, como ela era muito bonita, me deixou um pouco de doçura no coração.

Agora não sei quando tornarei a falar com ela.

É esse o grande mistério das relações sentimentais. Enquanto perduram, qualquer separação é inimaginável. O distanciamento é inconcebível e a simples ideia da ausência um do outro parece insuportável.

Mas os ponteiros dos minutos tudo curam, mesmo os romances aparentemente mais indestrutíveis.

Não tenho a mais longínqua ideia de quando reverei minha amiga, ainda mais ela, que vive tão longe.

E no entanto houve uma época em que nos telefonávamos todos os dias, em que trocávamos cartas sedutoras, em que o primeiro pensamento da manhã e o último da noite eram a um e outro dirigidos.

Não sei como é a cidade em que ela mora. Suponho que, por estes dias, com a chegada do outono, o ar se faça frio, as árvores se desnudem, um vento gelado sopre pelas esquinas, caia mansamente a primeira neve. Desconfio que, num entardecer qualquer, ela sinta saudade do Brasil, e até recorde, por um breve momento, pelo espaço de um tênue sorriso, nosso encontro numa esquina.

Mas suspeito que, depois de me endereçar um pensamento de brandura, se esqueça de mim, cuide de suas tarefas na universidade, resista à tentação de me dirigir um e-mail.

Pois a vida é assim mesmo, mais inconstante do que a incerteza do mar.

Uma excelente terça-feira de sol e para quem está de folga, que seja uma folga merecida


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Segunda-feira, Outubro 26, 2009



Mais um dia para a casa própria

Desde sexta-feira, Salão do Imóvel, na Capital, já movimentou mais de R$ 15 milhões em negócios

O domingo era de Gre-Nal, mas também foi dia de fechar a compra da casa própria no 3º Salão do Imóvel, realizado no Shopping Iguatemi, na Capital. O taxista Tayrone de Souza Alves Junior era um dos que não tirava os olhos do relógio.

Tayrone tinha pressa em se livrar do aluguel, mas também de correr para uma TV e assistir ao seu time vencer o clássico do futebol gaúcho depois de conferir algumas entre as 20 mil ofertas do disponíveis no local. O evento começou na sexta e termina hoje.

Ele e a mulher, a professora Roberta dos Santos Vergottini, aproveitaram o Salão do Imóvel para assinar o contrato de compra de uma casa de dois dormitórios no valor de R$ 100 mil em um condomínio fechado em Cachoeirinha. Adquirido dentro do Programa Minha Casa, Minha Vida, o imóvel será financiado em 300 meses.

– Aproveitei que havia esses subsídios – comemorou Tayrone.

Levantamento preliminar até as 17h de ontem apontou que as 53 vendas realizadas durante o evento movimentaram R$ 15,808 milhões. Além disso, foram efetuadas nesse período pelo menos 143 reservas.

Em pleno horário do Gre-Nal, o evento estava mesmo “bombando”, segundo o termo usado por Diogo Horn, diretor da ImóvelClass, promotora do evento. O executivo atribui a movimentação (tanto em público quanto em vendas) a uma atmosfera favorável ao setor, com os incentivos do governo.

– As pessoas estão mais otimistas em se comprometer na compra de um imóvel. Nas edições anteriores do Salão, havia mais captação (pessoas que demostravam interesse na compra do imóvel). Agora, estão fechando a compra – afirma Horn.

“Olhadinha” terminou com a reserva de um apartamento

O evento conta com 86 estandes (sendo oito imobiliárias e 29 construtoras). Foi essa facilidade de reunir várias opções em um só lugar que atraiu o casal de professores Antonio Carlos e Loysa Peixoto. Eles esperavam só dar uma olhada nas ofertas, mas saíram do Salão do Imóvel com uma reserva de um apartamento estimado em R$ 750 mil em um empreendimento que nem lançado foi ainda.

– É bem na região que queríamos. Como quero uma sala grande, posso mudar na planta e transformar o apartamento de quatro dormitórios em três – planeja Loysa.

Ainda que com chuva que tenhamos uma segunda-feira gostosa e um finzinho de outubro produtivo.

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Sábado, Outubro 24, 2009



25 de outubro de 2009 | N° 16135
MARTHA MEDEIROS


Viver a vida infantilmente

Gosto das novelas do Manoel Carlos porque os personagens conversam como se não tivessem decorado o texto, é tudo muito naturalista, e assim está sendo em Viver a Vida, mas algo tem me chamado a atenção: esse naturalismo nunca foi tão infantil. Sei que uma novela é apenas uma caricatura da realidade, mas não posso deixar de reparar que a maioria dos personagens não parece ter mais do que 16 anos.

Irmãos marmanjos correm pela casa para bater um no outro. Um advogado persegue a prima da esposa e, para “pegá-la”, vive se escondendo atrás das portas ou no banco de trás do carro, provocando gritinhos histéricos na moça, que é jornalista especializada em economia.

Esse mesmo advogado outro dia foi corrido pela personagem da atriz Maria Luiza Mendonça, que o perseguiu pelo escritório com um taco de golfe nas mãos. Alinne Moraes não caminha: saltita.

Lilia Cabral interpreta uma mulher que não tolera cinco minutos de solidão e só pensa em dar o troco no ex-marido que a largou. Giovanna Antonelli e a filhinha parecem ter a mesma idade. Taís Araújo e José Mayer curtiram a lua de mel num carrossel em Paris. Búzios também parece um parque de diversões, onde se anda de conversível com os braços pra cima, como numa montanha-russa. Imagens lindas, mas é novela das oito mesmo?

Não é Malhação?Não faz tanto tempo assim, pais e filhos não se vestiam igual, fofocas maliciosas não faziam parte das conversas de gente grande, as relações não eram descartáveis como latinhas de refri, envelhecer não parecia tão trágico, não havia tantos brinquedinhos tecnológicos para maiores de idade, e os papéis eram mais bem definidos: crianças e adolescentes tinham o direito de brincar e se divertir, enquanto os adultos colocavam ordem no galinheiro.

Piorou? Não. Acho ótimo que possamos ser joviais e divertidos até os 100 anos, mas é bom ficarmos atentos para não cair na cilada de achar que só os imaturos sabem viver a vida.

Manoel Carlos tem fama de escrever novelas realistas e está fazendo exatamente isso. Tempera todas as cenas com muxoxos, beicinhos, chiliques, deslumbramentos, birras e flertes, escancarando uma fatia da sociedade que parece não saber mais se comprometer, nem trocar ideias sem agredir, nem aceitar o sofrimento.

Uma das exceções é a personagem da atriz Lica Oliveira, que faz a charmosa mãe da Helena e que demonstra ter abandonado faz tempo o jardim de infância, esbanjando elegância e bom senso.

É novela, criatura!!

Eu sei, eu sei. E é possível que essa infantilização seja uma estratégia para contrastar com o dramalhão que vem pela frente. Mas não custa refletirmos sobre o que parece bobo, mas não é: o desprestígio da maturidade nos tempos atuais. Sei que, no fundo, somos todos crianças grandes, só que não dá pra perder a compostura e sair atrás de quem nos enerva com um taco de golfe nas mãos. Viva a espontaneidade juvenil, mas nosso lado adulto merece continuar com algum ibope.

Ainda que com chuva, que possamos ter um lindo domingo e um ótimo início de semana.


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Quase uma bicicleta

O minicarro elétrico idealizado por Jaime Lerner foi projetado para ser alugado em terminais de transporte coletivo e percorrer pequenas distâncias

Marcelo Bortoloti
Juliana Braz


O MENOR DO MUNDO
Lerner ao lado do Dock Dock: inspirado na experiência de Paris

Em 1974, quando era prefeito de Curitiba, o arquiteto e urbanista Jaime Lerner implantou um modelo de transporte público que se tornaria referência mundial. O Ligeirinho, mais tarde batizado de BRT (Bus Rapid Transit), sistema de ônibus com pistas exclusivas e embarque similar ao das estações de trem, foi copiado em 83 cidades no mundo.

Agora, Lerner está lançando um projeto no outro extremo da cadeia do transporte urbano: um veículo movido a energia elétrica com capacidade para uma única pessoa.

O Dock Dock, cujo protótipo será apresentado no fim desta semana no Rio de Janeiro, é o menor carro elétrico já concebido: mede 60 centímetros de largura, 1,38 metro de comprimento e 1,5 metro de altura. Atinge velocidade máxima de 20 quilômetros por hora e foi pensado para circular em faixas compartilhadas com pedestres, bicicletas e locais onde o trânsito de automóveis é restrito. Sua inspiração vem do Velib, sistema de bicicletas públicas de Paris.

A ideia é que os veículos funcionem como complemento do sistema de transporte coletivo, possibilitando deslocamento mais rápido do que o permitido pela caminhada e mais confortável do que sobre uma bicicleta. Como no modelo parisiense, os carrinhos serão alugados em áreas de grande circulação, próximas aos terminais de ônibus ou metrô. Os usuá-rios poderão retirá-los e devolvê-los em qualquer estação, pagando com cartão de crédito.

Essa é a grande diferença entre o Dock Dock e outros minicarros elétricos, como o Puma, da General Motors e da Segway, com lançamento previsto para 2012, que é um veículo para ser comprado e guardado na garagem do usuário, como qualquer outro.

O projeto se escora em experiências internacionais bem-sucedidas, que demonstraram a eficiência do complemento individual ao transporte público. Depois do êxito no projeto do Velib, a prefeitura de Paris planeja, para o fim de 2010, implantar o Autolib, um carro de uso coletivo, para até quatro pessoas. Serão disponibilizados 3 000 veículos elétricos em mais de 1 000 pontos da cidade.

Outra iniciativa interessante nessa linha é o Personal Rapid Transit, um veículo elétrico para até quatro pessoas que circula sobre trilhos com estações situadas a pequena distância. Ele dispensa motorista – é o usuário quem aciona um botão correspondente à estação em que deseja saltar. Um modelo piloto está sendo construído no aeroporto internacional de Londres.

A ideia central é que o transporte de massa consegue resolver o problema de grandes deslocamentos. Mas não acaba com a necessidade de deslocamento individual dentro de um mesmo bairro ou entre bairros vizinhos. "Isso provoca alguns dos principais problemas no trânsito das metrópoles", diz José Eugênio Leal, professor de engenharia de transporte da PUC-Rio.

James Leynse/Corbis/Latin Stock

NO FILÃO DOS CARROS ELÉTRICOS
O pequeno Puma, que será lançado em 2012 pela General Motors e pela Segway

O conceito de transporte complementar pode funcionar especialmente bem nas regiões centrais de grandes cidades que adotaram a opção de banir, ou reduzir drasticamente, a circulação de automóveis.

É o caso de Nova York, que, desde maio deste ano, interditou ao tráfego parte da Broadway, na Times Square. Um trecho de cinco quarteirões transformou-se numa área ampla onde só é possível circular de bicicleta ou a pé.

O Brasil também se movimenta nessa direção. São Paulo aprovou em junho um projeto de lei que prevê a restrição gradativa dos automóveis particulares no centro. No Rio, existe a intenção da prefeitura de fechar ao tráfego uma das principais avenidas centrais, a Rio Branco. Lerner enxerga aí um filão para seu veículo.

Mas sua ambição é maior que essa.

Quer fazer dele um complemento ao transporte coletivo em qualquer local de uma grande cidade.

Ainda que seja preciso construir ciclofaixas por onde passem bicicletas e seus Dock Dock. Diz Lerner: "Pode parecer complicado, mas é mais fácil do que foi construir as faixas exclusivas de ônibus".


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Sexta-feira, Outubro 23, 2009


JOSÉ SIMÃO

Ueba! Sabrina Sato sem calcinha!

Kit "Ai Que Vergonha" tem camisa do Flu, boné do Rubinho, cueca do Suplicy e DVD do Joel!


BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Polícia acha maconha dentro de sanduíche no interior de São Paulo. Qual é o nome da cidade? BAURU! Rarará! PM acha sanduíche de maconha em rua de Bauru!

E a faixa numa loja de sapatos: "Na compra acima de R$ 300, ganhe uma rasteira de brinde". Rasteira é sandália. Você gasta R$ 300 e leva uma rasteira. Do segurança! Vupt! Se gastar R$ 600, então? Leva uma voadora! No peito!

E adorei a charge do Duke sobre a Riolência 2016: dois cariocas conversando. "Rio 2016?" "Não, M-16."

RIO M-16! E o Zé Mayer, hein? O Galã Galinha! Ele é igual ao Romário: atacante da terceira idade! Viagra pro Zé Mayer é calmante.

E a filosofia do Zé Mayer: Deus é dez, Robinho é 11, uísque é 12, Zagallo é 13 e acima de 18 eu tô pegando! E todo mundo sabe que quem botou a cueca vermelha no Suplicy foi a Sabrina Sato. E o site Éramos6 tá lançando a campanha: "Não queremos a cueca do Suplicy, queremos a Sabrina sem calcinha!".

E a Dilma casou com o PMDeiBem. Ueba! Agora sim. Pomos a Mão no Dinheiro do Brasil. Partido da Mutreta da Demência Brasileira! E depois do escândalo do Enem, o MEC mudou de significado. MEC quer dizer Melhor Estudar em Casa!

Rarará! E cresce o kit "Ai Que Vergonha": uma camiseta do Fluminense (mas um torcedor do Flu me disse que não é camiseta, é "manto sagrado"), a cueca vermelha do Suplicy, um DVD do Joel Santana falando ingrêis e o boné do Barrichello.

Usou o boné do Rubinho, cai uma tartaruga na cabeça! E tem mais: o hino da Vanusa e o Galvão torcendo pra chover! É mole? É mole mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!

Antitucanês Reloaded, a Missão! Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Mudé, no Pará, tem um motel chamado COME CRU! Deve ser o motel dos apressados.
Mais direto impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Pensão alimentícia": companheiro que teve filho com a dona da pensão.

O lulês é mais fácil que o ingrêis. O ingrêis do Joel Santana. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou!

simao@uol.com.br

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TENDÊNCIAS/DEBATES - DENIS MIZNE

Por um tênis e um casaco?

Não é o primeiro episódio de desmoralização de uma política de segurança fracassada. A hora agora é a de limpar a polícia

POR UM tênis e um casaco, um homem perdeu estupidamente a vida nas ruas do centro do Rio no último fim de semana. Uma vida interrompida à toa por dois garotos e um 38 numa noite qualquer.

Por um tênis e um casaco, um trabalho foi interrompido. A vida arriscada de educador social, atuando nas áreas mais violentas do Rio de Janeiro, atraindo garotos e garotas para que nunca roubassem nem matassem à toa pelas ruas da cidade, foi brutalmente estancada.

Por um par de tênis e um casaco, dois policias militares deixaram um corpo agonizando, venderam a liberdade de latrocidas e jogaram no lixo o que restava de credibilidade de sua corporação. Por um par de tênis e um casaco.

Por um par de tênis e um casaco, policiais irresponsáveis só fazem confirmar a incompetência crônica de um Estado omisso e colocam em risco exatamente aquelas poucas instituições que se esforçam para mostrar que há muitas coisas boas nas polícias, muitas coisas boas na cidade, luz no fim do túnel, esperança.

Não é o primeiro episódio de desmoralização de uma política de segurança fracassada, que não investe nem cobra seus policiais e que prefere que cortem a carne dos outros a cortar a sua própria.

Também não é uma exceção. Não quando se vende a liberdade por um par de tênis e um casaco, no centro da cidade, do alto da patente e sob os olhos da população. A hora agora é a de limpar a polícia.

Dar força e razão àqueles que, como o AfroReggae, nós e tantos outros, defendem que existe uma polícia cidadã, comprometida, séria.

A luta pela boa polícia só dará frutos se o Estado demitir e punir sistematicamente os maus policiais. Passar recados diferentes. Não pode, não se faz. Polícia não se vende por arma, por droga, por muito dinheiro nem por um tênis e um casaco.

O combate à corrupção nas polícias, infelizmente, é o grande ausente na agenda da segurança. Na recente Conferência Nacional de Segurança Pública, nenhuma das 40 resoluções aprovadas toca no tema. Nem os projetos de lei em debate no Congresso.

Para que esse combate aconteça na prática, é necessário o fortalecimento das instâncias de controle interno e externo das polícias.

Só metade dos Estados contam com ouvidorias, muitas das quais pecam pela falta de independência e recursos para apurar abusos.

As corregedorias, como há muito se pleiteia, poderiam ser subordinadas diretamente aos secretários da Segurança Pública, e não aos comandos, reduzindo os riscos de corporativismo.

Elas deveriam contar ainda com carreiras próprias, como já ocorre em muitos países, fazendo com que se reduza o risco de promiscuidade e coleguismo entre aqueles que de tempos em tempos podem estar juntos na rua ou em lados opostos do balcão.

É inadmissível também o reiterado silêncio do Ministério Público, tão ativo no combate à corrupção em geral, mas que peca sistematicamente em suas atribuições de controle externo da atividade policial. Quantas operações foram feitas nesse sentido?

Ao mesmo tempo em que fortalecemos os órgãos de apuração, é essencial a criação de uma legislação que permita a rápida punição, mantido o direito de defesa, de qualquer policial envolvido em ações ilegais. Tal legislação já existe em alguns Estados e poderia facilmente ser aprimorada e implantada no Rio de Janeiro.

Claro que sempre defendemos o aumento de salários e a melhoria das condições de trabalho da polícia, fatores essenciais para sua profissionalização e para aumentar a dignidade da carreira.

Mas não aceito a ideia de que baixos salários justifiquem atitudes corruptas -milhões de brasileiros ganham salários ínfimos e nem por isso passam a cometer atividades criminosas para complementar a renda. Se salários altos fossem garantia de correição, não haveria corrupção nos altos escalões das polícias ou da política.

Corrupção é caráter. A mesma cobrança que fazemos às polícias temos de fazer ao resto da sociedade. Quem acredita que corromper o policial para evitar multa de trânsito, por exemplo, é aceitável deve saber que está diretamente contribuindo para a cultura existente e os crimes cometidos.

Se esse episódio não foi o primeiro, que seja o último. Se houver disposição de enfrentar realmente a corrupção da polícia, haverá disposição renovada do lado de cá de trabalhar junto, construir caminhos para uma nova realidade.

Se há compromisso com a vida, se há indignação real por trás dos discursos inflamados, que comecem as reformas estruturais das polícias, de limpeza das instituições, sem desculpas burocráticas ou medo de retaliação. Apoio não faltará. E coragem?

DENIS MIZNE , 33, advogado, é diretor-executivo do Instituto Sou da Paz.

Uma linda sexta-feira para você e um ótimo fim de semana



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Quinta-feira, Outubro 22, 2009


CLÓVIS ROSSI

Da metamorfose à rendição

SÃO PAULO - Que Luiz Inácio Lula da Silva foi, a partir de sua vitória de 2002, uma "metamorfose ambulante", nem precisava que ele próprio o dissesse. Os fatos falavam alto e claro.

O triste, como revela a entrevista que ele concedeu a Kennedy Alencar desta Folha, é que Lula passou da metamorfose à rendição a uma realidade política horrorosa.

Disse Lula: "Qualquer um que ganhar as eleições, pode ser o maior xiita deste país ou o maior direitista, ele não conseguirá montar o governo fora da realidade política.
Entre o que se quer e o que se pode fazer tem uma diferença do tamanho do oceano Atlântico. Quem ganhar a Presidência amanhã, terá de fazer quase a mesma composição, porque este é o espectro político brasileiro".

O presidente ainda acrescentou: "Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão".
Se Frei Betto, o confessor ou ex-confessor de Lula, tivesse ensinado seu amigo direitinho, o presidente aprenderia que Cristo foi crucificado justamente porque não fez coalizão com os judas da vida.

Que Lula tivesse obsessão com a governabilidade até dá para entender. Que desista de ao menos tentar reformar a "realidade política" é um irremediável desastre.

Só para qualificar o que é essa realidade: a Fundação Konrad Adenauer, ligada à democracia-cristã alemã, divulgou há dez dias o índice de desenvolvimento político da América Latina. O Brasil consegue a proeza de ficar só no 8º lugar entre os 18 países listados. E estamos falando de América Latina, que é essa mixórdia arquiconhecida.

Tudo somado, dá para entender por que o presidente prefere que a imprensa não fiscalize o poder, apenas informe. Lula e seu partido trocaram a fiscalização do tempo de oposição pelo gozo do poder uma vez nele instalados.

crossi@uol.com.br

Uma ótima quinta-feira, ainda que com nuvens cor de cinza nesse céu do Rio Grande do Sul. Aproveite o dia

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Quarta-feira, Outubro 21, 2009



William Bonner mostra lado "quase normal" na internet

Com Twitter, apresentador do "JN" tenta se aproximar dos telespectadores

NINA LEMOS - COLUNISTA DA FOLHA

No passado, ficávamos chocados ao ver fotos de Sérgio Chapelin e Cid Moreira fora da televisão. Como assim, os apresentadores do "Jornal Nacional" existiam fora daquela bancada?

Agora, na era da internet, o robô tomou corpo (virtual). E acompanhamos com interesse o Twitter do William Bonner, o Sérgio Chapelin moderno. Acessando a internet, podemos ver que ele existe de verdade.

Fora da bancada, ele lê antes de dormir para os filhos, corre de um lado para o outro e parece até que é um de nós, reles mortais desprovidos da moeda da fama. Bonner é tão humano que se irrita com comentários de "seguidores" e os responde. Alguém imagina o Chapelin discutindo?

No Twitter, os famosos ganham voz. E se sentem "normais", como disse Bonner em uma entrevista. Deve ser triste só se sentir normal em um espaço virtual, mas enfim. O que faz o @realwbonner (apelido que ele usa no Twitter) na sua vida "normal-real-virtual"?

Entre outras coisas, ele explica que é normal. "Sou uma pessoa rigorosamente quase normal", escreve. E se diverte postando fotos de sua poltrona favorita, de seu cachorro e por aí vai.

E o público aplaude, ou melhor, segue. William Bonner tem 141 mil seguidores. Isso significa que essas pessoas, sempre que acessarem o Twitter, poderão receber as informações que ele acabou de postar.

Entramos com gosto na intimidade do apresentador do "Jornal Nacional", até antes inanimado, e ficamos chocados com coisas simples. "Como assim, ele gosta de brigadeiro?"

Enquanto isso, a celebridade em questão brinca em um quintal onde se sente livre para comentar as coisas da vida que quem não é famoso comenta com o taxista.

Mas a nossa intimidade com Bonner parece maior do que a que temos com passantes que cruzamos na rua. Sabemos de antemão, por exemplo, que no dia tal ele não estará apresentando o jornal. Está ali, escrito em seu Twitter, com antecedência.

E sabemos até o motivo! Ele deu uma palestra e só dormiu três horas (coitado!). Se já nos sentíamos íntimos de uma pessoa que entra todos os dias em nossas casas, agora nos sentimos praticamente parte do seu círculo familiar.

Agora, nossa relação com o "Jornal Nacional" corre o risco de não acabar nunca mais. Podemos acompanhar o dia do apresentador, que twitta cerca de 15 vezes diariamente, e até ajudar a escolher seu figurino.

Ele faz enquetes no microblog, nomeadas por ele de "interativas", nas quais os internautas podem, por exemplo, escolher a cor da gravata que ele vai usar. Nesse caso, podemos nos sentir praticamente a Fátima Bernardes. E depois de desligar a TV, ainda podemos acompanhar seu trajeto para casa e receber um "boa noite".

Não é por acaso que o apresentador do "Jornal Nacional" nunca esteve tão em evidência. Ele nunca esteve tão próximo de nós, telespectadores. Agora, quem diria, o apresentador é nosso amigo virtual (como se isso significasse alguma espécie de amizade real).

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21 de outubro de 2009 | N° 16131
MARTHA MEDEIROS


Insultos e piadas ruins

Dois episódios foram bastante comentados semana passada, ambos definidos como insultuosos. Um deles foi uma brincadeira que a apresentadora Sabrina Sato, do Pânico na TV, armou para o senador Eduardo Suplicy.

Ele foi convidado a vestir uma sunga vermelha de super-herói. Notório boa paz, Suplicy vestiu a sunga por cima do terno, o que bastou para o corregedor-geral do Senado, Romeu Tuma, abrir uma investigação para definir se houve quebra de decoro parlamentar. Anteontem, Tuma voltou atrás.

Outro assunto foi o vídeo que Maitê Proença gravou para o programa Saia Justa, em que ela aparece em Portugal tirando um sarro dos lusitanos. Conseguiu desagradar lá e aqui também, já que muitos brasileiros colocaram o vídeo na rede acompanhado de ofensas múltiplas à atriz.

Ambas as reações me pareceram superdimensionadas. Suplicy tem aquele jeito bobo e acaba pagando uns micos desnecessários, mas, até onde se sabe, é um político honesto – a Corregedoria- Geral certamente tem casos mais sérios de quebra de decoro pra investigar.

E Maitê gravou um vídeo adolescente. Não estava traçando um perfil oficial dos portugueses, e sim valendo-se da prática mundial de perder o amigo, mas não perder a piada. Foi deselegante? Até foi, mas só porque o Saia Justa não é catalogado como um programa de humor. Se o Casseta e Planeta tivesse produzido o mesmo vídeo, ninguém acharia nada de mais.

Muita gente se defende de suas grosserias dizendo: eu estava apenas brincando. E sabemos que estavam. É fácil perceber quando alguém está tentando promover diversão à custa de um comentário ou de um ato.

Isso não impede que esse alguém tenha péssimo gosto para brincadeiras, e acabe ofendendo. Nem todo mundo tem desconfiômetro. Mas não se pode colocar os maus piadistas no mesmo rol daqueles que agridem com a intenção explícita de detonar com o bem-estar do outro.

Eu me sinto insultada cada vez que pago uma exorbitância de imposto e sigo sem segurança para sair às ruas. Me sinto insultada por políticos falastrões que não se importam com seus eleitores.

Me sinto insultada por quem mente e comete injustiças para salvar a própria pele. Em contrapartida, não me sinto insultada quando falam mal de brasileiros, de mulheres, de publicitários, de colorados ou de qualquer categoria a que eu pertença, porque sei que são generalizações, não uma acusação individual. Relativizo justamente porque a intenção é fazer graça, mesmo que não tenha graça nenhuma. Só a falta de humor é que cria mártires.

Ninguém precisa aplaudir grosserias, deselegâncias e palhaçadas. O ideal seria que vivêssemos no melhor dos mundos, mas pra isso Deus teria que começar o trabalho dele do zero.

Como eu duvido que ele ponha a mão nessa maçaroca de novo, nós mesmos é que temos que aprender a brigar pelo que é sério, e não gastar nossa cólera por causa de algumas piadas ruins, sejam elas protagonizadas por um senador meio crianção ou por uma participante de um programa de amenidades.

Tem gente que se sente insultada até pela felicidade dos outros, não tem? Então cuidado. Mantenhamos nosso direito à crítica, mas controlemos a paranoia.

Uma linda quarta-feira para você.

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Terça-feira, Outubro 20, 2009



20 de outubro de 2009 | N° 16130AlertaVoltar para a edição de hoje
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA

Em preto e branco

Há um aroma que tem o poder de me devolver instantaneamente à infância. É o cheiro de livros novos. No mês de março dos longínquos Anos Dourados, você passava em seu colégio e lhe davam uma lista de tudo o que iria precisar para voltar à sala de aula.

Então era só ir à Rua da Praia e passar na Companhia Editora Nacional ou na Globo e aprovisionar-se de lápis, caneta, tesoura, cartolina, e naturalmente de todos os compêndios que seu curso iria exigir.

Tudo recendia a novo, mas nada tanto quanto os volumes zero quilômetro de português, matemática, história ou geografia. Sinto agora, neste momento em que escrevo, a fragrância daquelas capas virgens, que iriam me acompanhar por todo o ano escolar. E é claro que me bate também uma saudade de idades a que nunca mais voltarei.

Me lembro disso porque acabo de ler na Veja que o Brasil está na rota do Kindle. Não se trata de nenhum bombom, mas de um e-reader, ou leitor eletrônico, um prodígio de 585 dólares, que se conecta à rede de telefonia celular de uma imensa estante digital, aí incluído o último romance de Dan Brown.

Os consumidores potenciais desse lançamento da Amazon são 90 milhões de pessoas. A meta é óbvia: oferecer um sucedâneo ao livro.

É a própria revista aliás que descreve magistralmente este último produto. É um objeto impresso em papel. Funciona sem bateria, dispensa o manual do usuário, suporta quedas, é barato e pode ser substituído a um custo mínimo.

É, portanto, uma invenção tecnologicamente perfeita. Não por acaso, atravessou mais de 500 anos como o mais simples e prático instrumento para o registro e a transmissão de ideias. Ao que acrescentaria eu que igualmente para a comunicação de sentimentos, desejos e abstrações.

O Kindle, cujo nome deriva dos verbos acender e iluminar, em inglês, passará, além do Brasil, a ser comercializado em 99 países. Só nos Estados Unidos, já vendeu mais de um milhão de unidades.

É um portento. Espelha uma civilização movida a bits e bytes. E no entanto os e-readers só decolaram depois que conseguiram imitar, eletronicamente, a impressão tradicional, feita no papel. A tela dos leitores é formada por milhares de pequenas cápsulas com pigmentos claros e escuros. No total, há 16 tons de cinza.

Já não sei quanto a outras cores. Pois um simples livro daqueles comprados no começo do ano podia ser preto e branco.

Mas nele cabia toda a sabedoria do universo.

Bem de volta ao nosso aqui e agora. Que a terça-feira seja ótima para quem trabalha e para quem está de folga.


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Domingo, Outubro 18, 2009


JOSÉ SIMÃO

Ueba! O Zé Mayer derruba todas

E tem uma amiga que vai mudar o nome pra Helena pra ver se ele se anima

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!

Continuo com a minha série Os Predestinados! Uma amiga levou o pai no geriatra e adivinha o nome dele? José Carlos Aquino VELHO! E o superintendente da Pirelli Pneus?

Carlos REDONDO! E o delegado de entorpecentes de Campinas? APOCALYPSE JOIA! E um amigo gaúcho tem um urologista chamado Giorgio RABOLINI! É o que eu digo: não é vocação, é predestinação!

E a última da Igreja Universal: Edir Macedo é o nosso pastor e NADA NOS SOBRARÁ! E sabe o que significa ENEM? Eu Não Estudo Mais! ENEM eu! Rarará! E o Zé Mayer, hein? Toda novela ele já entra derrubando todas. Eu vou escrever a biografia do Zé Mayer, o comedor.

Na casa do Zé Mayer nem o azeite é virgem! E o Zé Mayer deu palestra pra um auditório lotado e espirrou.

Foram registrados 42 orgasmos. O Zé Mayer pra dormir não conta carneirinhos, conta Helenas. E Deus disse: "Faça-se a luz!". E o Zé Mayer gritou: "Deixa essa porra desligada que eu tô transando".

E aí o homem falou pra esposa: "O Zé Mayer disse que transou com todas as mulheres do prédio, menos uma". E a mulher: "Então deve ser a nojentinha do sexto andar". Rarará! E tem uma amiga que vai mudar o nome pra Helena.

Pra ver se o Zé Mayer se anima! E o Zelaya ganhou um prêmio.

Prêmio NONDURAS 2009! E Honduras vai levar o Zelaya pra Copa.

Porque ele é especialista em embaixada. Vai ficar fazendo embaixadinhas. A Embaixada da Mãe Joana. La Embajada de La Madre Juana!

E o lançamento dos bonecos Obama e Michelle? O Brasil também podia lançar. Boneca Marta, já vem com botox! Boneco Serra versão Drácula com gripe. E a dona Marisa, uma Hello Kitty. Porque ela é uma boneca muda. Aliás, eu acho que a dona Marisa não é muda, é ATÔNITA! Ficar ouvindo o Lula falar! O boneco mais caro é o do Sarney, vem com a família inteira. E o mais barato é o do Lula; vem faltando um dedo. Um dedo e um cérebro. Rarará!

E adorei o senador Mão Santa: "Não tem voo aéreo internacional em Teresina". E a pergunta num programa de rádio da Bahia: "Como é o nome do tráfego aéreo intenso entre duas cidades?". E o baiano: "SALVADOR!". Rarará! Adorei esse baiano!

É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: "É mole, mas trisca pra ver o que acontece!".

E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. Hoje não tem. ENEM nunca mais! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza.

Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

simao@uol.com.br

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Sábado, Outubro 17, 2009



Os estranhos do bem

Pouco lembro do apartamento onde passei minha infância, mas não esqueci nada da rua onde morava, das casas vizinhas, do quarteirão inteiro onde eu brincava desde o início da tarde até o início da noite e, por vezes, inclusive à noite.

Naquela época não havia medo de assaltos, de atropelamentos, de sequestros relâmpagos: a gente pegava a bicicleta e saía com a maior liberdade, sem pânico nem neuras, o oposto do que acontece hoje, quando as crianças só podem brincar dentro do prédio, em prisão domiciliar. Porém, mesmo com liberdade, havia um perigo rondando.

Você deve lembrar o que nossos pais buzinavam em nossos ouvidos a cada vez que abríamos a porta de casa para sair: Não dê conversa a estranhos. Mais uma vez, é o oposto do que acontece hoje. Trancafiados em casa, com as bicicletas enferrujando na garagem, não se faz outra coisa a não ser dar conversa a estranhos.

Quando menina, eu me perguntava: o que será que eles (os adultos) querem dizer com “estranho”? Estranho, pra mim, era um cara que usasse óculos escuros à noite, tivesse um bruta cicatriz ao lado da orelha e uma faca ensanguentada entre os dentes. Mas estranho, pra eles, ia além: era qualquer um que a gente não conhecesse. Podia ser o pároco do bairro: um estranho. Corra!

Assim que tive idade para diferenciar conhecidos e estranhos, acolhi ambos. De um lado, me apegava às amigas do colégio, todas falando igual, vestindo igual, pensando igual e usando o mesmo cabelo: nada como reforçar nossa identidade. De outro, queria saber como era viver em outro país, ter experiências diferentes das minhas, outros costumes. Os livros e o cinema alimentavam essa minha curiosidade, mas não bastava.

Então me inscrevi num programa de intercâmbio de correspondências e acabei fazendo amizade com a Julie, que morava no interior da Inglaterra, com o Carlos, que morava no México, e com a Michelle, que morava na Nova Zelândia.

Trocávamos fotos, falávamos da nossa vida pessoal, contávamos segredos que atravessavam oceanos, tudo em cartas escritas ora em inglês, ora em espanhol, e quando ninguém se entendia, desenhava-se. O que foi feito deles? Não faço a mínima ideia. Mas foram esses estranhos que ampliaram um pouco os meus horizontes e deram sabor de aventura à minha adolescência.

Aí a gente cresce e inventam um troço chamado computador. E os pais somos nós! Conscientes das nossas responsabilidades, batemos à porta do quarto das crianças e damos sequência à tradição, alertando-os: “Não dê conversa a estranhos”.

Quá, quá, quá.

Afora as orientações inevitáveis contra pedófilos e mal-intencionados em geral, é preciso relaxar: ninguém com mais de 10 anos evita estranhos, ao contrário, eles são buscados freneticamente no MSN, no Facebook, no Twitter, no Orkut, onde todos se expõem, transformando o mundo num gigantesco albergue coletivo. Uma versão ligeiramente mais abrangente e instantânea do que aquele meu programa de correspondência internacional.

Jamais pedi atestado de bons antecedentes para quem não conheço. Estranho é mau? Estranho é pior do que a gente? Se devemos ter vigilância com nossos filhos - e devemos mesmo - é preciso também controlar a paranoia e não surtar por eles trocarem ideias com quem nunca viram antes, e provavelmente jamais verão.

Dar conversa a estranhos não significa dar o endereço, o telefone e a senha do banco. Pode ser apenas um bate-papo divertido. E só pra lembrar: estranhos, somos todos.


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Quarta-feira, Outubro 14, 2009



14 de outubro de 2009 | N° 16124
MARTHA MEDEIROS


Mulheres honestas

Foi apenas em 2005 que aprovaram por unanimidade a exclusão do termo “mulher honesta” do Código Penal. Antes disso, a definição de um crime sexual era: “Ter conjunção carnal com mulher honesta, mediante fraude”. Em bom português, se a mulher era “honesta” (virgem, casada, pudica, casta), o violador ia para a cadeia, mas se a mulher fosse “desonesta” (promíscua, livre, notívaga, festeira), o cara era absolvido e ainda recebia uns tapinhas nas costas.

Hoje, a violência sexual contra qualquer mulher, tenha a profissão ou os hábitos que tiver, é punida de forma igual. Reparem: a diferenciação foi suprimida apenas há quatro anos! Antes disso, a violência sexual, ao menos nos termos da lei, era um castigo merecido para a mulher que não andasse na linha.

Algumas entidades religiosas lamentam até hoje que não haja mais a distinção entre mulher honesta e desonesta, e agora surge um livro para acabar com o restinho de fé dos beatos: o mulherio inteiro fez um pacto com o demo, a julgar pelo candidato a best-seller Why Woman Have Sex: understanding sexual motivations from adventure to revange (“Por que as mulheres fazem sexo: compreendendo suas motivações, desde aventura até vingança”), dos pesquisadores Cindy Meston e David Buss.

Eles entrevistaram mais de mil mulheres entre 18 e 87 anos e descobriram 237 razões diferentes para as mulheres praticarem o bem-bom. Se eu, que não levo uma auréola sobre a cabeça, fiquei espantada com a variedade de motivos, imagine o pessoal do Vaticano e seus discípulos: devem ter desmaiado, acordado e desmaiado de novo.

237 razões diferentes para ir para a cama? Os homens, segundo uma divertida crônica do escritor Marcelo Carneiro da Cunha, julgavam que só existisse uma nobilíssima razão para a gente cometer essa barbaridade: o amor. A selvageria e a cachorrice sempre foram monopólio deles. Que história é essa de a gente ter outro motivo além de estar enfeitiçada pelo príncipe encantado?

Bom, eu consigo imaginar mais umas quatro ou cinco razões para as mulheres curtirem uma lua de mel por algumas horas com um quase desconhecido, além do indiscutível e acalantado amor. Elas (não eu!) podem estar querendo um filho. Podem estar dando o troco no marido galinha. Podem achar que é hora de serem promovidas. Podem estar testando seu poder de sedução. Listei quatro. Vamos ao quinto motivo: elas podem simplesmente estar com vontade, já que sexo é bom. Reparem que usei um adjetivo discreto.

Cinco, mais o amor, somam seis razões, nem todas louváveis. Sobram 231 razões que, na minha santa ingenuidade, não consigo imaginar, mas o livro entrega: elas (não eu!) transam para garantir uma nota alta na prova, para queimar calorias, para ganhar presentes, para agradecer uma carona, para se livrar da enxaqueca, para se exibir para as amigas, para estrear uma lingerie nova, por piedade, pra cumprir promessa, e acredite, transam até em troca de favores domésticos: sou tua, desde que você se encarregue da louça no domingo.

Acabo de listar mais 10 razões, todas igualmente menos elevadas que o amor, e ainda restam inacreditáveis 221 que minha debilitada inspiração não consegue adivinhar. Só sei que, até quatro anos atrás, essas moças entre 18 e 87 anos estariam presas. Hoje estão aí, livres, leves, soltas e esbanjando criatividade.

Bem nesta quarta-feira a gente sai um pouqinho de Lisboa para o interior de Portugal. Dias de céu azul, mar calmo e um sol de verão. Uma linda quarta-feira para todos nós.

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Sábado, Outubro 10, 2009



Sua majestade, a criança

Tem se falado muito na falta de limites das crianças de hoje. A garotada manda e desmanda nos pais e estes, sentindo-se culpados pelo pouco tempo que ficam em casa, aceitam a troca de hierarquia – hoje os adultos é que recebem ordens e reprimendas, e não demora serão colocados de castigo.

Segundo os pedagogos, precisamos voltar a dizer não para a pirralhada. É a ausência do não que faz com que meninas saiam de madrugada sem avisar para onde estão indo, garotos peguem o carro do pai sem ter habilitação e todos sejam estimulados a consumir descontroladamente, a não dar explicações e a viver sem custódia. Mas onde encontrar energia para discutir com filho?

Pai e mãe se jogam no sofá e pensam: “Façam o que bem entender, desde que nos deixem quietos vendo a novela”.

Alguns adultos defendem-se dizendo que é impossível dar limites, vigiar e orientar, tendo que sair de manhã para o batente e voltar à noite demolidos pelo cansaço. Compreendo, é complicado mesmo.

Se existe uma liberalidade e agressividade maior hoje entre as crianças, é claro que o fato de as mulheres terem entrado no mercado de trabalho e deixado em aberto o posto de rainhas do lar tem algo a ver com isso. Mas nem me passa pela cabeça estimular um meia-volta, volver. A sociedade avançou com a participação das mulheres e esse é um caminho sem retorno. O que compromete o destino de uma criança é não ter sido amada. E muitas não foram, mesmo com os pais por perto.

A falta de amor é a origem de grande parte das neuroses, psicoses e desvios de conduta. Uma criança que não se sentiu amada pode cometer erros de avaliação sobre si própria e cometer desvarios para alcançar uma autoestima que está sempre fora de alcance.

Não adianta o pai e a mãe passarem a mão na cabeça do filhote de vez em quando e repetir um “eu te amo” automático. A criança precisa se sentir amada de verdade, e as demonstrações não se dão apenas com beijos e abraços, e tampouco com proibições sem justa causa.

O “não deixo, não pode” tem que ser argumentado. “Não deixo e não pode porque....” Tem que gastar o latim. Explicar. E prestar atenção no filho, controlar seus hábitos, perceber seus silêncios, demonstrar interesse pelo que ele faz, pelo que ele pensa, quem são seus amigos, quais suas aptidões, do que ele se ressente, o que está calando, por que está chorando, se sua rebeldia é uma maneira de pedir socorro, se está precisando conversar, se o que tem sentido é demasiado pesado pra ele, se precisa repartir suas dores, se está sendo bem acolhido pela escola,

se não estão exigindo dele mais do que ele pode dar, se não foram transferidas responsabilidades para ele que são incompatíveis com sua idade, se há como entender e aceitar seus desejos, se ele está arriscando a própria vida e precisa de freio, se estamos deixando ele sonhar alto demais, se estamos induzindo que ele sonhe de menos, se ele está recebendo os estímulos certos ou desenvolvendo preconceitos generalizados.

Dá uma trabalheira, mas isso é amar.

Algumas crianças são criadas por empregadas, ou seja, são terceirizadas e depois o psiquiatra que junte os cacos. Com amor, ao contrário, toda criança sente-se ilustríssima, majestade, vossa excelência, sem fazer mau uso do cargo.

Será confiante e segura como um rei, não se violentará para agradar os outros (usando drogas ou imitando o que os outros fazem para ser aceita num grupo). Será o que é, afinada com o próprio eixo. E se transformará num adulto bem resolvido, porque a lembrança da infância terá deixado nela a dimensão da importância que ela tem.

Bem a viagem pela TAP ainda é muito gostosa, haja vista a janta que servem com vários cardápios ainda para escolher, bem como o café da manhã. As colinas de Lisboa continuam as mesmas e hoje a gente foi rever a do Castelo de São Jorge.

Enquanto os meninos/meninas sairam para bebemorar nos barzinhos aqui do Bairro do Chiado eu estou a postar para voces. Um bom domingo e um ótimo início de semana.



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Sexta-feira, Outubro 09, 2009



FACE SHAKTI EU ACESSO O PODER PARA SER QUEM EU SOU

Nas antigas tradições matriarcais, a força feminina é considerada sagrada, uma manifestação do lado feminino de Deus. Na Índia, essa energia divina é chamada de Shakti e está presente nas divindades femininas e também habita homens e mulheres.

“Quando uso essa face, recebo inspiração para minha verdade e destino, e força para retornar à morada do Eu”, ensina Caroline. Ela nos faz entender o que tem sentido em nossa vida e como podemos contribuir, não a harmonia de todos os seres. Aprendemos a escutar a voz da intuição.

A Face Shakti também revela em que condições podemos nos sentir plenas. E mostra como desperdiçamos energia em coisas que não trazem nenhuma felicidade. O despertar de Shakti leva ao fortalecimento interior, a um despertar para a nossa realidade. Essa força divina, segundo Caroline Ward, está ancorada em oito poderes distintos, que podem ser acionados com exercícios e meditações. Suas principais qualidades são:

O PODER DO AFASTAMENTO:
possibilita o distanciamento da situação emocional em que estamos e deixa ver a realidade de uma perspectiva objetiva.

O PODER DA COOPERAÇÃO:
faz com que usemos nossa força em benefício do outro e nos recompensa com uma energia nova e potente.

O PODER DA LIBERTAÇÃO:
traz força para cortarmos as correntes que nos aprisionam internamente.

O PODER DO ENFRENTAMENTO:
fornece energia para lidarmos com os sentimentos do nosso mundo interior.

O PODER DA TOLERÂNCIA:
mostra como ir além de reações imediatas e intempestivas – é o caminho da sabedoria.

O PODER DA DECISÃO:
dá vigor para nos comprometermos com os objetivos importantes.

O PODER DA ACEITAÇÃ0:
ensina como deixar para trás o que deveria ser para trabalhar com o que de fato é.

O PODER DO DISCERNIMENTO:
permite ver a verdade exatamente como ela é.

A Face Shakti ensina a escutar a voz da intuição, aquela que sabe nos dizer qual o caminho a seguir. Ela torna-se nossa bússola e ativa a memória do que nos faz felizes.

Bem é chegada a hora de ir. Não há mais como procrastinar. Lisboa que me espere, Evora, e outras mais. Até a volta amigos. Fiquem bem


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FERNANDO GABEIRA

Uma chance para o Rio

RIO DE JANEIRO - A escolha do Rio para sediar a Olimpíada em 2016 abre grandes caminhos. Líderes políticos, Lula à frente, tiveram um belo papel nisso e merecem os dividendos políticos que vão colher.

Para quem vive na cidade, o tema entrou na agenda. Em primeiro lugar, estudar a história das Olimpíadas e grandes empresas esportivas que floresceram à sua sombra. Em segundo lugar, cooperar com o êxito da inédita experiência brasileira.

O êxito pode ser medido em duas dimensões. A da realização pura e simples da Olimpíada e a do impulso para que o Rio fixe uma identidade global: cidade do conhecimento, laboratório da sustentabilidade urbana e centro internacional de turismo.

Nesse último ponto, o crescimento poderia articular-se com áreas mais próximas: a região serrana, Niterói, o litoral de Búzios, Angra, Parati.

Em 2008, discutimos muito a recuperação do Rio. Os obstáculos são muitos. Mas uma coisa a cidade sempre demonstrou quando foi acionada: a disposição para se mobilizar.

Por que não resolver a pobreza, aumentar a segurança, melhorar o sistema de saúde antes de uma grande aventura? A solução de todos esses problemas depende também de crescimento econômico.

Se o esforço de fazer uma Olimpíada for combinado com uma perspectiva estratégica de recuperação da cidade, as chances são muito maiores. O projeto destinado à vitória na Dinamarca enfatiza a beleza da cidade. A visão de recuperá-la enfoca também as áreas decadentes, como a região portuária.

É possível manter a fidelidade ao projeto original e encaminhar benefícios para o centro do Rio. O prefeito Eduardo Paes parece disposto a caminhar nesse sentido.
Barcelona foi vencedora durante e depois da Olimpíada. Montreal ficou com dívidas e com um gosto de oportunidade perdida.


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ELIANE CANTANHÊDE

A cara do Itamaraty

BRASÍLIA - Com o "agrément" do governo argentino para o novo embaixador brasileiro em Buenos Aires, Ênio Cordeiro, o chanceler Celso Amorim formaliza a nova dança de cadeiras no Itamaraty e deixa seus principais amigos e colaboradores em funções-chave da diplomacia na campanha eleitoral e na reta final do governo Lula.

Amorim é um dos quatro ministros que entraram com Lula no primeiro dia do primeiro mandato e tendem a chegar com ele, no mesmo cargo, até o último dia do último mandato. A não ser que, contrariando as expectativas, Amorim decida sacar a sua ficha de filiação ao PT, novinha em folha, para disputar um mandato, por exemplo, de deputado federal pelo Rio de Janeiro.

Samuel Pinheiro Guimarães, decisivo para enterrar a Alca (Área de Livre Comércio das Américas), se despede da carreira depois de ocupar a Secretaria-Geral, segundo posto da hierarquia, mas sem jamais ter sido embaixador no exterior.

Sai da carreira, mas mantém fortes laços com o PT e com Lula e tem vaga certa na formulação do programa de Dilma à Presidência.

Com o maduro Samuel num posto-chave, Amorim passou a dar destaque para os "jovens" da carreira, a ponto de surpreender com a insólita indicação de Antonio Patriota para a mais poderosa embaixada do planeta, a de Washington, sem que ele jamais tivesse ocupado alguma outra embaixada antes. Ou seja, sem ser treinado nem avaliado.

Uma ousadia e tanto, ainda sem se saber o grau de acerto -ou de erro.

O Itamaraty da campanha e do último ano fica assim: Patriota na Secretaria-Geral, Mauro Vieira na Embaixada de Washington, Ênio Cordeiro na de Buenos Aires, Vera Machado na Subsecretaria-Geral de Política, Roberto Azevedo na OMC e Maria Luiza Viotti na ONU.
Convém registrar esses nomes.

Eles são o Itamaraty de hoje e, provavelmente, de amanhã, ganhe quem ganhar em 2010.

elianec@uol.com.br


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09 de outubro de 2009 | N° 16119
PAULO SANT’ANA


La Negra

Muitos leitores me perguntam o motivo de Mercedes Sosa ter sido apelidada de La Negra.

Não sei a razão, mas calculo, presumo: no início de sua carreira, no auge das ditaduras militares argentinas, ela se trajava inteiramente de preto em seus shows, em protesto pela lástima do regime.

Lendo parte da biografia de Mercedes Sosa, fui ver um ponto espetacular: certa vez, no auge da ditadura, La Negra foi cantar num ginásio.

O Exército cercou o local e foi presa Mercedes. Mas incrivelmente foi preso também todo o público.

Eu escrevi, se muitos não acreditam, todo o público.

Nunca vi prenderem o público. Aqui em Porto Alegre, por exemplo, as polícias e o Ministério Público têm dado batidas e fechado bingos e casas de jogos de maquininha.

Mas o público tem se livrado solto.

Se o custo de uma Olimpíada fosse só o orçado, ainda se a toleraria.

Mas todos sabemos que será 10 vezes mais.

Ontem, um adepto fanatizado em favor da Olimpíada do Rio de Janeiro confessou-me que a frase que o intimidou e deixou-o inerte em argumentação foi: “Ave, Olimpíada, os que vão morrer te saúdam!”.

Deixem que eu me torne um avô coruja. Meu neto Pedro Sant’Ana Wainer, com 13 anos de idade, sagrou-se no mês passado campeão brasileiro de esgrima, na modalidade sabre, batendo sete adversários individualmente e sagrando-se invicto.

Na finalíssima, meu neto lutou contra seu adversário e contra o ginásio inteiro do clube Pinheiros, que torcia por seu representante.

Eta, gurizinho que deu bom.

Existem velhos com saúde de ferro e jovens doentes. Existem solteiros deprimidos e casados plenos de felicidade.

Existem trabalhadores que ganham muito pouco e vagabundos com grandes ganhos.

Existem parlamentares que não fazem nada, absolutamente nada com seus mandatos, mas se reelegem facilmente em todas as eleições. Há, no entanto, parlamentares de grande atuação em seus mandatos que não conseguem se reeleger.

Há mulheres feias que, no entanto, têm ótimo desempenho sexual com seus parceiros, enquanto mulheres de beleza estonteante são absolutamente frias e inertes na alcova, decepcionando até a lástima seus companheiros.

A vida é assim, de onde menos se espera, é que surge algo, de onde se espera alguma coisa, nada surge.

O bom da vida, por sinal, é essa imponderabilidade. Se tudo acontecesse como mandam os códigos e os manuais de conduta, a vida se tornaria maçante, desinteressante.

O surpreendente é o toque delicioso da vida.

Não fosse assim, e trilhões de pessoas não teriam se comovido durante esses últimos 2 mil anos com a obra e a mensagem de um filho de carpinteiro, que peregrinava entre Nazaré e Jerusalém e mudou a face do mundo, empolgou gerações sobre gerações e ensinou que o negócio é amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

A Bíblia e as dezenas de livros sagrados que a compõem são repletos de surpresas. E de mistérios, confesso.

Mas, para tudo o que se quer saber, consta na Bíblia a solução.


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9 de outubro de 2009 | N° 16119
DAVID COIMBRA


O que um homem realmente quer

Aos dois anos de idade, meu filhinho encontra-se diante de todo o drama humano que se passa debaixo do sol. Atravessa os dias empregando uma espécie de fórmula de encantamento, uma frase curta, mas que resume com exatidão o que há de realmente importante na vida.

Os crimes bestiais, as criações celestiais, as filosofias de Schopenhauer e de Nietzsche, as teses de Freud, o cerne do Cristianismo e, mais ainda, do Budismo, tudo está contido nessa frase. Uma frase que pode ser a salvação ou a perdição do homem, que você pode não falar, mas está todos os dias, o dia todo, pulsando-lhe na alma. Esta:

Eu quero.

Ou, no caso dele, eu quelo. Com a variação evidente, que na verdade não é uma variação, é uma mudança de lado do mesmo objeto: eu não quelo.

O tempo todo ele passa exercitando esse novo poder, recitando as palavras mágicas. Eu quelo! Eu não quelo!

E está tudo ali. Tenho a sorte de ver de perto o espírito humano se formando em toda a sua aparente complexidade, como se eu fosse um cientista da National Geographic observando o comportamento das hienas do Serengeti.

Todos os conflitos que estufam de dólares as contas bancárias dos psicanalistas estão fermentando agora mesmo na alma do meu nenê. Como eu, você e os outros 6 bilhões e meio de pessoas do planeta, ele quer, mas às vezes o que ele quer lhe é negado; ou não quer, mas às vezes o que ele não quer lhe é imposto.

E ainda mais sofisticado: às vezes ele não sabe o que quer, ou, se quer, não sabe que, tendo satisfeito o seu desejo, mais tarde não quererá mais, ou terá outro querer.

O que mais espanta é isso. É que você, adulto formado, você que já trançou a língua na língua de outro adulto formado, você que é capaz de parar um ônibus ao erguer o braço, você que usa óculos escuros, que caminha sozinho pelo centro da cidade, que consulta o Google, você que lê as horas no relógio, que faz todas essas coisas típicas de adultos formados, você não é diferente de um nenê de dois anos, na essência.

Você está cheio de quereres, e quer mais aquilo que não tem, porque o que você já tem você não precisa mais querer.

Como um nenê de dois anos, você passa o dia querendo e tentando satisfazer esses desejos na ilusão de que isso lhe trará felicidade. Você quer tomar um café, você quer ler o jornal, quer comprar uma camisa, quer trocar de carro, quer trançar a língua naquela outra língua. Não são necessidades; são desejos. A alma do capitalismo, algum cínico pode dizer. E é verdade, porque o capitalismo é o sistema mais humano que há, em tudo o que há de ruim e em tudo o que há de bom.

Desde os dois anos você compreende essa verdade: que querer, de fato, é poder. Mas não poder no sentido de conseguir. Poder no sentido de força. Por causa desta frase, eu quero, o mundo se move, as pessoas se amam e se matam.

Todos querem a todo tempo, e querem tanto e tanto que se confundem. Você sabe realmente o que quer? Decerto que não. Mas talvez você e meu filhinho tenham que descobrir que querer menos é sofrer menos, e sofrer menos, quase sempre, é o máximo que se pode fazer para ser feliz.


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FACE SHAKTI EU ACESSO O PODER PARA SER QUEM EU SOU

Nas antigas tradições matriarcais, a força feminina é considerada sagrada, uma manifestação do lado feminino de Deus. Na Índia, essa energia divina é chamada de Shakti e está presente nas divindades femininas e também habita homens e mulheres.

“Quando uso essa face, recebo inspiração para minha verdade e destino, e força para retornar à morada do Eu”, ensina Caroline. Ela nos faz entender o que tem sentido em nossa vida e como podemos contribuir, não a harmonia de todos os seres. Aprendemos a escutar a voz da intuição.

A Face Shakti também revela em que condições podemos nos sentir plenas. E mostra como desperdiçamos energia em coisas que não trazem nenhuma felicidade. O despertar de Shakti leva ao fortalecimento interior, a um despertar para a nossa realidade. Essa força divina, segundo Caroline Ward, está ancorada em oito poderes distintos, que podem ser acionados com exercícios e meditações. Suas principais qualidades são:

O PODER DO AFASTAMENTO:
possibilita o distanciamento da situação emocional em que estamos e deixa ver a realidade de uma perspectiva objetiva.

O PODER DA COOPERAÇÃO:
faz com que usemos nossa força em benefício do outro e nos recompensa com uma energia nova e potente.

O PODER DA LIBERTAÇÃO:
traz força para cortarmos as correntes que nos aprisionam internamente.

O PODER DO ENFRENTAMENTO:
fornece energia para lidarmos com os sentimentos do nosso mundo interior.

O PODER DA TOLERÂNCIA:
mostra como ir além de reações imediatas e intempestivas – é o caminho da sabedoria.

O PODER DA DECISÃO:
dá vigor para nos comprometermos com os objetivos importantes.

O PODER DA ACEITAÇÃ0:
ensina como deixar para trás o que deveria ser para trabalhar com o que de fato é.

O PODER DO DISCERNIMENTO:
permite ver a verdade exatamente como ela é.

A Face Shakti ensina a escutar a voz da intuição, aquela que sabe nos dizer qual o caminho a seguir. Ela torna-se nossa bússola e ativa a memória do que nos faz felizes.

Bem é chegada a hora de ir. Não há mais como procrastinar. Lisboa que me espere, Evora, e outras mais. Até a volta amigos. Fiquem bem


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Quinta-feira, Outubro 08, 2009



Abandono

Sou mil sonhos

E mil ilusões,

Poucas palavras

E muitas canções...

Amor colado na pele,

Sou rio correndo acima,

Oceano em tormenta,

Desembocando

Gota por gota

No seio da sua vida,

Te possuindo lentamente

Pra me abandonar

No seu abandono.

Seus braços

São meus laços

Dos quais não me desfaço,

E me repouso em você

Nesse tumulto de emoções

Que nos invadem

E dominam.

Você é meu vício,

Meu fim, meu meio e início,

Te preciso

Com loucura.!..

E no nosso abandono,

Sou sua completamente!...

Perdidamente sua...

Letícia Thompson


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KENNETH MAXWELL

Os encrenqueiros

HONDURAS EVIDENTEMENTE não é prioridade para Barack Obama. Pouco maior do que Santa Catarina, e com 7 milhões de habitantes, o país envia aos EUA 70% de suas exportações. Honduras depende dos EUA de maneira quase patética.

Mas a confusão na política norte-americana quanto a Honduras criou uma oportunidade para muitos que não desejam o melhor para Obama. O conflito entre o presidente deposto, Manuel Zelaya, e o governo sucessor, liderado por Roberto Micheletti, tem motivos sérios.

Mas resta o fato de que Zelaya foi removido da Presidência pelas Forças Armadas hondurenhas e conduzido, ainda de pijama, a um avião que o transportou para a Costa Rica. Todos os membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) condenaram o golpe.

Zelaya está fazendo uma jogada perigosa em Honduras. Ele conta com o apoio do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que sem dúvida aconselhou Zelaya a retornar a Honduras clandestinamente.

Quando ele apareceu inesperadamente na embaixada brasileira em Tegucigalpa, o Brasil teve de enfrentar as consequências. Mas a política adotada pelos EUA não ajudou. Especialmente porque o vácuo foi ocupado pelo senador Jim DeMint, republicano da Carolina do Sul, que é um dos mais severos críticos de Obama.

DeMint foi o único senador, excetuado John Kerry, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, a participar das audiências sobre os indicados de Obama para a América Latina.

Subsequentemente, ele bloqueou Arturo Valenzuela, apontado por Obama como secretário assistente de Estado para o hemisfério ocidental, e Thomas Shannon, que o presidente apontou embaixador ao Brasil. Como o governo não conta com os votos necessários para derrubar esse bloqueio no Senado -são necessários 60-, a política dos EUA para a América Latina está no limbo.

Os conservadores se uniram em apoio a DeMint. Na semana passada, o senador Kerry recusou permissão a DeMint para visitar Honduras. Mas o senador Mitch McConnell, do Kentucky, líder da bancada republicana no Senado, interveio e aprovou a viagem.

A deputada Illeana Ros-Lehtinen, líder da bancada republicana no Comitê de Assuntos Internacionais da Câmara, acompanhada por Lincoln e Mario Diaz-Bellart, políticos norte-americanos de ascendência cubana que, como ela, representam a Flórida, chegou a Tegucigalpa na segunda-feira em uma "missão de busca de informações".

O senador DeMint ganhou notoriedade ao declarar, sobre o programa de reforma de saúde de Obama, que "isso será seu Waterloo.

Ele sairá derrotado". Infelizmente, o presidente deu espaço a DeMint para criar ainda mais problemas.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Uma linda quinta-feira para você


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Quarta-feira, Outubro 07, 2009


VINICIUS TORRES FREIRE

A grande inflação de camelos

Austrália dá a largada da alta de juros no G20, indústria emergente cresce e mercado surta com ideia de inflação

NESTE ANO , a notícia mais notável, para não dizer comovente, a respeito da Austrália foi a ameaça de um grande massacre de camelos. Parece haver uma grande inflação do ruminante no interior australiano. Um estimado milhão de camelos come a escassa vegetação do país, e assim disputa recursos com os rebanhos. Cogitou-se, portanto, um massacre organizado desse animal tão simpático, importado pelos australianos no século 19.

Essa era a notícia mais notável até ontem, quando o Banco Central da Austrália elevou a taxa básica de juros do país, contra os prognósticos de 95% dos ditos analistas de mercado. A Austrália foi a economia desenvolvida que menos sofreu com a crise. Como havia cortado os juros para o menor nível em 49 anos, para 3%, o BC deles decidiu que a taxa estava excepcionalmente abaixo do "nível de equilíbrio".

A Austrália tinha, antes da crise, uma das taxas mais altas no mundo rico (7,25%), disputando a liderança com a Nova Zelândia, um dos motivos pelos quais se especulava bastante com a sua moeda. As exportações australianas também dependem muito de recursos naturais, como ferro. Pode-se perguntar, "e daí a Austrália"?

Juros, câmbio e as exportações australianos têm certa semelhança com o do Brasil (desistimos de importar camelos, apesar de uma tentativa no Ceará). Nós e os australianos também dependemos muito do consumo chinês. Mas, mais importante, os juros australianos motivaram ontem muita especulação, baseada num surto de inflacionite.

Para os surtados, a Austrália elevar os juros foi um "sinal" de que a economia mundial entrou nos trilhos, que acabou o risco de deflação, que de uma vez por todas "commodities" é um mercado para se estar e especular.

Mais: que o diferencial de juros entre EUA e resto do mundo aumentará, que é bom vender dólar e comprar ativos de países vendedores de commodities. Também influenciou o surto a notícia de que um índice calculado pelo HSBC apontou que a atividade industrial dos emergentes no terceiro trimestre de 2009 foi a maior desde o segundo trimestre de 2008.

No resumo da ópera, aumentou o desejo de comprar ativos de risco, como ações, e embarcar no trem da "recuperação global", antes que tudo fique caro. Ativos que funcionam como proteção contra a inflação e contra a queda do dólar inflaram: petróleo, ouro, platina, prata, cobre etc. subiram.

O dólar afundou mais, empurrado ainda por uma notícia de que países petrolíferos estariam a combinar o banimento do dólar como moeda das transações de petróleo. Real e outras "commodity currencies" subiram: dólares australianos e canadenses e o real, por exemplo. O dólar só não caiu ante a libra esterlina (entre as moedas relevantes), que tropeça como a economia britânica.

Ressalte-se a palavra "surto". O "fundo do poço" mal chegou para EUA e Europa. Não se sabe o que será do consumo depois que passar o efeito maior dos incentivos fiscais.

Não se sabe qual será o resultado das empresas daqui para o começo de 2010 (muito resultado foi inflado por corte pontual de custo ou por ajuda estatal mesmo). Logo, pouco se sabe sobre a "recuperação global". Mas continua o surto dos mercados, dopados por dinheiro barato.

vinit@uol.com.br

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07 de outubro de 2009 | N° 16117
MARTHA MEDEIROS


O direito ao sumiço, parte 2

Em janeiro de 2008 publiquei uma crônica chamada “O direito ao sumiço”, onde eu falava sobre pessoas que viajam, mas são incentivadas a mandar notícias a todo instante, seja por e-mail, MSN, Skype ou o que for. Uma ansiedade que não havia antes: quando alguém embarcava pra longe, no máximo enviava uma carta, ou um cartão-postal, telefonava de vez em quando, mas ainda conseguia se sentir livre e sozinho, distante de todos e mais próximo de si mesmo.

Hoje, com toda a parafernália tecnológica à disposição, você não consegue desaparecer: é facilmente acessado, esteja no continente que estiver. Vantagem para quem ficou e sente saudade, mas o viajante que não se desconecta perde uma rara oportunidade de levar a cabo a frase que tantas vezes é dita quando estamos sobrecarregados: “Que vontade de dar uma sumida”.

Isso me veio à mente quando li as notícias sobre esse estranho caso da France Telecom. No espaço de um ano e meio, 24 funcionários da empresa se suicidaram, sem contar os 13 que tentaram se matar e não obtiveram sucesso – acho que sucesso não é a palavra mais adequada pra situação, mas enfim.

Eu não conheço os pormenores do assunto, mas me chamou a atenção o fato de a morte desses funcionários estar vinculada às condições de trabalho: todos se sentiam demasiadamente pressionados. Até aí, não vejo justificativa pra dar fim à vida, a pressão faz parte do meio corporativo em qualquer lugar do planeta, mas há um ponto que merece ponderação: a avalanche de mensagens que lotavam seus computadores e blackberry foi relacionada ao profundo estresse que os acometia.

Faz sentido. Algumas pessoas não conseguem mais distinguir o que é vida pessoal e o que é vida profissional. Estão permanentemente conectadas com os outros, a ponto de perder a conexão consigo próprias.

O blackberry, por exemplo (eu sei que ele já está obsoleto, mas eu também estou, conformem-se), me parece infernal: sei de gente que acorda de madrugada para checar e-mails, numa atitude totalmente compulsiva e insana. As pessoas se sentem agoniadas quando ficam fora de alcance.

É como se o isolamento, o silêncio e a privacidade expatriassem a criatura, a impedissem de estar em meio aos acontecimentos. É uma inversão total de percepção: só nos sentimos vivos quando acionados pelos que estão de fora. Parece até que dentro de nós não acontece nada, não há nenhuma novidade a descobrir.

Óbvio que deve haver outros motivos para a onda de suicídios dos funcionários da France Telecom, mas esse vício de ficar conectado 24 horas, seja por mania ou por exigência profissional, merece uma reflexão. Não podemos perder nosso direito ao sumiço, de dar aquela escapada saudável, que pode acontecer tanto numa viagem como aqui, no dia a dia, bastando pra isso não acessar a internet, desligar o celular e curtir a tão necessária companhia de si mesmo.

Do contrário, vão pipocar mais casos de gente que surta e acaba saltando da ponte como única alternativa de dar uma sumida.

Uma excelente quarta-feira para todos nós. Aproveite o dia.

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Terça-feira, Outubro 06, 2009


DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Bolsistas do Prouni estudarão em Salamanca

Cerca de 40 alunos do Prouni (Programa Universidade para Todos) irão estudar na Universidade de Salamanca, na Espanha. O acordo entre o MEC e a universidade deve valer já para o ano que vem.

A princípio, o governo brasileiro deve dar a eles uma bolsa mensal para que consigam se sustentar no país. Esse valor ainda não foi definido.
Também falta decidir a forma de seleção dos alunos e questões como a duração dos estudos no exterior.

O acordo seria assinado nesta semana, mas a data foi adiada porque, devido à fraude no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o ministro Fernando Haddad não pôde viajar à Espanha.

Uma das iniciativas de maior visibilidade do governo Lula, o Prouni paga o total ou 50% da mensalidade em cursos de graduação oferecidos por instituições particulares para alunos carentes. Para participar, os estudantes devem ter renda familiar mensal de, no máximo, três salários mínimos.

Pós-graduação

A Universidade de Salamanca também deverá inaugurar entre 2010 e 2011 uma pós-graduação em estudos brasileiros. Segundo o diretor do Centro de Estudos Brasileiros da instituição, Gómez Dacal, uma parte dele seria feita no Brasil e outra, na Espanha.

Uma gostosa terça-feira hoje ainda que com chuva outra vez e, para quem está de folga hoje uma ótima folga.


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Segunda-feira, Outubro 05, 2009



05 de outubro de 2009 | N° 16115
KLEDIR RAMIL


Síndrome de Otto

Se você é daqueles que entra no carro, gira a chave e acha que uma força sobrenatural move o veículo, lamento informar-lhe, não existe mágica. O giro da chave aciona um motorzinho elétrico que dá partida ao motorzão, uma máquina extremamente complexa e sofisticada, mas que ainda utiliza o mesmo velho princípio, desde que foi inventada, há mais de um século.

Vou tentar explicar. O coração do seu automóvel chama-se motor à combustão interna. Esse mastodonte é um bicho que aspira ar e gasolina, joga essa mistura dentro de um cilindro e comprime com um pistão.

A mistura, em alta pressão, recebe uma faísca que provoca uma explosão, forçando o pistão a um movimento no sentido contrário. O princípio básico é esse. Apaixonados por mecânica, como eu, conseguem até ver poesia no sincronismo dessa coreografia de válvulas, pistões e virabrequim.

O motor de combustão interna foi inventado pelo alemão Nikolaus Otto, em mil oitocentos e lá vai pedrada. É uma máquina obsoleta. Se alimenta de petróleo, polui a atmosfera e, pasmem, chega a gastar 80% da energia que produz, só para consumo interno. Isso mesmo, o atrito é tão grande, gera tanto calor, que sobra pouca energia pra prestar algum serviço, como movimentar um carro, por exemplo. Ao contrário do motor elétrico, que tem um aproveitamento muitas vezes melhor.

Ou seja, o motor do Otto é uma máquina que gasta quase tudo o que produz só para conseguir se manter funcionando. São os mesmos sintomas de uma patologia que se observa na máquina administrativa de certos governos e também na vida de muita gente.

Será que estamos vivendo só pra pagar as contas, pra conseguir chegar até o fim do mês? Não sobra nada? Será que a gente trabalha só pra sobreviver, pra conseguir se manter em pé? Se é assim, em que momento a gente vive? John Lennon dizia que “a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo planos para o futuro”.

Quando a gente se dá conta, já foi, passou. Mario Quintana escreveu: “A vida são deveres, que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira... Quando se vê, já terminou o ano... Quando se vê, passaram-se 50 anos!”.

Onde foi que se gastou tanta energia? Com que finalidade? Acho que vou repensar o modelo. Vou tentar evoluir para um sistema de vida inspirado no motor elétrico.

Uma gostosa segunda-feira e uma linda semana para você especialmente minha amiga


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Sábado, Outubro 03, 2009



04 de outubro de 2009
N° 16114 - MARTHA MEDEIROS


Amigo de si mesmo

Em seu recém-lançado livro Quem Pensas Tu que Eu Sou?, o psicanalista Abrão Slavutsky reflete sobre a necessidade de conquistar o reconhecimento alheio para que possamos desenvolver nossa autoestima.

Mas como sermos percebidos generosamente pelo olhar dos outros? Os ensaios que compõem o livro percorrem vários caminhos para encontrar essa resposta, em capítulos com títulos instigantes como Se o Cigarro de García Márquez Falasse, Somos Todos Estranhos ou A Crueldade é Humana.

Mas já no prólogo o autor oferece a primeira pílula de sabedoria. Ele reproduz uma questão levantada e respondida pelo filósofo Sêneca: “Perguntas-me qual foi meu maior progresso? Comecei a ser amigo de mim mesmo”.

Como sempre, nosso bem-estar emocional é alcançado com soluções simples, mas poucos levam isso em conta, já que a simplicidade nunca teve muito cartaz entre os que apreciam uma complicaçãozinha. Acreditando que a vida é mais rica no conflito, acabam dispensando esse pó de pirilimpimpim.

Para ser amigo de si mesmo é preciso estar atento a algumas condições do espírito. A primeira aliada da camaradagem é a humildade. Jamais seremos amigos de nós mesmos se continuarmos a interpretar o papel de Hércules ou de qualquer super-herói invencível.

Encare-se no espelho e pergunte: quem eu penso que sou? E chore, porque você é fraco, erra, se engana, explode, faz bobagem. E aí enxugue as lágrimas e perdoe-se, que é o que bons amigos fazem: perdoam.

Ser amigo de si mesmo passa também pelo bom humor. Como ainda há quem não entenda que sem humor não existe chance de sobrevivência? Já martelei muito nesse assunto, então vou usar as palavras de Abrão Slavutsky: “Para atingir a verdade, é preciso superar a seriedade da certeza”.

É uma frase genial. O bem-humorado respeita as certezas, mas as transcende. Só assim o sujeito passa a se divertir com o imponderável da vida e a tolerar suas dificuldades.

Amigar-se consigo também passa pelo que muitos chamam de egoísmo, mas será? Se você faz algo de bom para si próprio estará automaticamente fazendo mal para os outros? Ora. Faça o bem para si e acredite: ninguém vai se chatear com isso.

Negue-se a participar de coisas em que não acredita ou que simplesmente o aborrecem. Presenteie-se com boa música, bons livros e boas conversas. Não troque sua paz por encenação. Não faça nada que o desagrade só para agradar aos outros. Mas seja gentil e educado, isso reforça laços, está incluído no projeto “ser amigo de si mesmo”.

Por fim, pare de pensar. É o melhor conselho que um amigo pode dar a outro: pare de fazer fantasias, sentir-se perseguido, neurotizar relações, comprar briga por besteira, maximizar pequenas chatices, estender discussões, buscar no passado as justificativas para ser do jeito que é, fazendo a linha “sou rebelde porque o mundo quis assim”. Sem essa. O mundo nem estava prestando atenção em você, acorde. Salve-se dos seus traumas de infância.

Quem não consegue sozinho, deve acudir-se com um terapeuta. Só não pode esquecer: sem amizade por si próprio, nunca haverá progresso possível, como bem escreveu Sêneca cerca de 2.000 anos atrás. Permanecerá enredado em suas próprias angústias e sendo nada menos que seu pior inimigo.

Um lindo domingo especialmente para você.


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Roberto Pompeu de Toledo

A arte de morrer

"O sistema de som começou a tocar a Floresta Amazônica. Gandelman comentou: "Fico sempre arrepiado de ouvir isso. O Villa é mesmo o maior". E mais não disse. Caiu morto"

Um artigo publicado na semana passada na Folha de S.Paulo, Ruy Castro narrou as extraordinárias circunstâncias da morte do advogado Henrique Gandelman, um especialista em direitos autorais que, entre outros feitos, dedicou anos à tarefa de trazer os direitos sobre a obra de Villa-Lobos, desencaminhados mundo afora, para o espólio do artista.

"Foi um trabalho de amor, poucos amavam tanto Villa-Lobos", escreve Ruy Castro. Gandelman, que estudou música na juventude, era, além de defensor dos direitos, um profundo conhecedor da obra do grande compositor brasileiro.

No dia 24 de setembro, ele ia dar uma palestra no Museu Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, e receber uma homenagem. Enquanto, no camarim, esperava a hora de se apresentar, o sistema de som começou a tocar a Floresta Amazônica. Gandelman, de mãos dadas com a mulher, comentou: "Fico sempre arrepiado de ouvir isso. O Villa é mesmo o maior". E mais não disse, nem lhe foi perguntado. Soltou um suspiro e caiu morto. Aneurisma. Tinha 80 anos.

É o caso de dizer, para cunhar uma expressão nova, que "a vida imita a arte". Ao morrer sob o impacto de seu artista predileto, Gandelman repetiu a morte de um personagem de Marcel Proust, o escritor Bergotte. Numa famosa passagem de Em Busca do Tempo Perdido, Bergotte vai a uma exposição de arte holandesa em Paris que, entre outros quadros, exibe Vista de Delft, de Johannes Vermeer.

Assim como Gandelman com relação à Floresta Amazônica, Bergotte é um apaixonado pela Vista de Delft. Já a contemplou várias vezes, e em cada uma descobre coisas novas. Nesta, ele repara pela primeira vez nos pequenos personagens vestidos de azul, à esquerda da tela, e na cor rósea da areia em que pisam. Principalmente, fixa a atenção num pequeno pedaço de muro amarelo.

O muro amarelo, aparentemente insignificante, no conjunto de um quadro que mostra um aglomerado de construções à beira do rio, o captura de modo irresistível. Seu olhar se fixa nele "como o de uma criança em uma borboleta amarela que deseja apanhar". Sente então uma tontura, acomoda-se num banco e morre.

Ruy Castro chamou a morte de Gandelman de "a morte ideal". Como Bergotte, o advogado morreu sob o impacto de uma emoção estética, e não uma emoção estética qualquer, mas da obra predileta, ou uma das obras prediletas, do artista predileto. Os santos morrem, ou morriam, com antevisões do paraíso. Santa Teresa de Ávila morreu dizendo: "Chegou enfim a hora, Senhor, de nos vermos face a face".

São Francisco disse: "Seja bem-vinda, irmã morte". São João da Cruz, na noite de sua morte, diz aos companheiros: "Eu cantarei as matinas no céu". Pede que lhe leiam o Cântico dos Cânticos. Antes do amanhecer, apruma-se no leito e diz: "Glória a Deus! Senhor, minha alma está em suas mãos". A morte ideal, na era dos santos, era acompanhada pelo transe místico.

O Bergotte de Proust representa um rompimento com esse modelo, em favor do transe estético. Gandelman o repica. Numa era laica, de valores racionalistas, como a nossa, a arte substitui o misticismo no provimento de uma elevação espiritual compatível com esse momento grave entre todos que é o momento da morte.

O som de Villa-Lobos substitui a cítara dos anjos que os místicos já começavam a ouvir na iminência da morte e as cores de Vermeer substituem a visão do manto resplandecente da Virgem Maria. Mas não é só nisso que a morte ideal do homem de hoje se diferencia da do antigo.

Morte ideal, hoje, é a morte repentina, sem dor, sem remédios e sem UTI. De preferência, tão repentina que poupe até da consciência de que se está morrendo. Os santos morriam tão conscientes da morte que até podiam saudar sua chegada. Antes deles, Sócrates morreu despedindo-se dos amigos e filosofando sobre a morte.

Para os gregos, era a morte ideal. Em nosso tempo, um valor altamente apreciado é a morte que nos poupe da angústia, ou do susto, ou do pânico, de saber que se está morrendo. É uma espécie de ludíbrio que aplicamos na morte. O.k., você chegou. Mas nem nos demos conta disso. A visita foi humilhada por um anfitrião que nem olhou para sua cara.

Talvez seja síndrome de uma época de ritmo acelerado, cheia de urgências, como a nossa. Morte? Quem quer perder tempo com ela? Resta a dúvida sobre o significado profundo desse desejo de uma morte sem anúncio, que não mostre seu rosto. É uma esperteza que nos diminui? Ou a sabedoria de constatar que quanto menos angústia e sofrimento, melhor? Cada um que dê sua resposta.

Uma linda tarde de um sábado primaveril para você...

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Isabela Boscov - divulgação - GLÓRIA FEITA DE SANGUE

Tarantino na idade da razão



Em Bastardos Inglórios, uma unidade voluntária de soldados judeus espalha o pânico entre os nazistas na França ocupada. É uma fantasia típica de Quentin Tarantino - mas, da escrita soberba à escolha dos atores excelentes, denota o avanço notável do diretor rumo à maturidade pessoal e artística

Eli Roth, como "O Urso Judeu", e Brad Pitt, como Aldo "O Apache" Raine, dois dos bastardos inglórios: sotaque caipira e nazistas escalpelados para desestabilizar a França sob domínio alemão

Em 1941, diante de uma pequena casa de fazenda, em algum lugar montanhoso da França, o sol brilha, os sinos das vacas são ouvidos ao longe e o pai corta lenha, enquanto a filha pendura a roupa no varal. Pelo lado do lençol que se levanta com o vento, porém, ela vê um grupo de soldados vindo pela estrada, e imediatamente esse quadro tão pitoresco de rusticidade ganha um caráter diverso.

Em vez da paz rural, o que se percebe agora é o isolamento da casa e quanto o pai e suas três filhas estão indefesos ali. Ajuda muito que a trilha escolhida para a cena seja um trecho original de Ennio Morricone para os faroestes-espaguete de Sergio Leone, capaz de anunciar como nenhuma outra coisa jamais composta para o cinema a solidão e o perigo.

Mas os enquadramentos exímios e o tempo impecável em que transcorre essa sequência de abertura de Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, Estados Unidos/Alemanha, 2009), que estreia no país na próxima sexta-feira, são obra e graça de Quentin Tarantino - tanto eles como a destreza com que o fazendeiro francês e o tenente-coronel alemão Hans Landa, que acabou de chegar com seus soldados, vão descrever círculos um em torno do outro, num enfrentamento que tem como objeto o paradeiro de uma família judia, e em que as armas serão um copo de leite, dois cachimbos, as três meninas e o domínio de ambos os personagens do inglês e do francês.

Na maneira como Tarantino retrai e prolonga o tempo previsto para chegar ao desfecho, essa abertura é eletrizante. E ilustra também a distância que o diretor vem percorrendo rumo à maturidade, em um caminho já indicado na segunda parte de Kill Bill.

Tarantino é capaz, agora, de imaginar não só um jogo entre dois personagens, mas um porquê para ele que vá além de suas contingências narrativas. Consegue ouvir a beleza de um diálogo travado, não meramente disparado. E aprendeu a apreciar a utilidade emocional da pausa e dos pequenos milagres que os bons atores podem proporcionar.

O pouco conhecido Denis Menochet, que interpreta o fazendeiro, é excelente, e com cada pequeno gesto acumula mais algum dado sobre a vida e o passado de seu personagem, ainda que nem uma palavra se diga sobre eles. E o ainda menos conhecido Christoph Waltz, que faz o nazista, é espetacular: um ator de precisão absoluta, que rouba o filme com a anuên-cia do diretor - e dos outros atores, igualmente galvanizados por sua performance.

O tenente-coronel Hans Landa, assim, será ainda mais essencial para o filme do que os próprios bastardos inglórios - uma unidade especial de soldados judeus voluntários, que penetram na França ocupada para assassinar nazistas com selvageria e dessa forma espalhar o pânico.

Liderados pelo tenente Aldo "O Apache" Raine (Brad Pitt), um matuto do Tennessee com um sotaque caipira mais espesso que melaço e o hábito de escalpelar suas vítimas, os bastardos são uma criação típica de Tarantino (que, claro, não deixou de ser ele mesmo): um grupo de homens que se comunicam por meio de frases de efeito - bom efeito, aliás - e se dedicam à violência com prazer, sem pesar nem drama de consciência.

Quando eles estão em cena, o filme adquire continuidade com os outros do diretor em tema, estilo e volume bruto de sangue. Quando não, Bastardos Inglórios assinala uma espécie de ruptura.

Em um processo análogo ao do canadense David Cronenberg, que depois de explorar a fundo as possibilidades da escatologia se renovou com o classicismo de Marcas da Violência e Senhores do Crime,

Tarantino estuda aqui as propriedades desestabilizadoras da elegância. Cada ato do filme agrupa um determinado número de personagens em um cenário delimitado - uma taverna, um cinema, uma mesa de restaurante. Todos tratam de alguém dissimulando e correndo grande risco; mas os duelos são travados por meio de insinuações.

Assim, a estrela de cinema e agente dupla Bridget von Hammersmark (a alemã Diane Kruger, que depois de quase afundar com Troia hoje só faz brilhar) tem de colocar aliados e alemães em volta de uma rodada de bebidas sem que ninguém se traia, e de forma a que aquilo que tem de ser descoberto o seja.

A judia disfarçada Shosanna (Mélanie Laurent), por sua vez, tem de repudiar as atenções insistentes de um herói de guerra nazista (Daniel Brühl) sem antagonizá-lo - e ambas, em momentos diversos, terão de sobreviver aos ataques de cordialidade, efusão e malevolência do tenente-coronel Landa. Tão fabulosa é a escrita dessas cenas que a mera menção a um copo de leite causa uma vertigem de medo.

Bastardos Inglórios, contudo, não é um filme sobre a II Guerra. Não é nem mesmo uma história fantasiosa passada na II Guerra, já que trata de dois complôs paralelos para pulverizar, literalmente, o alto-comando nazista.

É um filme passado em todos os outros filmes já feitos sobre o tema, com vários elementos dos noir dos anos 30 e dos faroestes de John Ford e Sergio Leo-ne acrescidos à sua encenação.

É um filme que pertence só à história do cinema, não à outra, a mais ampla. Mas, como no segundo Kill Bill, Tarantino mostra que descobriu a existência de outro mundo para além desse território imaginário - e que entendeu que, quanto mais se alimentar dele, mais verossímil e envolvente será sua fantasia.


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Sexta-feira, Outubro 02, 2009



A tolerância entre os povos, segundo David Raskin

O doutor David Raskin nasceu em Erechim em 1929, filho de imigrantes vindos da Rússia. Depois da infância em Erechim e Santa Maria, cursou medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especializou-se em oftalmologia. Clinicou em Videira e em Criciúma, em Santa Catarina e, há mais de cinquenta anos, trabalha em Porto Alegre.

Ao longo dos anos, leitor infatigável, dedicou-se, como autodidata, ao estudo das três grandes religiões monoteístas – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Sempre gostou de estudar as origens, semelhanças e diferenças das religiões e, há poucos dias, lançou o livro Três Deuses e uma Trindade, detalhada investigação dos fatos históricos das três grandes crenças.

Num mundo tão repleto de fanatismos, incompreensões e antagonismos, quase sempre causados pela falta de informações, a obra do Dr. David vem em ótimo momento.

O autor não nega sua filiação ao judaísmo, mas evita qualquer proselitismo a favor de uma ou outra religião. Com linguagem acessível e abordagem direta, o autor, acima de tudo, depois de estudar temas polêmicos como o julgamento de Jesus e a Delação Premiada de Judas, analisa, de forma comparativa, os fatos omitidos ou mal interpretados em textos sagrados e propõe: o importante não é ser crente ou ateu, mas ser tolerante e acolhedor com todas as pessoas, independentemente da orientação pessoal.

Raskin fala de Deus e Fé, dos profetas do Islã, das fases de vida de Jesus, do Holocausto e dos livros sagrados: a Torá, os Evangelhos e o Corão. Ressaltando os princípios humanistas presentes nas três grandes religiões, o autor contribui para o diálogo e a tolerância entre os povos, algo fundamental para os dias de hoje, quando o egoísmo, a vaidade e o fanatismo parecem ter atingido proporções nunca vistas.

O volume tem apresentações de David Coimbra e Ali Kamel. Nas páginas finais, um útil glossário e belas imagens religiosas, além de relação da bibliografia consultada e posfácio.

Em síntese, além de nos trazer esclarecimentos e visões históricas sobre temas tão relevantes, o autor nos convida a pensar e agir em relação a diferenças e semelhanças que, ao fim e ao cabo, devem servir para buscarmos a convivência fraterna e tolerante e a paz e não para sentirmo-nos superiores aos nossos semelhantes.

Três Deus e uma Trindade tem 186 páginas e foi publicado pela AGE, telefone 51-3061-9385.

Uma linda sexta-feira e um gostoso fim de semana, com sol espera-se, lá fora e dentro de nossos coraçãozinhos.

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Quinta-feira, Outubro 01, 2009


KENNETH MAXWELL

Agente secreto

OS ROMANCES de Arthur Ransome me entusiasmavam quando eu era jovem. Costumava lê-los avidamente, repetidas vezes. Eu adorava suas histórias, repletas de acampamentos ao ar livre, escaladas e aventuras marinhas, e nas quais, até onde me lembro, não apareciam adultos.

No começo dos anos 50, o escritor, com seu espesso bigode, paletó de tweed, chapéu de feltro e onipresente cachimbo, me parecia um gentil e perene guardião dos meus sonhos de infância.

Ou era essa a impressão que ele causava. Arthur Ransome nasceu em Leeds, em 1884. Seu pai, professor na universidade local, morreu quando o menino tinha 13 anos.

O jovem Arthur passou boa parte de sua juventude em Coniston Water, no Lake District, e posteriormente se mudou para "Norfolk Broads", uma área de vias aquáticas interconectadas no leste da Inglaterra.

Cinco de seus romances têm o Lake District como cenário, e dois se passavam em Norfolk. Todos esses títulos continuam em catálogo.

Mas o escritor, morto em 1967, tinha uma outra história. Ele também era espião, e possivelmente agente duplo. Após vencer o célebre processo por difamação que lorde Alfred Douglas abriu contra ele em 1913 devido ao seu livro sobre Oscar Wilde, e de um desastroso primeiro casamento, ele escapou para a Rússia.

Como correspondente do "Daily News", de Londres, e depois do "Manchester Guardian", ele testemunhou a queda do Império Russo e os esforços de Kerensky para sustentar um governo democrático. Ransome estava fora do país quando os bolcheviques tomaram o poder, em outubro de 1917, mas retornou logo em seguida para registrar os primeiros anos do regime bolchevista.

Ransome era muito amigo de Karl Radek, o chefe da seção de propaganda bolchevista, e se tornou um admirador ardoroso de Lênin, cujo retorno à Rússia via Estação Finlândia ele testemunhou.

O escritor era amante de Evgenia Shelepina, a secretária pessoal de Trótski, e apoiava a causa bolchevista, transportando dinheiro para a Suécia e para a Estônia em nome do regime e colaborando com a Cheka, organização que antecedeu a KGB. Também era o "Agente S76" do MI6, o serviço de inteligência externa britânico.

A história dos anos que ele passou na Rússia é contada por Roland Chambers em "The Last Englishman: the Double Life of Arthur Ransome". Após voltar a Londres com Evgenia, em 1924, as autoridades britânicas não conseguiam decidir se Ransome era herói ou traidor. Mas, depois do início dos anos 30, ele se tornou mais conhecido não por seu passado, e sim como um escritor muito amado, que cativou diversas gerações de crianças britânicas -entre as quais eu.

KENNETH MAXWELL escreve às quintas-feiras nesta coluna.

Well, quinta-feira de garoa e chuva fina nesta Porto e que por isso não está nada alegre. Enfim que possamos mesmo assim, termos um bom dia



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